Edição do dia

Terça-feira, 9 de Agosto, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
céu pouco nublado
27.9 ° C
27.9 °
26.9 °
83 %
5.1kmh
20 %
Seg
28 °
Ter
28 °
Qua
29 °
Qui
28 °
Sex
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Opinião O que esconde um livro

      O que esconde um livro

      Foi numa feira do livro que comprei uma colecção de postais, fotografias da cidade antiga, e um livro que não cheguei a ler. Jamais poderia imaginar que, uns meses depois, iria conhecer a cidade e nela me deixar ficar. A cidade já não tinha juncos, nem tancareiras, mas ainda ali estava um casino flutuante, uma vida peculiar à beira-rio, e casas de tijolo cinzento em pátios e ruas estreitas em forma de labirinto. Já não me lembro do nome do livro e não sei o que lhe aconteceu depois da minha mudança de mundo.

      Esta semana li que Macau já não está nas feiras do livro portuguesas. O encerramento da representação do Turismo de Macau em Lisboa começa a ter consequências visíveis, bastante mais palpáveis do que as explicações que foram dadas aquando do fim da estrutura em Portugal. Talvez seja da pandemia. A pandemia explica muita coisa. Dá para muita coisa também.

      É uma decisão difícil de perceber. Na altura, foi justificada como estando relacionada com a racionalização de quadros e a simplificação administrativa do Governo da RAEM. Fechou-se o Centro de Promoção e Informação Turística de Macau com a desculpa de que ainda existe em Lisboa a Delegação Económica e Comercial de Macau. Como se fosse tudo a mesma coisa. Talvez pudesse ser. Mas não é. A livraria que ficava nas instalações da Delegação já não existe.

      Os editores que se deram ao trabalho, muitas vezes inglório, de publicar livros sobre Macau já receberam indicações para irem buscar o que não se vendeu. Há quem lá tenha mil livros para agora arrumar num armazém, longe dos olhos que os poderiam ler. Dificilmente voltarão às feiras do livro, aconchegados por postais da Macau que já não existe. Que ainda ontem existia.

      Os livros e o resto. Começando pelo resto: não há turistas portugueses em Macau neste momento. Não se sabe quando voltarão. Os portugueses e os outros todos que talvez pudessem ser descobertos a partir de uma presença em Lisboa, que se adivinhava forte. Há pouco mais de dois anos investia-se com convicção na promoção de Macau em solo português. Mas tudo o vento levou, incluindo a convicção.

      Não há turistas agora e não se sabe quando voltará a haver – pelo andar da carruagem, neste caso da pandemia, será necessário esperar pacientemente pelo primeiro turista português a aterrar em Macau, atendendo ao modo como a cidade se fechou ao resto do planeta. Ainda assim. O Turismo de Lisboa não era uma agência de viagens. A pandemia explica muita coisa. Dá para muita coisa também.

      Os livros. Os livros sobre Macau. Foi neles e com eles que percebi, na medida em que é possível compreender, como ali se chegou. Numa terra sem memória, a história guarda-se nos livros e no arquivo de jornais da biblioteca. São os livros que guardam as pessoas que cabem dentro deles. Macau, na sua pequenez geográfica, na sua perdição no mapa do mundo, foi sempre – e curiosamente – objecto de muitos escritos. Os viajantes que por lá passaram, de tantas nacionalidades diferentes. Os viajantes que lá ficaram, deixando de ser viajantes. Os que lá nasceram e viajaram com os livros que escreveram, com os poemas que trocaram, com os romances que só viveram nas páginas que escreveram.

      Os livros. Os livros não foram feitos para estarem em armazéns, porque há sempre um leitor que quer aquele livro e outro. Porque houve um editor que os publicou. Porque houve alguém que os escreveu. Os livros ensinam-nos a respeitar os outros, porque nos dizem sempre algo que não sabíamos. Ensinam-nos a diferença. Os livros são uma necessidade.

      Talvez seja da pandemia, este desinteresse. A pandemia explica muita coisa. Dá para muita coisa também.

       

      Isabel Castro
      Jornalista

      DEIXE UMA RESPOSTA

      Por favor escreva o seu comentário!
      Por favor, escreve aqui o seu nome