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      Início Reportagem Ucranianos em Macau confiantes num futuro melhor, mas não perdoam Putin

      Ucranianos em Macau confiantes num futuro melhor, mas não perdoam Putin

      A pouco mais de 7500 quilómetros de distância, a comunidade ucraniana residente no território mostra-se destroçada com o conflito que dura há três meses no seu país. O PONTO FINAL conversou com oito dos seus representantes que aceitaram o desafio de, igualmente, serem fotografados com um símbolo ou qualquer coisa que lhes lembrasse a Ucrânia. Há quem tenha perdido amigos ou conhecidos nestes últimos meses, mas ninguém perdoa Vladimir Putin, que consideram um criminoso.

       

      TEXTO & FOTOGRAFIA: GONÇALO LOBO PINHEIRO

       

      Não foi fácil reunir alguns dos representantes da comunidade ucraniana em Macau. Durante pouco mais de dois meses, o PONTO FINAL encetou contactos com diversas frentes para tentar aferir quantos ucranianos existem em Macau e quantos deles estariam dispostos a dar a cara e revelar o que lhes vai na alma três meses depois da invasão do seu país por parte do exército da Rússia.

      Contactámos a Embaixada da Ucrânia em Pequim, pedindo algumas estatísticas, mas, até ao momento, os números não chegaram. As oito pessoas que o nosso jornal ouviu e fotografou desconhecem ao certo quantos ucranianos existem em Macau. “Talvez entre 20 a 30, mas é difícil dizer, pois há algumas pessoas que gostam de passar despercebidas”, consideraram os entrevistados, admitindo não se conhecerem todos uns aos outros.

      “Até à invasão, nunca acreditei que fosse possível”, começou por dizer ao PONTO FINAL Yevheniia Semenova. A jovem recorda que 2014 “foi muito assustador”, embora não estivesse a viver no país, a sua família estava lá e Yevheniia “não podia ajudar ou dar-lhes abrigo”.

      Nascida em Kramatorsk, no Oblast de Donetsk, Yevheniia considera que agora a situação é mais grave. “Estou longe, novamente, e a situação, desta vez, é muito pior. Estamos a falar de milhões de pessoas obrigadas a deixar as suas casas, obrigadas a defender a sua pátria.”

      A mulher relembra que “nenhuma guerra foi declarada”. “O Kremlin simplesmente invadiu a Ucrânia e “civis de todas as idades e géneros estão a morrer. Muitos são roubados e violados. Os nossos soldados estão a morrer. Entidades culturais e educacionais, igrejas, hospitais, habitações estão a ser bombardeadas. Sob que pretexto?”, questiona, apontando que “jamais” se pode chamar ao que está a acontecer em solo ucraniano de guerra. “Não é uma guerra, porque os militares têm que lutar contra os militares. O exército russo simplesmente está em guerra contra crianças e idosos. Diariamente lançam bombas em cima de alvos civis. Estamos a falar de milhares e milhares de vítimas”, desabafa.

      Yevhenniia considera que o seu povo apenas está a ser morto “porque quer ser uma nação livre”. “Nós só queremos seguir o nosso caminho, sem interferências. O que é que se está a passar? Eu tenho uma resposta, tente encontrar a sua…”.

      Pavlo Lysenko nasceu em Kherson, uma das poucas cidades da Ucrânia que a Rússia conseguiu controlar desde a invasão a 24 de Fevereiro. Para o homem, “a guerra na Ucrânia é uma consequência ultrajante da ambição geopolítica”. “Na verdade, está a causar inúmeras mortes de civis, nomeadamente crianças e mulheres, e a destruir muitas infra-estruturas, destruição essa que acaba por afectar milhões de pessoas”, admitiu ao nosso jornal.

      A cidade que o viu nascer é um importante porto no mar Negro e no rio Dniepre. Kherson é a sede de um importante conjunto de empresas de indústria naval, e a Rússia sabe disso. “Infelizmente o meu país vive um conflito armado, em pleno mundo considerado civilizado, no centro da Europa. Isso só revela que a ambição de alguns líderes e o domínio militar são prioridade e não a paz e a prosperidade, como deveria ser.”

