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      Início Reportagem A Macau íngreme de quem se desloca em cadeira de rodas

      A Macau íngreme de quem se desloca em cadeira de rodas

      Para quem se desloca de cadeira de rodas, Macau é diferente: parece ter mais subidas que descidas, as distâncias parecem ser maiores e não há corta-matos. É esta a Macau de Fernando Carvalho, antigo funcionário público e atleta paralímpico. O PONTO FINAL acompanhou-o nas dificuldades de acessibilidade nos correios, nos autocarros e na quase impossibilidade de chegar ao hospital público. O Instituto de Acção Social (IAS) assinala que nos últimos anos foram feitas mais de quatro mil obras de melhoramento nas acessibilidades da cidade.

      Fotografia de Gonçalo Lobo Pinheiro

      Fernando Carvalho está no Largo do Senado, rodeado de sítios onde não pode ir. Olha para a frente e vê o edifício do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM); olha para a esquerda e vê o edifício dos Correios de Macau. Nos correios foi instalado recentemente um elevador para transportar quem anda de cadeira de rodas, mas, ainda assim, o acesso é difícil. Já no IAM, o acesso à Biblioteca do Senado é mesmo impossível. O PONTO FINAL acompanhou o antigo atleta paralímpico que representou Macau nos Jogos de 1988 e 1992 através das dificuldades nos acessos da cidade e verificou, por exemplo, que chegar ao hospital público através de autocarro é quase impossível.

      Nasceu em Macau há 68 anos e a poliomielite diagnosticada quando tinha dois atirou-o para uma cadeira de rodas ainda em criança. “Talvez por desde pequenino andar em cadeira de rodas, não me sinto nada diferente dos outros”, atira. Descreve-se como um “homem positivo”. “Penso só no lado positivo das coisas”, diz.

      Fernando Carvalho trabalhou como telefonista nos Serviços de Saúde durante 33 anos e em 2014 reformou-se. Pelo meio ainda, foi a Seul e a Barcelona para representar a delegação de Macau nos Jogos Paralímpicos de 1988 e 1992, respectivamente. O gosto pelo desporto começou quando, em 1975, se juntou à Associação Recreativa e Desportiva dos Deficientes de Macau. Também jogava ténis em cadeira de rodas. Mas “este ano já não treinei tanto, estou reformado”, ri-se.

      Questionado sobre as acessibilidades para quem anda de cadeira de rodas, Fernando Carvalho nota que nos últimos anos registou-se uma melhoria. Até porque, “quando eu era atleta, não havia acessos em lado nenhum; era muito difícil”. A culpa é, em parte, da geografia da cidade, com “muitas subidas”, considera.

      UM ELEVADOR POUCO OLEADO E UMA BIBLIOTECA INACESSÍVEL

      Quais são, então, os sítios menos acessíveis? Fernando Carvalho aponta imediatamente para o edifício dos Correios de Macau, no Senado. A porta principal tem sete degraus que impedem a entrada a quem anda de cadeira de rodas e até recentemente não havia alternativa. Agora, Fernando diz ter reparado que, numa porta secundária, já na Avenida de Almeida Ribeiro, há um pequeno elevador para quem não consegue deslocar-se a pé. “Ainda não experimentei, mas há bocado passei ali e vi que estava novinho”, diz.

      Fernando tenta, então, estrear o elevador. Apresenta-se para subir, mas é preciso colocar o aparelho a funcionar com uma chave que o segurança não tem. Entre chamadas para os colegas para pedir a chave para accionar o elevador, percebe-se que iria demorar vários minutos até que Fernando Carvalho pudesse chegar ao primeiro piso do edifício dos correios, por isso desiste da ideia. Ainda assim, puxa da sua faceta de optimista e suspira: “É melhor que nada”.

      Imediatamente do outro lado da estrada está o edifício do IAM, outro dos locais apontados pelo antigo atleta paralímpico como de difícil – ou impossível – acesso. Chega ao átrio principal do edifício e não pode ir mais além. Há uma escadaria que lhe veda o acesso à Biblioteca do Senado e não há forma de a contornar. “Nunca passei daqui”, diz Fernando, que nasceu, cresceu e viveu toda a vida em Macau.

      A ideia agora era ir até ao Centro Hospitalar Conde de São Januário, mas não é fácil e Fernando Carvalho sabe disso. Diz que quando tem de ir ao hospital nunca vai de transportes públicos, usa sempre os braços para empurrar as rodas da cadeira até ao local ou então usa o serviço da Caritas que faz o transporte de utentes.

      Ainda assim, desta vez tentamos ir de autocarro. Na Almeida Ribeiro percebe que nenhum dos autocarros que vão para o centro hospitalar têm acesso a cadeira de rodas. Na Avenida da Praia Grande surge o mesmo problema. A maior parte das carreiras que vão até à colina do hospital é de pequeno porte, ou seja, sem condições para cadeiras de rodas.

