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      Início Opinião Moderadamente pecadora, uma nova “fórmula de Macau”

      Moderadamente pecadora, uma nova “fórmula de Macau”

      Às suas criaturas, o presente tem o condão de levá-las, tantas vezes, a pensar convictamente que, nesse tempo de eterna fuga para a frente, foi tudo sempre assim, tal como está, “aqui e agora”.

      Quem chegou a Macau antes desta pandemia, mas depois de 2010 ou 2012, por exemplo, podia facilmente ficar persuadido que a cidade foi sempre a terra da abundância, excessiva abundância. Foi-o, de facto, em diferentes momentos da história. Houve até certos nababos que, em dias de tufão, costumavam encostar sacos carregados de ouro a segurar as portas de casa. No entanto, tudo isso, em algum momento, deixou de o ser.

      Ainda é cedo, seguramente, para avaliar a profundidade dos efeitos da campanha moralizadora contra o jogo, mas já parece certo o destino do “sector VIP”, como se convencionou chamar ao mercado dos grandes apostadores, quase todos chineses, que encheram Macau de dinheiro e de histórias da extravagância, que, no país que se quer “moderadamente próspero”, tende a transformar-se numa relíquia de outros tempos. E que tempos.

      Recordemos. Por causa desses excêntricos jogadores, durante uns bons anos, quando os casinos batiam recordes atrás de recordes, tornaram-se comuns, nos muitos restaurantes de luxo que foram aparecendo nos casinos e hotéis de Macau, contas de centenas de milhares de patacas (expectável, se pensarmos numa concessionária de jogo servida por uma das melhores garrafeiras do mundo e onde uma Mou Tai com 80 anos se degusta desembolsando 480 mil patacas). Agora, os restaurantes de luxo que ainda sobrevivem estão às moscas.

      Em 2014, ano dos primeiros avisos do “sobreaquecimento” (a “luta contra a corrupção” na China levaria, então, à primeira quebra do crescimento do mercado desde a liberalização do jogo), contavam-se em Macau 523 Bentley, 250 Rolls-Royce, 158 Maserati, 131 Ferrari e 106 Lamborghini. A procura levou mesmo a Rolls-Royce a abrir uma loja, que, entretanto, fechou as portas. Os números tornam-se ainda mais impressionantes se pensarmos que Macau tem pouco mais de 400 quilómetros de estradas, insolucionáveis problemas de trânsito e o limite máximo de velocidade é, em escassas rectas, 80 km/h por hora, o que nem dá para engatar a segunda nos 13 McLaren que também se arrastavam nas filas da cidade. Mas ao contrário das estradas e dos limites de velocidade, o número destes supercarros continuou a crescer. Afinal, era o tempo dos jantares de Primavera organizados por promotores de jogo em que se sorteavam apartamentos e viagens em jactos privados até à Austrália. Para grupos. Eram os frutos de uma economia paralela que alimentou o crescimento daquele que se tornou no maior mercado de jogo do mundo.

      Para perceber como essa transformação ocorreu ao sabor da corrente destes rios de dinheiro, é útil ter presente um conceito que ajudou a explicar a especificidade de Macau no seio da China ao longo dos tempos, do Império do Meio à República Popular: a “fórmula de Macau”.

      Foi esta a feliz expressão encontrada pelo historiador Fok Ka Cheong para sintetizar a forma como o país tentou equilibrar as vantagens económicas da abertura ao estrangeiro e a segurança nacional. Em abstracto, este princípio aplica-se a qualquer acomodação de interesses aparentemente antagónicos, baseando-se em medidas concretas que, de modo pragmático, mantenham as potenciais desvantagens limitadas e controladas sob estreita supervisão – tal como confinar estrangeiros entre muralhas, proibindo contactos com a população local susceptíveis de levar a qualquer movimento contra a autoridade; o perigo tanto podia ser o proselitismo religioso decidido a converter o império, como a fuga de capitais e evasão fiscal da segunda maior economia do mundo.

      Uma característica importante deste método de controlo é a sua flexibilidade, sempre medida em função do momento e da sua temperatura, económica e política, implicando necessárias distensões e contracções. Tudo pode mudar subitamente. Num sentido ou noutro.

       

      Todavia, durante bastante tempo, o expectável é que tudo decorra sem sobressaltos. Não quer dizer que tudo vai ficar assim eternamente; apenas se aguarda, pacientemente, o momento considerado oportuno para actuar, o ponto do equilíbrio em que as conveniências e inconveniências podem trocar de papel, substituir-se. Mudar para que tudo possa ficar na mesma.

      Assim se explica a vista grossa ao que se passava nos meandros do jogo de Macau – de forma dissimulada, mas à vista de todos. Sob controlo. Até deixar de estar.

      Notando como eram escassas as inspecções à entrada do pequeno e único território chinês onde era permitido jogar, um especialista na lei do jogo comentava, numa audiência de uma comissão do Congresso dos Estados Unidos, como os jogadores que iam apostar a Macau sabiam ter uma melhor hipótese de ganhar um “jackpot” numa “slot machine” do que serem condenados por violar as regras da saída de capitais do país.

      Uma das formas mais comuns de fazer chegar o dinheiro a Macau, explicava, era o velho contrabando. Como fez um camponês, conta-se no tal testemunho, que entrou num casino com as roupas sujas de terra e tirou 50 mil dólares de Hong Kong, em notas, de uma das meias. Depois de apostar e perder esse dinheiro, tirou mais 50 mil da outra meia.

      Jogadores mais abastados recorriam a métodos mais sofisticados, contando com os serviços de lojas em zonas fronteiriças, intermediários, a troco de uma comissão, que transferiam o dinheiro requerido pelo visitante. Depois, as lojas de penhores, onde – segundo um esquema até já revelado em investigações jornalísticas, muito depois de funcionar durante décadas, e assim ter tranquilamente continuado – se vendem artigos caríssimos através de cartão de crédito, sem que qualquer produto seja verdadeiramente envolvido na operação. O vendedor obtém uma percentagem do valor, enquanto a maioria do total vai para quem empresta o dinheiro. Não significa isto qualquer registo da venda do cartão de crédito, que pode ficar em suspenso por 24 horas e ser cancelado se a sorte sorrir ao jogador e este tiver meios de pagar a dívida. Com juros na casa dos dois dígitos.

      E os “junkets”. A sua importância era tal, dizia este especialista, que os promotores responsáveis por angariar jogadores, providenciar transporte, crédito, operar salas de jogo no interior dos casinos e cobrar dívidas do jogo, costumavam ficar com uma fatia muito maior do dinheiro perdido pelos “high-rollers” do que os próprios casinos. Não admira que nem os casinos nem o governo estivessem pouco satisfeitos com semelhante arranjo.

      Todavia, observava este perito, o sistema persistia porque cumpria diversas funções, incluindo assumir os riscos de alimentar o crescimento do maior mercado do jogo do mundo à base de jogadores com muitas dificuldades em fazer chegar o dinheiro a Macau ou cobrar dívidas que, à luz da lei do Continente, simplesmente não existiam.

      Outra função, facilmente identificável, era dar continuidade à “fórmula de Macau’, circunscrevendo na pequena cidade, através de um equilíbrio forçosamente precário, legislações contraditórias e regras pouco claras que permitam casinos num país onde o jogo é estritamente proibido. E onde a casa está habituada a ganhar.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista