As exportações chinesas para a Europa estão a alimentar receios de um novo “choque da China”, centrado em setores tecnológicos, numa altura em que as tarifas norte-americanas desviam para outros mercados produtos antes destinados aos Estados Unidos.
Apesar de oito anos de guerra comercial e de sucessivas tarifas norte-americanas, a China continua a reforçar a sua posição como principal potência industrial exportadora do mundo.
No ano passado, o país registou um excedente comercial recorde de 1,2 biliões de dólares, beneficiando da procura global por produtos como veículos elétricos, baterias, painéis solares e equipamentos ligados à inteligência artificial.
Com o mercado norte-americano mais fechado, as empresas chinesas têm direcionado uma parte crescente das exportações para a Europa e para outros países asiáticos.
Entre janeiro e maio deste ano, as exportações chinesas para a União Europeia (UE) aumentaram 16,4% em termos homólogos, segundo dados das alfândegas chinesas.
No início do ano, o Presidente francês, Emmanuel Macron, alertou que as exportações chinesas estão “literalmente a matar uma grande parte da indústria europeia”.
A questão deverá estar entre os principais temas da cimeira do G7, que reúne esta semana os líderes das maiores economias democráticas.
Vários analistas admitem que a UE poderá responder com medidas comerciais mais duras, à semelhança dos Estados Unidos. “Se os líderes chineses não controlarem esta vaga exportadora, ela provocará uma onda protecionista contra os produtos chineses em todo o mundo”, advertiu Maurice Obstfeld, investigador do Peterson Institute for International Economics e antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), citado pela Associated Press.
O “choque da China” original ocorreu após a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. A entrada dos produtos chineses nos mercados ocidentais contribuiu para o encerramento de fábricas e para a perda de milhões de empregos industriais nos Estados Unidos.
Segundo os economistas David Autor, David Dorn e Gordon Hanson, a concorrência chinesa esteve associada à eliminação de cerca de 2,4 milhões de postos de trabalho norte-americanos.
A nova vaga apresenta características diferentes. Há duas décadas, a China exportava sobretudo produtos de baixo custo, como têxteis, mobiliário e eletrónica básica. Hoje, concorre directamente com as economias mais avançadas em setores de elevado valor acrescentado.
A quota chinesa das exportações mundiais de bens passou de 4% em 2000 para 16% actualmente, a mais elevada do mundo. Segundo um estudo recente da Reserva Federal norte-americana, os produtos chineses concorrem ontem directamente com cerca de 58% das exportações dos países da zona euro, face a 46% em 2000. Lusa













