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      Início Reportagem O ‘boom’ dos leilões numismáticos que trouxe um recorde mundial a Macau

      O ‘boom’ dos leilões numismáticos que trouxe um recorde mundial a Macau

      Nos últimos meses tem-se registado um crescimento exponencial dos investimentos em numismática. No passado domingo, o PONTO FINAL esteve num leilão de moedas chinesas do início do século XX que deu um recorde a Macau: o do valor mais alto da história alcançado num leilão deste género. No total, os licitadores gastaram quase 20 milhões de dólares americanos para garantir a compra de 123 moedas históricas.

      Fotografia de Gonçalo Lobo Pinheiro

      Sobe-se ao sexto andar do Sofitel e começa a ecoar uma voz feminina que, em mandarim, vai repetindo números. À porta da sala há um polícia a guardar cerca de 60 pessoas que vão levantando papéis no ar, sinalizando as moedas que a mulher no palco vai apresentando. Estamos no leilão numismático de Primavera da empresa Champion Auction, que se realiza em Macau, e que dá a oportunidade aos coleccionadores de adquirirem moedas da colecção Nelson Chang. Um leilão que movimentou milhões de dólares americanos e que colocou Macau no mapa da numismática, com um recorde mundial.

      Num ecrã vão surgindo as imagens e os detalhes das 123 moedas que estão sujeitas a licitação, bem como o valor que cada pessoa diz estar disposta a dar por determinada peça. Entre os presentes, há quem siga as indicações com atenção e há quem vá convivendo e partilhando comida no fundo da sala. Entre os ausentes, há licitadores que vão seguindo as ocorrências através da internet e que, de modo online, vão também participando nos negócios. Os participantes são quase na sua totalidade do interior da China.

       

      A NECESSIDADE DA POSSE

      Kevin está sentado ao lado dos amigos com o catálogo aberto na página onde está a moeda que quer comprar. Com descontração diz que está disposto a dar 200 mil dólares norte-americanos por aquela moeda. A base de licitação, neste caso, é de 30 mil dólares americanos, por isso está confiante. Kevin nasceu e cresceu em Shenzhen, mas agora está a estudar Matemática e Economia na Universidade de Boston, nos Estados Unidos da América. Tem apenas 20 anos e diz que o seu interesse pelas moedas antigas começou há quatro, quando tinha 16.

      “É uma necessidade que eu tenho”, afirma num sotaque americano. Para ele, “as colecções servem para preencher as nossas necessidades espirituais”. É a posse do objecto acima de tudo: “As colecções servem todas para preencher a necessidade de possuir objectos”.

      Kevin veio a Macau propositadamente para este leilão e faz questão de dizer que não quer revender as moedas nem fazer lucro. “Esse não é o meu objectivo”, frisa, explicando: “Eu só quero as moedas de que gosto”.

      Já Ian está de pé, encostado à ombreira da porta da entrada. Vai conversando com os amigos, mas não está aqui para fazer negócio. Ian veio de Xangai propositadamente para o leilão de Macau porque trabalha para a empresa que faz a graduação de cada moeda, a norte-americana NGC.

      “Nós damos uma graduação depois de analisarmos a sua condição. Isto serve para depois se avaliar o valor de cada moeda”, explica. Na opinião do especialista, estão reunidas as condições para o valor das moedas subir. Desta equação faz parte a raridade das peças apresentadas, o seu estado de conservação e o facto de terem pertencido a um coleccionador famoso.

      Ian explica o súbito interesse na numismática por parte dos chineses: “Depois da pandemia, os preços aumentaram muito. Quase triplicou. Os investidores não têm mais onde investir devido ao Covid porque a fronteira fechou”. Além disso, “a empresa de graduação garante que não há contrafacções”.

      “As pessoas estão loucas para investir”, diz, assinalando que, “como os preços estão a subir, toda a gente quer uma parcela”. Olha-se em redor e a sala está cheia de jovens de nacionalidade chinesa. “Muita gente tem chegado de fora dos leilões de moedas. Não são compradores habituais, não estão familiarizados com as moedas, mas vêem que o mercado está a crescer exponencialmente e querem investir”, comenta Ian. Até porque “a numismática não é só para as pessoas mais velhas”.

