Às vezes é difícil acreditar que é realmente verdade que estamos a ouvir o que estamos a ouvir. Já nos habituámos, e bem rápido que foi, a estar à espera da trumpice do dia. Todos os dias há uma nova! O que sairá hoje da boca do líder-do-mundo-livre?, como alguns ainda insistem em denominar o POTUS. (Para quem não sabe, POTUS é a sigla para President Of The United States.) Mas a verdade é que há disparates por aí que são absolutamente surpreendentes.
Os leitores deste texto ficarão com certeza boquiabertos ao saber, se é que já não sabem, que andam p’ràí umas criaturas que acreditam que a Terra é plana. Sim, é verdade! E não são dois ou três! Têm mesmo uma sociedade e organizam convenções internacionais. Atenção que isto é sério, não se trata de comediantes com uma câmara escondida! Comparado com estes, o Trump nem parece tão mau assim. Mas não se deixem enganar, enquanto que estes “loucos” são relativamente inofensivos, pelo menos até decidirem pôr uma bomba por aí, sabe Deus onde, o outro não o é, e é escalafriante pensar onde é que a sua loucura nos poderá levar.
Vou chamar à teoria, salve seja, de que a Terra é plana e não esférica, terraplanismo; não sei se esta palavra existe ou se existe uma outra palavra em português para descrever uma tal coisa. De qualquer forma, esta ideia não inspira o autor deste texto a se levantar da cadeira para ir buscar o dicionário ali à estante e terraplanismo até soa bem, só esperemos é que esta palavra não sirva para descrever, na aeronáutica, uma qualquer técnica de sobrevoar o terreno.
As Imaginações dos Modernos
Muitas pessoas poderão estar convencidas de que a conclusão de que a Terra é esférica, e não plana, é uma descoberta relativamente recente, que datará da época dos Descobrimentos e da Renascença. Muitos de nós, senão todos, crescemos com a ideia de que os bravos navegadores portugueses acreditavam, pelo menos a princípio, que o Mundo era plano e que se chegassem à extremidade da Terra corriam o risco de cair ao abismo. Esta ideia poderia, de facto, circular na altura entre as pessoas do povo inculto, mas não era, obviamente, partilhada por aqueles que se aventuravam na conquista das desconhecidas terras de além-mar. Estes eram ou grandes astrónomos e matemáticos eles próprios, ou faziam-se acompanhar de grandes mestres destas áreas. Para além disso, estavam na posse de todo o conhecimento que lhes havia sido legado pelos antigos que, como veremos, sabiam bem do que estavam a falar.
Muitos dos leitores deste texto terão lido nos manuais escolares que o português Fernão de Magalhães foi ter com D. Manuel I para lhe propor a primeira viagem de circum-navegação a volta da Terra, a qual provaria que esta era esférica. D. Manuel não se teria mostrado muito interessado e Fernão de Magalhães virou-se então para o rei de Espanha, na altura Carlos I de Espanha e V da Áustria, que aceitou bancar a expedição. Estória, aliás, muito parecida à de Colombo, que primeiro veio propor a sua viagem a D. João II e, uma vez recusada a ajuda financeira necessária, levou a sua proposta aos reis católicos.
A viagem de Fernão de Magalhães (1480–1521), iniciada em 1519, acabou liderada por Sebastián Elcano (1486–1526), pois o capitão português perecera nas ilhas Filipinas no ano anterior ao términus do seu périplo em 1522.
Ora, a viagem de Fernão de Magalhães não tinha como objectivo provar que a Terra era redonda, nem sequer navegar à volta da Terra, mas sim o de encontrar um caminho alternativo para o Oriente de modo a que os espanhóis, que em consequência dos termos do Tratado de Tordesilhas estavam limitados nas rotas à sua disposição para alcançar o Extremo Oriente, pudessem ter acesso às suas riquezas sem o intermédio dos portugueses. A viagem de Fernão de Magalhães resultou num embaraço diplomático já que, para alcançar as ilhas Molucas, que Espanha reclamava então para si, o Tratado de Tordesilhas foi violado e, em consequência, os portugueses reclamaram a posse das ilhas.
Isto de se andar por mares portugueses a mando do rei de Espanha não cai muito bem e valeu-lhe a Fernão de Magalhães, minhoto ou portuense de nascença, não se sabe bem, tanto reconhecimento como censura por parte de Camões, que deste escreveu no canto X d’Os Lusíadas ‘O Magalhães, no feito, com verdade, | Português, porém não na lealdade’.
A viagem de Fernão de Magalhães e Sebastián Elcano, que, entretanto, adquiriu tintes legendários, pode, de facto, ter sido a primeira viagem de circunavegação da Terra, mas não é dela que deriva a certeza, muito menos a ideia de que a Terra é esférica.
