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      Início Reportagem Semana Dourada não trouxe confiança para o futuro dos lojistas

      Semana Dourada não trouxe confiança para o futuro dos lojistas

      Apesar do Ano Novo Lunar ter trazido algumas melhorias em termos de turismo relativamente ao ano passado, também afectado pela pandemia, os comerciantes na comunidade não se mostraram entusiasmados com o resultado do negócio durante este tradicional pico de turistas. Ouvidos pelo PONTO FINAL, vários lojistas expressaram-se pouco optimistas no ambiente de negócio, apontando que houve mais turistas no início do mês, mas que o volume de negócio não obteve uma retoma significativa. Uma loja de recordações adiantou que o seu encerramento estará para breve por falta de clientes. Um espaço de comidas está a fazer o seu melhor para se manter aberto, enquanto uma pastelaria sentiu sobretudo a perda de clientes vindos de Hong Kong.

       

      Ao longo do tempo em que o território tem sofrido o impacto causado pela covid-19, quer de forma directa com a detecção de casos infectados, quer afectado pela situação pandémica nas cidades adjacentes no interior da China ou em Hong Kong, o sector do turismo local, sendo uma das indústrias principais da RAEM, tem vindo a tropeçar entre a esperança e o desapontamento.

      As épocas de celebrações e festividades são sempre uma altura carregada de expectativas dos comerciantes, sobretudo no Ano Novo Lunar. Em declarações ao PONTO FINAL, vários lojistas e gerentes de estabelecimentos comerciais na zona turística perto das Ruínas de São Paulo queixaram-se da crise de exploração de negócio, lamentando a pouca recuperação apesar de terem testemunhado um maior fluxo de visitantes durante a Semana Dourada do Ano Novo Chinês.

      Na Rua de São Paulo, conhecida pela multidão de turistas, que provam o tradicional biscoito de amêndoa enquanto ouvem os gritos dos vendedores, um gerente de uma loja de recordações revelou ao PONTO FINAL que o estabelecimento será encerrado em dois meses devido à falta de negócio.

      “O dono já decidiu que vai fechar a loja, não fazemos quase nenhum negócio. Não há pessoas a passar por cá, não conseguimos vender as coisas, tudo muito fraco”, começou por dizer o gerente, indicando que “mesmo que houvesse mais turistas durante o Ano Novo Lunar, apenas estavam a ver e a apreciar os produtos, e ninguém fazia compras. As lojas de lembrança alimentares também não têm muito negócio, quanto mais uma loja de venda de decorações como nós”, lamentou.

      O gerente referiu que a loja já está aberta há mais de dez anos, sendo agora a única loja existente do tipo nesta rua, visto que as outras que vendiam antiguidades e recordações já foram encerradas por causa da pandemia. E segue-se esta última resistente, que seguirá os mesmos passos em Abril.

       

       

       

       

       

       

       

      Embora não tenha conhecimento sobre a renda exacta da loja, o gerente disse que não é possível pagar não havendo lucros de negócio. “Estava a correr tudo bem antes da pandemia, mas agora já não parece possível continuarmos. A origem de negócio da nossa loja vem dos visitantes, a maioria dos clientes são estrangeiros, que estavam mais interessados nestas coisas da cultura chinesa. Entretanto, ninguém pode vir cá agora, a má situação é óbvia para todos”, explicou o gerente, rodeado de produtos com etiquetas de desconto.

      Durante os sete dias do Ano Novo Lunar, de forma a impulsionar a retoma económica local, o Governo da RAEM lançou uma série de actividades de celebração para atrair turistas e incentivar o consumo interno. Recorde-se que os dados estatísticos da Direcção dos Serviços de Turismo mostraram que foram registados mais de 113 mil visitantes em Macau, correspondendo a um aumento de 25% em comparação ao período idêntico do ano passado.

       

      Dono de restaurante sobrecarregado com empréstimos para sustentar negócio

       

      Já num beco na mesma zona turística, o dono de um restaurante onde se vendem tripas de vaca salientou ao nosso jornal que houve melhoria de negócio no início do mês, mas a situação geral de operações não é optimista. “Existem realmente mais turistas durante o Ano Novo Chinês na rua, o volume de actividade recuperou até 20% em comparação à mesma época do ano passado, e se compararmos com a situação dos últimos meses nos dias normais, o negócio registou um aumento de cerca de 40%. Contudo, o ambiente comercial não é positivo, uma vez que perdemos mais de 70% do negócio nestes dois anos com o impacto da pandemia”, apontou.

      Em termos da renda da loja, o dono, Ho, revelou que chegou a um acordo com o proprietário sobre uma redução de 40% do valor de aluguer, e este corte já dura há dois anos. Ao ser questionado se haverá mais descontos na renda com a persistência da pandemia, o responsável sublinhou que “seja quanto for, um corte na renda já é um acto generoso por parte de proprietário”. “E a redução que tenho agora já é muito bem-vinda, todavia, tenho de negociar com ele para manter esse desconto. Digo-lhe que a minha situação financeira não está bem, tenho ainda empréstimo do banco e do Governo para liquidar”.