       

      OS JOVENS QUE SE LANÇAM NA NUMISMÁTICA

      Hongrui, de Xangai, é um dos jovens que veio a Macau para licitar. Vai folheando o catálogo das moedas para dizer que “são todas muito bonitas”. Tem 26 anos e diz-se interessado na numismática desde os seus 11 anos de idade.

      Estava de olho numa moeda que lhe fugiu por uns meros cinco mil dólares americanos. Mas não desespera, vai insistir numa outra, uma moeda de um dólar que fora em tempos usada em Taiwan. Para esta, Hongrui está disposto a subir a parada até aos 100 mil dólares.

      Tal como Kevin, Hongrui diz não querer revender as moedas que comprar. “Vou pôr a moeda no meu escritório”, diz. Num futuro longínquo, “talvez tente revender”, acaba por confessar.

      Hongrui faz até uma comparação com as criptomoedas para explicar o seu interesse pela numismática: “A bitcoin é parecida. Mas aqui podemos ter a moeda na mão ou no bolso. No caso das bitcoins, nada disso. É ar. Prefiro estas moedas”.

       

      A meio da sala está Grandby, ainda com os chinelos de quarto do Sofitel. Chegou há dois dias da cidade de Chengdu. Conta que, depois de ter cursado Finanças na cidade de Sheffield, no Reino Unido, está a dar os primeiros passos no negócio da compra e venda de moedas históricas. Grandby assume que está no leilão para fazer negócio e já investiu 760 mil dólares americanos numa moeda e outros 385 mil noutra.

      “Talvez no futuro possa obter duas ou três vezes o valor que paguei agora. Daqui a três ou quatro anos”, aponta, explicando que os seus pais também são coleccionadores. “Isto é o futuro. Temos de prestar mais atenção aos leilões, isto está a crescer, a crescer e a crescer. Por isso é que há tantos jovens aqui”, diz, dirigindo a sua atenção de volta para o palco, onde a senhora vai continuando a debitar números e descrições de moedas antigas.

       

      RECORDE ALCANÇADO EM MACAU COM QUASE 20 MILHÕES DE USD

      Neste leilão estão a ser vendidas as moedas da colecção de Nelson Chang, que tem uma das maiores colecções de numismática da China. Chang começou a criar a sua colecção na década de 70, quando regressou a Xangai, de onde é oriundo, vindo de Nova Iorque, onde trabalhou. Já os pais de Nelson Chang eram coleccionadores de numismática. As moedas chinesas agora colocadas em leilão em Macau são raridades do final do século XIX e início do século XX.

      Michael Chou, presidente da Champion Auction, dá uma ajuda para explicar quem foi Nelson Chang e descreve: “Um dos mais famosos coleccionadores de uma das famílias mais conhecidas da China. O seu tio-avô foi um dos grandes apoiantes de Sun Yat-Sen. O seu pai tinha uma grande herança e a família da mulher também era uma das mais ricas da China”.

      Depois de terminado o leilão e depois de terem sido feitas todas as contas, Michael Chou conta com orgulho que acabou de ser batido o recorde do dia de leilão de numismática que originou mais dinheiro em toda a história. Foram quase 20 milhões de dólares norte americanos. São quase 160 milhões de patacas.

      A moeda mais cara fez um licitador desembolsar 1,34 milhões de dólares americanos. Trata-se da moeda de um dólar Xuantong Three Year, da Dinastia Qing, usada no final do século XIX. Tem 36 milímetros de diâmetro, pesa 26,51 gramas. O valor, explica Michael Chou, tem também a ver com a qualidade da preservação da moeda.

      O presidente da empresa leiloeira explica que esta é uma área em que se tem registado um ‘boom’ nos últimos meses. Chou dá o exemplo da moeda que, no leilão de Macau, atingiu o valor mais alto para dizer que, em Novembro do ano passado tinha sido vendida uma moeda semelhante por um valor a rondar os 312 mil dólares. Agora, o valor da moeda cresceu para 1,34 milhões.

      Mas a que é que se deve este aumento exponencial no valor das peças numismáticas? “Devido ao Covid, muito mais pessoas têm comprado moedas porque há a garantia da empresa de graduação. Muitos outros artigos coleccionáveis não têm garantia e isso faz uma grande diferença. As pessoas até fazem a licitação pelo telefone porque confiam”.

      A Champion Auctions já realiza leilões em Macau desde 2014. Foram oito nos últimos sete anos. O próximo já está marcado para Novembro, refere Michael Chou, sem adiantar mais pormenores.

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