Em 1992, no aniversário do quinto centenário da descoberta das Américas, estreou-se o filme ‘1492: Conquista do Paraíso’, produzido e dirigido por Ridley Scott. Este filme descreve a descoberta da América por Cristóvão Colombo, em 1492, ao serviço dos reis católicos.
O filme começa com Colombo descascando uma laranja ao mesmo tempo que diz ao seu filho que a Terra é redonda, como a laranja que ele estava a descascar. No filme nunca se afirma que a Terra é plana, pelo contrário, numa cena aparece mesmo parte de um globo terrestre na imagem. No entanto, tanto a cena inicial com a laranja como a cena da discussão entre Colombo e os teólogos da Universidade de Salamanca parecem sugerir que na altura ainda não se acreditava que a Terra fosse esférica. Aliás, durante o debate, os teólogos dominicanos evocam Aristóteles e Ptolomeu, os quais, desde o incidente histórico de Galileu, passaram a ser entendidos, especialmente, pelos menos esclarecidos, como símbolos do retrocesso das ideias medievais.
Infelizmente, como se viu recentemente com a discussão à volta dos problemas de erros factuais da série pseudo-histórica ‘The Crown’, da Netflix, o ecrã, seja do cinema, seja da televisão é hoje a grande fonte do “conhecimento histórico” de muita gente. O problema da influência das séries e filmes “históricos” no conhecimento do passado é que os interesses das produtoras de conteúdos de entretenimento não são os mesmos que os do ministério da educação.
O Saber dos Antigos
Na verdade, é a Pitágoras que se atribui a paternidade da ideia de que a Terra é esférica. Pitágoras terá vivido, se é que alguma vez existiu, muitos acreditam que Pitágoras era uma figura legendária, por volta do séc. VI a.C. Tenha ele existido ou não, os gregos antigos já sabiam que a Terra era esférica e é Aristóteles o primeiro a oferecer provas objectivas em favor desta hipótese.
Primeiro Aristóteles notou que em diferentes partes da Grécia, a posição das estrelas não era a mesma e que no Egipto não se viam as mesmas estrelas que na Grécia; se a Terra fosse plana, as estrelas ver-se-iam todas na mesma posição fosse de onde fosse. Aristóteles observou também que durante um eclipse da Lua, a sombra que a Terra projectava sobre a Lua era sempre redonda; se a Terra fosse plana, a sua sombra não seria sempre redonda, pois dependeria do ângulo em que a luz do Sol reflectisse sobre a Terra. Por último, Aristóteles notou que quando um navio desaparece na linha do horizonte, vai desaparecendo progressivamente a começar pelo casco; se a Terra fosse plana, o barco ficaria cada vez mais pequeno ao nosso olhar, mas todo por inteiro até finalmente desaparecer por completo do nosso campo visual.
Por volta do séc. III/IV a.C., no princípio do período helenístico, a ideia de que a Terra era esférica não só era uma ideia comum, mas também, graças às conquistas de Alexandre Magno, uma ideia que começava a expandir-se para o Oriente Próximo.
O feito mais digno de menção aqui são, sem dúvida, os cálculos de Eratóstenes de Cirene (276-194 a.C.) para determinar a circunferência da Terra. Para além de poeta, astrónomo, matemático, e director da biblioteca de Alexandria, Eratóstenes é considerado também o pai da geografia e da cronologia científica. É através de Cleomedes, no seu livro ‘Acerca do movimento circular dos corpos celestiais’ que nós sabemos que Eratóstenes calculou a circunferência da Terra por volta do ano de 240 a.C. e que o fez no Egipto ptolemaico pois a obra original de Eratóstenes de Cirene, intitulada ‘Acerca da medida da Terra’, onde detalhava o processo que levou a cabo para medir a circunferência da Terra, infelizmente, não chegou até nós.
Eratóstenes determinou que o meridiano da Terra tem 252,000 stadia, ou seja, entre 39.060 e 40.320 km. Hoje sabemos que a circunferência da Terra à volta da linha do Equador é de 40.075,017 km e que a circunferência que passa pelos polos é de 40.007,863 km. O stadium é uma medida antiga que pode ser equivalente a qualquer coisa entre 155 e 160 metros. Isto quer dizer que a margem de erro do cálculo que Eratóstenes fez há, mais ou menos, 2.265 anos atrás é de entre 0,8% e 2,4%. Normalmente se atribui a Eratóstenes uma margem de erro de cerca de 1% já que ele calculou o meridiano e não a linha do Equador, considerando também o valor médio de um stadium entre os 155 e os 160 metros.
Eratóstenes determinou a circunferência da Terra dividindo a distância entre duas cidades (Alexandria e Siene, a moderna Assuão, onde se encontra a famosa barragem) no mesmo meridiano pela diferença entre os graus dos ângulos da sombra produzida pelo sol ao meio-dia no dia do Solstício de Verão. (Já tivemos a oportunidade de discutir nesta coluna os Solstícios e os Equinócios.)
