Edição do dia

Quinta-feira, 29 de Setembro, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
27.9 ° C
29.4 °
27.9 °
89 %
6.2kmh
40 %
Qui
28 °
Sex
28 °
Sáb
29 °
Dom
29 °
Seg
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Opinião Um ano para esquecer que fica na História

      Um ano para esquecer que fica na História

       

      Deve esconder-se lá atrás no tempo esta vontade de, a cada fim de ano, assim medido por uma semelhante imaginação industriosa que decidiu calcular as voltas ao sol, nos voltarmos para o seu princípio e avaliá-lo, compará-lo e julgá-lo.

      Os rituais que celebram a passagem das estações são antigos como as civilizações, mas dir-se-ia que esta nossa obsessão por fixar, estabelecer balanços periódicos é mais devedora à Era Moderna.

      Em Macau, este exercício tem um antepassado numa obra que, não sendo um balanço anual, nem tão pouco um anuário, organiza o tempo da História como se de um ano se tratasse, assim mesmo, de Janeiro a Dezembro. Dia a dia.

      “Este trabalho, feito assim, não oferece utilidade proporcional à fadiga de quem o empreende e conclui”, escreve A. Marques Pereira, autor de “Ephemerides Commemorativas da Historia de Macau”, publicado na cidade, em 1868, convicto de que, apesar do esforço, tinha de tentar facilitar a outros um “estudo menos salteado”.

      Mas é não seguido que segue o curso desta história. Começa no dia 1 de Janeiro, mas de 1809. Foi este o ano em que Marques Pereira encontrou o acontecimento de um primeiro de Janeiro mais digno de ser considerado uma “efeméride”.

      Fazia sentido a advertência que este antigo secretário da legação de Portugal na China e procurador dos Negócios Sínicos em Macau assinalava no princípio do livro: “Ordenada em efemérides, pela sequência dos dias do ano, a comemoração baralha os factos, em vez de os expor em seu natural sucedimento. O espírito do leitor, de contínuo sacudido bruscamente de uma época para outra mui distante e recordando casos de natureza mui diversa, fatiga-se em breve e nada aproveita. O historiador, por sua parte, reduz a pretensão a satisfazer a pequena curiosidade dos aniversários”.

      Marques Pereira intuía a tendência que se tornaria mais comum para tratar o passado e a sua “variedade fugitiva” com esta arrumação, talvez mais prática para quem o quer consultar, ter à mão, percorrê-lo como um índice com a ponta de um dedo, apreendendo-lhe a ordem e os factos. “Foi uma espécie de ginástica histórica e literária”, notava Marques Pereira, “a que, em tais condições, ninguém se deu ainda, que me conste”. Estava certo.

      Se a história de Macau, todos esses dias que encheram quatro séculos, cabia nos doze meses de um só ano, pode um só ano se dispersar por toda essa história? Valer por toda ela? O mesmo é dizer: apagá-la? Eclipsá-la?

      São dúvidas de esclarecimento simples, mas que nem por isso se desfazem, voltando, a cada passo, a serem suscitadas em Macau, terra de tantas transformações e oscilações que mais parece um casino flutuante (mas até essa casa da sorte afigura-se cada vez mais metamorfoseada e desafortunada).

      Olhar para este ano que agora acaba, neste mês de Dezembro, é mais do que passar 2021 em revista. Tal como nos relatos de quem esteve a um sopro da morte, é a vida toda – a história toda – que nos passa, neste momento, diante dos olhos. É assim desde que começa a pesar mais o que se perde do que aquilo que se ganha, quem parte do que quem chega, o que não se diz do que aquilo que se exclama, o que se esconde do que aquilo que se revela.

      O ano pode ser para esquecer que, fatalmente, fica na história, mas a história não pode ser esquecida num só ano. Nem em dois.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista

       

      DEIXE UMA RESPOSTA

      Por favor escreva o seu comentário!
      Por favor, escreve aqui o seu nome