      O homem considera-se “um sortudo” neste momento, porque vive em Macau, “onde a segurança, a estabilidade e a prosperidade dos residentes são a maior prioridade”, mas não esquece as suas raízes. “Espero que todo o mundo, e em particular o continente asiático, aprenda com o conflito na Ucrânia. Aprenda que preservar a paz deve ser essencial para a humanidade e o mundo evoluirá para viver sem nenhum conflito, evitando sofrimento e possível autodestruição”, notou.

       

      Nada será como dantes

      Leona Miller vive em Macau há alguns anos. Por aqui já nasceu a sua filha. A jovem mãe admite que, nos últimos três meses, “tudo mudou”, sendo que “jamais a vida voltará a ser a mesma”. “Tantas vidas, sonhos, planos perdidos, incluindo nós, que estamos a viver e a trabalhar no exterior”, começou por dizer ao PONTO FINAL.

      A mulher nasceu em Kiev e agora “não poderia estar mais orgulhosa de ser ucraniana”. “A bravura e coragem da minha Nação. Estamos todos unidos, cada um de nós a participar, como pode, apoiando o nosso país. Mas só nós não chegamos. Precisamos da ajuda do mundo, pois merecemos viver. Não procuramos prémios, nem nada que se pareça, até porque a Ucrânia já ganhou. Tudo o que queremos é que a Rússia pare de matar pessoas inocentes, pare de destruir o meu lindo país”, pediu Leona.

      A esperança é a última a morrer, assume. Leona acredita que, depois desta guerra, a Ucrânia vai surgir mais forte e coesa. “Vamos reconstruir, vamos nos levantar, mas nunca cair de joelhos. Glória à Ucrânia.”

      O bailarino Sergii Kvitych, também nascido na capital, considera que “as atrocidades que o exército russo fez em Bucha, Irpin, Mariupol ou Kharkiv não têm desculpa”. “Todos os que mataram, violaram e roubaram civis deveriam ser punidos”, acusou, exultando o exército ucraniano por mostrar “o seu profissionalismo e abnegação”. “Para mim eles são os heróis do nosso tempo”.

      Sergii não tem dúvidas de que a Rússia já perdeu esta guerra, porque, acredita, convicto, que a Ucrânia “é uma nação livre”. “Putin e os seus seguidores são doentes da cabeça. Pessoas perigosas e sem noção que ameaçam o mundo com armas nucleares. A derrota da Rússia é inevitável. A Ucrânia é uma nação forte”, admitiu, deixando um pedido: “Espero que os líderes mundiais tenham chegado à conclusão que esta guerra não faz sentido e executem ainda mais sanções. A economia russa tem de atingir níveis muito baixos para que o Kremlin não tenha sequer o desejo de falar sobre armas nucleares ou de querer lutar contra outros países”.

       

      No coração do leste ucraniano

      Foi em Lugansk, precisamente uma das cidades que as forças russas consideram não ser ucraniana, que Yana Afonicheva nasceu. “O que eu sinto? Tem na sua frente uma pessoa que perdeu a casa duas vezes, uma em 2014, em Lugansk, e outra agora em 2022, em Kharkiv”, revelou, admitindo que não perdeu a esperança.

      Lugansk acaba de ser alvo de uma ofensiva russa, sem precedentes, nas últimas 24h, que fez com que o governador local admitisse que a cidade poderá ter ficado como Mariupol, quase totalmente destruída. Ainda assim, Yana tem força anímica para pensar apenas com optimismo. “Tenho esperança num futuro brilhante para a minha pátria, esperança de que ao passarmos por esta situação horrível o mundo se transforme num lugar onde a justiça não seja um mito, onde a paz não seja apenas promessa, onde todas as crianças possam pensar em ter o amanhã.”

      Para a mulher, “o ódio desaparecerá um dia, mas o orgulho pelo povo da Ucrânia, o amor pela pátria viverá eternamente dentro do meu coração”. “A Rússia nunca deveria ter atacado a Ucrânia. Foram tantas vidas perdidas à toa, por conflitos que não fazem sentido”, atirou, reiterando que a Ucrânia “vencerá”.

      Ivanka Koval nasceu em Schastia, também na região de Lugansk. Ao PONTO FINAL agradeceu a oportunidade de “ter voz”, admitindo “estar honrada” por, hoje, representar a Ucrânia, a sua pátria “amada”. “Hoje sou a Ucrânia, invencível, florescente e digna.”