      Ho está muito atento às medidas de apoio para as Pequenas e Médias Empresas, e referiu que se tem esforçado tanto quanto possível. “Fiz tudo para sustentar a operação do restaurante, dediquei muito esforço ao meu negócio e gastei muito para fazer uma boa obra de decoração interior. Se eu desistir agora, tudo vai ser em vão”, lamentou, mostrando-se ao mesmo tempo pressionado com a liquidação dos empréstimos, com mais de mil patacas para banco e cerca de 17 mil patacas para o Governo.

      Recentemente, a Federação da Indústria e Comércio de Macau Centro e Sul Distritos apontou ao Jornal Ou Mun que alguns proprietários ofereceram uma redução de renda aos estabelecimentos comerciais para incentivar a ocupação das lojas. De acordo com a responsável da ourivesaria Cherry, na mesma zona central da cidade, existem ultimamente mais pessoas a visitar as lojas desocupadas que pretendem abrir negócios noutros recintos.

       

       

       

       

       

      “A renda desta zona tem sido elevada, portanto muitos decidiram fechar as lojas durante a pandemia. Mas agora há mais pessoas a ver e a perguntar sobre as lojas aqui, devem ter uma redução de renda, mas creio que não é grande”, afirmou a dona da ourivesaria, adiantando que a sua loja “felizmente não é arrendada, senão provavelmente já não conseguiríamos sobreviver com a renda desta zona”.

      Recordando que existiam várias joalharias na mesma rua no passado, agora apenas sobram duas. A outra ourivesaria no fundo da rua adoptou um horário de funcionamento mais curto para poupar nos gastos de operação, afirmou.

       

       

       

       

       

      Quanto ao desempenho do negócio, a responsável salientou que o número de visitantes subiu, mas o consumo não aumentou muito, porque as pessoas não têm vontade de gastar tanto dinheiro. “Conseguimos uma pequena retoma em relação ao Ano Novo Chinês de 2021. A passagem na fronteira com validade de teste de ácido nucleico de 48 horas ajudou na recuperação, as pessoas de Zhuhai podem vir Macau para fazer uma viagem de um dia, comprando joias de ouro para o casamento, por exemplo. O consumo é apenas um pouco melhor do que antes”, apontou.

      Os clientes actuais da ourivesaria são principalmente residentes locais. Apesar do preço do ouro ter subido ligeiramente nos últimos meses, continua a ser uma categoria de investimento seguro para alguns cidadãos, segundo a empresária, “particularmente num cenário tenso na sociedade devido à incerteza da evolução epidémica”.

       

      Pandemia levou à perda de clientes de Hong Kong

       

      A China Continental tem sido a origem principal de turistas para Macau. A Semana Dourada do Ano Novo Lunar deste ano registou 106 mil turistas provenientes do Continente, que corresponde a cerca de 93% do número total de visitantes. Entretanto, para as lojas de lembranças que vendem carne doce e biscoitos de amêndoa, Hong Kong é também uma fonte de clientes muito importante.

      Ao falar da situação comercial, o patrão da Pastelaria São Paulo expressou ao PONTO FINAL que a pandemia já levou à perda de uma grande parte de consumidores de Hong Kong pois estão sujeitos a restrições fronteiriças para viajar para a RAEM. “Antigamente, os clientes de Hong Kong eram generosos nas compras, os patrões de empresas de construção podiam comprar um grande volume de lembranças para os seus funcionários”, recordou. Porém, a exploração de vendas agora é instável, dependendo “se o cliente estiver de bom humor ou se ganhar dinheiro em casinos”, o que não oferece confiança para se fazer um bom negócio hoje em dia em Macau.

      Semelhante aos outros entrevistados, o empresário de pastelaria tradicional afirmou que o volume de visitantes é relativamente positivo, mas o aumento no número de turistas não significa necessariamente que há uma retoma no consumo. Uma subida de 10% nas actividades neste mês já é um resultado para deixar qualquer um satisfeito durante a pandemia, segundo o patrão da loja, que mantém pouco optimismo no mercado. “A situação prática de cada loja pode ser diferente, mas o que eu percebi é que muitas lojas fecharam, a renda em Macau deve ser alta para lojistas, o custo de funcionários também é caro, e a importação de produtos é mesmo cara”, criticou.

       

       

       

       

       

      Na mesma linha, a funcionária de uma farmácia com loja arrendada também mostrou pouca esperança apesar da recuperação do número de visitantes. “O negócio tem andado mal, mas também não ousamos negociar muito sobre a renda com o proprietário”, disse, salientando que houve um corte no preço do aluguer, mas que não foi significativo.

      Durante a entrevista, não existia grande fluxo na rua, e algumas lojas estavam quase vazias. “Nos últimos dias daquela semana da celebração, o desempenho do negócio foi normal, depois disso, as pessoas voltaram a trabalhar, fico agora sem clientes e não há muitas pessoas a passar por esta zona”, lamentou.

       

      PONTO FINAL