      Com esta aparente impossibilidade de os cidadãos que se deslocam de cadeira de rodas irem ao hospital através de autocarros públicos, o PONTO FINAL quis saber se a situação era realmente essa e enviou perguntas à Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT). O organismo do Governo assinalou que, do total da frota disponível, as duas operadoras de autocarros, TDM e Transmac, possuem 636 veículos em operação com rampas de cadeiras de rodas, o que representa 80% dos autocarros de médio e grande porte e extra grande. “Os autocarros de pequeno porte, por sua vez, não têm condições para a instalação da rampa devido às restrições do modelo”, lê-se na resposta.

      Além disso, a DSAT informou que, a partir do início deste ano, uma parte dos autocarros da carreira número 17, que passa pela Rua Nova à Guia, começou a usar veículos de médio porte, todos eles equipados com rampa para cadeira de rodas, “que facilita a utilização para as deslocações ao Centro Hospitalar Conde de São Januário”.

      UM TREINO DE BRAÇOS, DO JARDIM DE SÃO FRANCISCO AO HOSPITAL

      Dada a impossibilidade de ir até ao hospital público de autocarro, Fernando vai pela força dos seus braços. Estando no Jardim de São Francisco, a viagem até ao hospital demora cinco minutos, mas quem anda de cadeira de rodas não pode cortar caminho pelo jardim. Fernando Carvalho vai fazendo ‘slalom’ entre as pessoas à frente do Clube Militar de Macau, entra na Avenida do Doutor Rodrigo Rodrigues e, numa das transversais, tem de apanhar um elevador até à Estrada de São Francisco. Daí, há que seguir pela Rua da Nova à Guia e depois subir num dos elevadores que vão ter ao hospital público.

      Uma viagem que poderia demorar menos de cinco minutos demora, para quem anda de cadeira de rodas, cerca de 30 minutos. A adicionar a isto, há o facto de ser preciso subir rampas íngremes. Fernando Carvalho faz questão de fazer o percurso sem ajudas, diz que é o seu treino diário. Para sair do hospital, encontra-se o mesmo problema: não há autocarros e, por isso, há que fazer o percurso pelos passeios até casa.

      O teste final é precisamente o do autocarro. Fernando Gomes tenta apanhar um autocarro na Avenida do Coronel Mesquita, perto de sua casa, e, enquanto espera, aponta para o prédio onde vive, que tem uma rampa de entrada e conta que esta só foi construída devido à sua insistência junto do condomínio.

      É o autocarro número 12 o primeiro a aparecer e é nesse que tenta a viagem. O motorista, ao aperceber-se que Fernando está numa cadeira de rodas e quer entrar, encosta o mais possível o autocarro ao passeio, sai e faz a rampa descer para que Fernando possa entrar pela parte de trás. O facto de não ser hora de ponta ajuda o processo. Lá dentro, o motorista ajuda Fernando a colocar-se na zona destinada a quem tem dificuldades de locomoção e aperta-lhe o cinto de segurança. O processo demora poucos minutos e o condutor volta à sua cabine, e antes de arrancar grita em cantonense: “Agarre-se bem”.

      A paragem de saída é a da Rua do Campo, junto ao edifício da Administração Pública. Fernando faz sinal ao motorista de que é ali que quer sair. O condutor continua diligente, mas faz mal as contas e deixa o autocarro fora do alcance do passeio. Volta a entrar, encosta-o melhor e agora sim, a rampa pode descer e Fernando pode sair. O processo não demorou mais de três minutos. “Correu bem”, exclama o antigo atleta paralímpico.

      MAIS DE QUATRO MIL OBRAS NOS ÚLTIMOS ANOS

      Também em resposta ao PONTO FINAL, o Instituto de Acção Social (IAS) frisou que o Governo tem realizado acções no âmbito da criação de um ambiente acessível e lembrou que já em 2017 foi concluída a elaboração das “normas arquitectónicas para a concepção de design universal e livre de barreiras na RAEM”, que tem como objectivo melhorar as acessibilidades dos edifícios e instalações para um nível internacional.

      O IAS diz que “após verificação, todos os serviços públicos têm melhorado gradualmente as condições de acessibilidade dos locais de atendimento ao público”. O Executivo indica que, entre 2018 e 2020, foram 20 os serviços de atendimento ao público do IAS e 81 equipamentos sociais subsidiados que realizaram um total de 4.127 obras de melhoramento das condições de acessibilidade. Além disso, até 2020, os serviços públicos e as instituições subsidiadas realizaram mais de dez mil acções de acessibilidade, como o aumento das passarelas, passadeiras, parques, zonas de lazer, mercados e bibliotecas.

      O instituto garante que, no futuro, vai continuar a acompanhar e a coordenar “de forma activa” as acções de acessibilidade. Até 2025, o Governo vai fazer um balanço da implementação das normas e proceder ao estudo sobre a viabilidade da implementação das mesmas orientações em todas as obras de Macau, através da revisão da lei ou de nova legislação.

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