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      Início Reportagem “Há muitas crianças que não podem ser crianças”

      “Há muitas crianças que não podem ser crianças”

       

       

      Celebrou-se ontem o Dia Internacional da Criança, proclamado a 1 de Junho de 1925, durante a Conferência Mundial para o Bem-Estar da Criança. O PONTO FINAL visitou três escolas diferentes do território para ver que importância os educadores e professores, mas também, claro, as próprias crianças, dão à comemoração do dia, uma data celebrada para homenagear as crianças e não deixar cair no esquecimento a garantia dos seus direitos.

       

      Começámos o dia com uma visita à Creche Internacional de São José (CISJ), situada no NAPE, uma instituição com pouco mais de dois anos de existência. Entre as 8h e até pouco depois das 9h, as crianças, acompanhadas por um adulto chegaram a conta-gotas. A maioria surgiu na escola equipada a rigor, como uma fantasia vinda do universo da Disney. Ainda assim alguns super-heróis da Marvel ou da DC Comics também deram o ar da sua graça. “As crianças em idade de creche não distinguem muito o significado do Dia da Criança”, começou por dizer ao PONTO FINAL a directora da instituição, a macaense Nair Cardoso.

      Ainda assim, o dia reveste-se de importância especial, pelo que a celebração da data serve para “criar um símbolo da fraternidade mundial”, onde se “promove e busca bem-estar, saúde e educação das crianças”. “Na CISJ temos por objectivo sempre o bem-estar emocional, o respeito da escolha da criança e promovemos o brincar todos os dias”, admitiu a responsável ao nosso jornal, acrescentando que “hoje [ontem] será mais um dia com uma temática um pouco mais especial”.

      Diversos pontos dentro das instalações da creche estavam ontem preparados para proporcionar diferentes experiências às crianças. Pudemos assistir ao “Toy Story” com um grupo, promover um lanche com outro grupo ou simplesmente brincar sem parar com ainda outro grupo.

      O importante, lembrou Nair Cardoso, é o “respeito pelo interesse da criança”. “Essa é a nossa pedagogia, inspirada pela filosofia educacional de Reggio Emilia. É uma abordagem que valoriza a representação simbólica, os espaços são organizados para serem ambientes educativos e lúdicos, onde há sempre momentos de actividade que permitem às crianças explorarem as suas linguagens através da arte, pintura, música, pesquisas, etc., colocando a criança sempre como protagonista.”

      E ontem, de facto, e mais do que nunca, era dia para que a criança fosse totalmente o único protagonista no palco da vida. “Sim, mas também é um dia importante para nós adultos relembrarmos a importância da felicidade pura das crianças. Um dia para nos consciencializarmos e mostrar gratidão aos filhos, demostrar o orgulho que temos por eles e o bem que nos fazem”, disse ainda a educadora, a dirigir a CISJ há cerca de dois anos, uma escola trilíngue, onde se utiliza no dia-a-dia o português, o inglês e o cantonês.

       

      Ambiente mais festivo

       

      Despedimo-nos da criançada do CISJ e fomos até à zona da Colina da Guia para ver como estavam a passar o dia as crianças do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes. Mais velhos que os anteriores, os meninos e meninas de um dos infantários mais antigo do território, brincavam cada turma na sua própria sala de aula ou então todos juntos no recreio da instituição, anexo ao edifício da escola. “Hoje especialmente todos sabiam que iriam ter um ambiente mais festivo. Todos puderam vir fantasiados de heróis, de princesas ou daquilo que mas gostam”, explicou ao PONTO FINAL Marisa Peixoto, directora do Costa Nunes.

      Ontem, por ali, houve de tudo um pouco, desde lanches partilhados a mais tempo de recreio, passando filmes com pipocas e mais um ou outro apontamento especial devido ao dia que se celebrou. “Não digo que tenha sido um dia muito diferente do habitual, porque, na verdade, num dia normal também fazemos este tipo de actividades, mas tentámos recriar um ambiente mais festivo. No fundo, acabam por fazer hoje um pouco daquilo que eles querem. Hoje mais à vontade e mais tempo do que é costume”, constatou Marisa Peixoto, para quem a celebração do dia “faz cada vez mais sentido”.  “Falo enquanto educadora e enquanto mãe. Às vezes até parece que nos esquecemos o que é ser criança e acho que, por vezes, exigimos demais deles e não os deixamos gozar a infância. Há tempo para tudo, e há tempo para aprenderem as coisas na escola mais tarde. Por vezes, mesmo enquanto educadoras, esquecemos isso.”

      A responsável relembrou ainda que a par das crianças, os adultos também têm sido uns autênticos super-heróis. “Muitos de nós já não vemos a família há quase três anos. As pessoas têm-se aguentado heroicamente, pois já fomos privados de muita coisa”, desabafou, aplaudindo as autoridades pelo relaxamento de algumas das medidas restritivas que outrora vigoraram.