Foi também Eratóstenes quem determinou que o ano solar tem 365 dias e seis horas e foi também ele o primeiro a calcular o grau do declive do eixo da Terra na sua órbita à volta do Sol, declive este, que como já tivemos a oportunidade de ver aqui, explica as quatro estações do ano.
Nesta nossa era da Inteligência Artificial, a qual parece não conseguir evitar dar respostas erradas, não podemos deixar de admirar quão longe é capaz de chegar o génio humano sem a ajuda de computadores. É somente graças ao seu intelecto, sem calculadores nem satélites no ar, que Eratóstenes conseguiu calcular com um nível de precisão impressionante algo tão incrível como a circunferência do nosso planeta.
O Terraplanismo Moderno
Vinte e dois séculos depois, há quem jure de pés juntos que a Terra é plana. É difícil de acreditar que haja indivíduos que em 2025, ou se quisermos, no ano de 2778 da fundação de Roma, acreditem que a Terra é plana, mas a verdade é que a ignorância não se detém a olhar para o calendário.
A origem do terraplanismo moderno, moderno aqui deve ser lido num tom sarcástico, deve-se a um socialista vitoriano inglês, de seu nome Samuel Birley Rowbotham (1816–1884) que escreveu um livro em 1865 negando que a Terra fosse esférica. Pelo contrário, afirmava Rowbotham que a Terra era plana, que tinha a forma de um disco com o Polo Norte no centro, que era circundada por uma muralha de gelo, ou seja, o Polo Sul, e o sol, a lua e as estrelas, que se encontravam a tão somente a cerca de cinco quilómetros da superfície da Terra, moviam-se no firmamento à volta deste nosso disco terráqueo.
Por volta desta altura, ideias científicas, como a da evolução das espécies, pareciam pôr em causa, sobretudo em países de tradição protestante, aquilo que a Bíblia afirmava. Assim, por exemplo, a ideia da criação do mundo em sete dias passou a ter um carácter muito mais dogmático do que alguma vez tivera. Neste âmbito, afirmar que a Terra é plana parece vir ao encontro desta necessidade de reafirmar o conteúdo bíblico. Aliás, as ideias de Rowbotham foram adoptadas por uma tal igreja cristã católica apostólica, que, apesar do seu peculiar nome, tratava-se de uma seita evangélica fundada nos finais do século XIX por um emigrante escocês nos Estados Unidos.
Rowbotham fundou a Sociedade Universal Zetética que publicava uma revista, a ‘The Earth Not a Globe Review’, para a promoção e divulgação destas ideias. A sociedade foi rebaptizada em 1956 como The Flat Earth Society ou seja ‘A Sociedade Terra Plana’ e pode ser encontrada aqui: https://theflatearthsociety.org/home/index.php. Quem se estiver a sentir um pouco em baixo e necessitar de dar umas risadas, pode dar lá um saltinho. Encontrará lá um artigo que explica como a teoria da relatividade de Einstein prova que a Terra é plana e outro que explica os erros de Aristóteles em relação à sombra da Terra nos eclipses lunares.
Também todos os anos se organiza a Flat Earth International Conference que congrega seguidores desta “ideologia” de todo o mundo, incluindo celebridades, sempre à procura do click de uma câmara fotográfica, e sobretudo YouTubers. O YouTube é, aliás, acusado de ser o grande meio de difusão desta ideologia que muitos identificam como mais uma teoria da conspiração.
É sobretudo a partir de 2015, e aqui não podemos culpar a pandemia, que, coitada!, tem as costas largas, que o terraplanismo começa a crescer significativamente e a internet é a sua autoestrada. Muitas vezes associado a formas extremadas do evangelismo americano, o mesmo que considera que Donald Trump um novo messias, o terraplanismo, como todas as teorias da conspiração, advoga que os cientistas, políticos e os meios de comunicação do chamado establishment estão todos em conluio para enganar o povo miúdo; o porquê desta grande conjura, não se sabe bem. Estes grupos são os mesmos que defendiam que as vacinas contra o COVID tinham o intuito de modificar o ADN das pessoas; outra vez, porquê? para que efeito?, fica por dizer!
Aqui é mister fazer notar o contraste entre a atitude negacionista da ciência que cresce nos nossos dias e o visionarismo progressista dos antigos. Afinal, eram eles os que acreditavam nos deuses e em explicações metafísicas para a trovoada, e, no entanto, são eles que advogam e desmontaram que a Terra é esférica e que se posiciona num sistema planetário de corpos celestes que se organizam no universo. Enganaram-se na posição da Terra relativamente ao Sol, mas também não podiam acertar todas. Contrasta também a sua falta de meios em relação às muitas ferramentas que temos hoje a nossa disposição, incluído o novo deus dos humanos, sua excelência eminentíssima, o computador nos seus vários avatares, o que apenas engrandece as suas conquistas científicas.