      A jovem, que surgiu na entrevista e sessão de fotografias com um tradicional vestido vyshyvanka e um molho de espigas de trigo, contou-nos uma história muito curiosa que explica como consegue ter forças perante as adversidades. “No início dos anos 2000 corria por um campo de trigo banhado pelo sol. Recordo que o trigo balançava com o vento e brilhava ao sol como ouro. Essa é a minha casa. O céu azul espalha-se sobre mim de ponta a ponta, como se me abraçasse com a sua imensidão e calor. Caio nas espigas de trigo, elas fazem cócegas no meu nariz, rio e sinto-me feliz. Ouço a voz suave da minha avó, que me chama, levanto-me e corro, abraçando-a com força, pergunto: ‘por que me sinto tão bem, sinto tanto poder que estou pronta para voar’, e ela responde: ‘mantém no teu coração um broto deste trigo solar e onde quer que estejas, não importa o que aconteça, lembra-te sempre que o amor vence sempre”, afirmou.

      O coração da avó de Ivanka parou em 2014 quando a guerra a forçou a deixar a sua terra natal, mas as suas palavras estão com a neta, aqui em Macau ou onde quer que esteja.

       

      Do pânico à esperança

      Tetiana Dovzhanska pediu para ouvir música ucraniana durante a sessão fotográfica. O país tinha acabado de vencer o Festival da Eurovisão e Tiana – como gosta de ser chamada – chorou durante as primeiras fotos que lhe tirámos. Perguntámos se queria parar um pouco para se recompor, ao que anuiu. “Como me posso sentir? A minha família está na Ucrânia e eu aqui, a milhares de quilômetros de distância”, referiu.

      Mais calma, voltámos às fotografias. A conversa foi fluindo entre cada um dos retratos “Deixe-me explicar o meu sentimento. No primeiro dia senti pânico, medo e desespero. Foi muito assustador quando a primeira mensagem da manhã do dia 24 de Fevereiro revelou que a tua mãe e irmã acordaram às 5h da manhã com bombas”, revelou.

      Dias depois, Tiana começou a ter outro tipo de sentimentos. “Raiva, desejo de vingança e também alegria ao ver as notícias sobre um novo soldado morto no exército de Putin”, anotou, considerando que, agora, está “mais devastada” pela crueldade do exército russo. “A única coisa que me apascenta é a voz dos meus pais.”

      A mulher, nascida em Odessa, defende que Putin cometeu “um grande erro” ao pensar que “os ucranianos estavam à espera dele com flores e korovai (pão tradicional ucraniano)”. “Um psicopata pensou que nos iria dividir, mas em vez disso tornou-nos mais unidos”, disse, lembrando que os ucranianos “lutaram pela sua terra durante séculos”. “Estou orgulhosa da minha Nação, orgulhosa de ser ucraniana e tenho certeza que a Ucrânia vai vencer esta guerra. Glória à Ucrânia! Glória aos heróis”, acrescentou Tiana.

      Oksana Karpova saiu da Ucrânia ainda nos anos de 1990, mas já com o território independente e fora do domínio da União Soviética. Para a cabeleireira de profissão, uma das coisas que mais a tem chocado neste conflito é a relação familiar que tem com os seus na Rússia. “Quase todos nós temos família nos dois lados da barricada e eu não sou excepção. Esta guerra está a afectar, e muito, as relações familiares e de amizade”, começou por afirmar.

      Para Oksana, a guerra está a deixar muitas feridas, quase impossíveis de sarar. “Perdi alguns amigos russos e o meu pai, que mora na Rússia, não acreditou em mim quando lhe disse que o exército russo estava a bombardear alvos civis”, explicou, dando um exemplo: “Quando contei como a minha mãe, a minha cunhada e os seus dois filhos, bem como muitos outros carros foram baleados enquanto se dirigiam das suas casas para a Moldávia, ninguém acreditou. ‘Ó Oksana, dificilmente acredito nisso, a tua mãe está a exagerar’ ou ‘Ela tirou uma foto?’ ou ‘Não há como um soldado russo fazer isso’ ou, ainda, ‘Tem certeza que era um avião russo? Como não tem a certeza de que não era um avião ucraniano?’ foram algumas das frases ou perguntas sem nexo”, revelou a nascida também em Odessa, cidade situada a noroeste da península da Crimeia.

       

      PONTO FINAL