       

      Crianças “muito intolerantes à frustração”

       

      Depois de uma pausa para almoço, a última visita do dia: a Escola Portuguesa de Macau, onde diversas turmas do ensino primário aguardavam pela visita do nosso jornal, previamente autorizado por quem de direito para estar com os mais novos e conversar com eles, se se justificasse. “Porque vem aqui falar connosco e fotografar-nos?”, perguntou uma menina à equipa do PONTO FINAL. Respondemos que queríamos fazer “uma coisa bonita” sobre as crianças de Macau, num dia especial para elas.

      Recebeu-nos uma das coordenadoras do departamento curricular no 1.º ciclo do ensino básico, Carla Lobo. A visita começou precisamente pela sua sala de aula, onde as crianças pintavam t-shirts com motivos alusivos à sua forma de estar na vida enquanto pessoas de bem. “Este ano, como temos algumas restrições, optamos por fazer actividades dentro da sala de aula. Fizemos desde jogos, pinturas, uma colega colocou a sua turma a lançar por videoconferência com uma turma em Portugal. Basicamente, tivemos que optar por ficar na sala e fazermos actividades. Duas turmas ainda foram para o Jardim de São Francisco, mas a maioria passou o dia aqui na escola”, explicou a responsável, depois de uma breve visita a mais outras três salas de aula.

      Apesar do ser criança poder ser considerado até aos 12 anos de idade, salvo raras excepções, as actividades de celebração fazem-se apenas no primeiro ciclo do ensino básico. “Por norma não, a não ser que haja um colega que tenha uma turma de Educação Cívica e Desenvolvimento (ECD) e façam os trabalhos com eles.”

      Para Carla Lobo, tal como para Marisa Peixoto e Nair Cardoso, “faz todo o sentido” comemorar o Dia Mundial da Criança, apesar de apontar que a grande maioria das crianças de Macau terem tudo o que desejam. “Talvez para estas crianças não faça tanto sentido pois elas têm tudo. Eles têm prendas quase todos os dias. Porque cai um dente têm uma prenda. Porque até se portaram bem no jantar também [recebem] outra prenda. Este dia, o que eu faço com eles, e os colegas também fazem, é falarmos um bocadinho de todas as crianças no mundo. Falamos da fome que as crianças passam. Falamos que ainda existe guerra, infelizmente. Falamos que é preciso ser tolerantes uns com os outros, porque as nossas crianças, neste momento, são muito intolerantes à frustração. Receber um ‘não’ hoje pode ser um ‘sim’ amanhã. Faz sempre sentido comemorar o dia porque, infelizmente, há muitas crianças que não podem ser crianças”, anotou.

      A coordenadora do departamento curricular no 1.º ciclo do ensino básico admitiu ainda que têm surgido muitos desafios nos últimos quase três anos devido à pandemia de Covid-19. “O uso de máscara tem sido o maior desafio destes últimos anos. É muito complicado porque nós temos muitas crianças em que o português ainda é a segunda língua. É muito importante o ensino em que eles nos vêem com cara destapada, que nos consigam ouvir bem. Que nos consigam ver bem a maneira como nós falamos, como fala a nossa boca. Por norma essas crianças falam com a boca mais fechada e nós temos muitas palavras que temos de ter a boca a mexer ou até mesmo a língua”, explicou, acrescentando que um outro problema se prende, precisamente, com “as crianças se esconderem atrás da máscara, o que torna difícil a leitura das emoções”.

      Este é, aparentemente, mais um dia igual a tantos outros, mas, ao fim ao cabo, acaba por ser sempre diferente. “São dias muito agitados. Quando é para comemorar algo é complicado eles focarem no tema. Temos de andar sempre em cima delas. Se pudéssemos sair da escola e ficar um dia inteiro, por exemplo, na praia, como já fizemos, seria melhor para eles correrem e brincarem”, concluiu Carla Lobo.

      O Dia Internacional da Criança foi proclamado a 1 de Junho de 1925, durante a Conferência Mundial para o Bem-Estar da Criança, e desde então é assinalado em diversos países espalhados pelo mundo. A Organização das Nações Unidas (ONU), no entanto, reconhece o dia 20 de Novembro como o Dia Mundial da Criança, por ter sido nessa data, corria o ano de 1959, que foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos da Criança. Passados 30 anos, em 1989, a ONU acabaria por aprovar a Convenção dos Direitos da Criança. Recentemente, o Banco Mundial e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) revelaram que uma em cada seis crianças – cerca de 256 milhões – vivia em condições de extrema pobreza antes da pandemia. “E a situação irá piorar significativamente. Embora as crianças somem um terço da população global, cerca de metade dos extremamente pobres são crianças. Além disso, elas têm duas vezes mais probabilidades de se tornarem extremamente pobres enquanto adultas”, pode ainda ler-se no relatório.

       

      PONTO FINAL