As teorias da Terra plana não têm verdadeira origem bíblica já que a Terra não é descrita como plana per se no Antigo Testamento. No entanto, como a Terra também não é descrita como esférica, alguns consideram que ver a Terra como plana é mais compatível com a forma como o mundo é descrito na Bíblia. Verdadeiramente, a Bíblia não oferece uma visão sistemática da configuração do mundo, sendo necessário recorrer a diferentes textos para poder para esboçar uma visão minimamente escriptural do mundo. A Bíblia fala de pilares que sustêm a Terra e do Firmamento, uma espécie de cúpula, de onde as estrelas, o Sol e a Lua estão como que pendurados.
Ainda assim, para muitos cristãos evangélicos, sobretudo nos Estados Unidos, os mesmos que acreditam que o universo foi feito em sete dias e que todos os animais do mundo couberam numa arca, estas visões anticientíficas e que não encontram verdadeiro fundamento no texto bíblico são preferíveis às evidências científicas. A impressão que se forma e de que o que está em questão para muita desta gente não é tanto seguir o que a bíblia diz, mas sim desafiar a ciência, contradizer os ditames do establishment.
É necessário, no entanto, reconhecer que problemas como o dos seguidores do terraplanismo moderno não estão de todo dissociados do desprezo pelo saber tradicional e da idolatria do digital. É de notar a grande arrogância da sociedade hodierna no que diz respeito ao ensino e ao conhecimento. Tudo que é anterior ao digital é descartado como antiquado e absurdo, às vezes por aqueles que mal sabem soletrar o próprio nome. Já não é necessário aprender, declaram, está tudo na net! O novo grito do Ipiranga dos ignorantes! Os portugueses, por sua vez, adoram aquela conversa de chacha contra o decorar e o ensino baseado em decorar datas e outras coisas. Sem memorização não há saber! É claro que o saber não se limita ao decorar; a memorização é apenas uma parte do processo progressivo de aprender, mas uma cabeça vazia não é uma cabeça que saiba. E se a função do ensino é somente a de ensinar a pensar, algo que, aliás, é inerente ao género humano e como tal não necessita de ser ensinado, mas sim de treino, sem dados, pensar-se-á em quê?
A ideia básica é que a internet veio trazer a verdadeira democratização do conhecimento; agora qualquer um tem acesso à informação. Isso é, sem dúvida, verdade. O autor deste texto teve de consultar a internet para obter detalhes acerca destas criaturas excêntricas, chamadas, em inglês, os flat-earthers, e das suas crenças tão peculiares, mas não nos esqueçamos que é também a mesmíssima internet e a sua vocação democratizante, proclamada as mais das vezes por aqueles que fazem milhões através dela, que criou, e continua a criar, e alimenta ideologias e formas absolutamente absurdas e até perigosas de pensar. Não me refiro apenas aos flat-earthers, que de certa forma, até trazem um certo colorido à nossa existência ultimamente tão opaca, mas sobretudo a racismos, xenofobias, neofacismos, a ideologia woke, o extremismo-trans, entre muitas outras coisas.
Aqui há uns anos, acusava-se o YouTube de ter vídeos onde se ensinava a fazer bombas na cozinha lá de casa com apenas detergente de lavar a louça, adubo e uma panela de pressão, bombas do mesmo tipo das que explodiram na maratona de Boston em 2013.
A ideia de que a internet possa substituir o ensino e a aprendizagem é uma falácia perigosa para a qual estes flat-earthers, estes terraplanistas modernos nos avisam. O que nós necessitamos como antídoto para muitos dos disparates que andam por aí, trumpismos muskismos incluídos, é mais educação tradicional e menos ecrã. Que a cara de Trump passe a vida nos nossos ecrãs é a prova mais que cabida de que os devíamos desligar para pensar.
A Terra e o Esférico
Para os amantes de futebol, entre os quais o autor deste texto não se inclui, em 2019, Javi Poves, então presidente do Móstoles, um pequeno clube de futebol dos subúrbios de Madrid, rebaptizou o seu clube dando-lhe o nome de Flat Earth FC, em inglês. A ideia era pôr este pequeno clube de futebol na boca do mundo e na mira dos meios de comunicação. E assim foi, de facto, o clube teve direito a international headlines mas, infelizmente, isso não foi o suficiente para que o Flat Earth FC, chamado, desde 2021, CF Fuenlabrada Promesas, saísse da terceira divisão e o seu presidente, no final, teve de levar o seu ideário terraplanista para outra freguesia.











