O Banco do Japão (BoJ) subiu ontem a taxa de juro de referência para 1%, o nível mais alto em mais de três décadas, com o objectivo de conter a desvalorização do iene e a escalada da inflação.
A decisão, em linha com as expectativas do mercado, surge na sequência de recentes medidas de aperto monetário do Banco Central Europeu (BCE) e do Banco da Indonésia, e antes de uma reunião da Reserva Federal dos EUA (Fed) esta semana.
Depois de assombrado pela deflação, o Japão tem vindo a registar, desde a primavera de 2022, um aumento sustentado dos preços no consumidor superior a 2%, o que levou o BoJ a apertar progressivamente, desde 2024, as taxas de juro, que durante muito tempo permaneceram nulas ou negativas.
A espiral inflacionista acentuou-se, porém, nos últimos meses, alimentada pela guerra no Médio Oriente, à medida que os preços da energia disparavam face à paralisação dos transportes de hidrocarbonetos do Golfo — de onde o Japão importava, antes da guerra, 90% do petróleo que consome.
Ainda que os Estados Unidos e o Irão tenham chegado a um acordo esta segunda-feira para pôr fim à guerra no Médio Oriente, o que fez descer as cotações do petróleo bruto, a normalização dos fornecimentos de petróleo e gás e o impacto da guerra nos preços irá ainda prolongar-se. “O impacto do aumento dos preços do petróleo bruto está a repercutir-se a um ritmo relativamente acelerado nas transacções entre empresas, o que poderá conduzir a um aumento dos preços no consumidor para uma vasta gama de produtos”, adverte o banco central num comunicado divulgado ontem. “Neste contexto, e tendo em conta o aumento contínuo das expectativas de inflação a médio e longo prazo, existe o risco de a inflação subjacente (medida pelo índice de preços no consumidor, IPC) se desviar para cima, ultrapassando a meta fixada em 2%”, adverte ainda o BoJ.
O Governo da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, mostrou-se preocupado com os riscos económicos de um aperto monetário prematuro, mas o Boj relativizou ontem a situação. “Embora os preços do petróleo bruto tenham exercido pressão sobre a actividade, a economia foi, em geral, sustentada pelo elevado nível dos lucros das empresas e pela melhoria da situação do emprego e dos rendimentos”, enquanto os subsídios à energia limitam o peso dos custos energéticos, sustentou o banco central. “O crescimento deverá abrandar, uma vez que o aumento dos preços do petróleo bruto deverá pesar sobre os lucros das empresas e o rendimento real das famílias”, mas a quarta economia mundial continuará a crescer, “embora a um ritmo mais lento”, apoiada pelas medidas de apoio governamentais e por condições financeiras acomodatícias, sublinha a instituição.
Entretanto, as dificuldades do Japão têm vindo a ser agravadas pela queda do iene, exacerbada pelo aumento dos preços do petróleo e pela diferença entre as taxas de juro norte-americanas e japonesas — uma desvalorização que encarece o preço dos produtos importados. “Num contexto marcado por preocupações crescentes relativamente à inflação e pelas expectativas de um eventual aumento das taxas de juro pela Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) este ano, consideramos que o BoJ não pode dar-se ao luxo de adiar” um aperto monetário, afirmou, antes da decisão do BoJ, Shigeto Nagai, analista da Oxford Economics, citado pela AFP.
A Fed reúne-se esta semana, pela primeira vez sob a presidência de Kevin Warsh, e, embora se espere a manutenção de políticas, os mercados antecipam subidas das taxas ao longo do ano, num contexto em que a inflação norte-americana atingiu o nível mais alto dos últimos três anos. Qualquer subida das taxas da Fed reforçará o dólar, o que aumentará a pressão sobre o iene.
No mês passado, o Governo japonês gastou cerca de 11,7 biliões de ienes (63 mil milhões de euros) para apoiar a sua moeda, mas o impacto foi muito efémero, sobretudo devido às expectativas de um aperto monetário por parte da Fed.
O BoJ anunciou ontem que irá prosseguir com a redução gradual do programa de compra de dívida japonesa até abril de 2027, antes de estabilizar, depois dessa data, o seu volume mensal de compras, segundo a imprensa local. Lusa











