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Sexta-feira, 12 de Agosto, 2022
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      Início Reportagem Destruição e desalento, no dia em que o Hato sacudiu a cidade

      Destruição e desalento, no dia em que o Hato sacudiu a cidade

      Avançou sobre Macau sem piedade, o tufão a que os homens chamaram Hato. Ao final da manhã de quarta-feira, ascendeu o sinal para o seu máximo, e a cidade não encontrou tempo para acautelar os estragos da tempestade. Depois do vento serenar, o PONTO FINAL saiu à rua e seguiu o rasto de destruição que varreu a parte velha da cidade, que se estende sobre o rio. Um registo de devastação que a custo encontra espaço na palavra.

      Reportagem de Sílvia Gonçalves (Texto) e Eduardo Martins (Fotografia)

      Quando finalmente serenaram os ventos, que ao final da manhã vergastaram a cidade, avançaram as gentes para a rua. Em passo lento, o corpo manchado de lama, o olhar gelado pelo espanto. Nas casas e lojas tomadas pelas águas, onde a destruição serpenteou sem misericórdia, sobram despojos de uma vida horas antes encaixada numa banal normalidade. A arrastar as pernas que já não acompanham a vontade, um velho apoia-se na bengala, enquanto murmura “casa”, em português, e aponta em frente, como quem tenta alcançar um abrigo que poderá ser já um lugar transfigurado. Soam as sirenes ao longe. Na Rua dos Mercadores, artéria de comércio e negócio, a vida já não fervilha e está agora tomada pelo desespero e a incredulidade. Com os olhos postos nos destroços, as mulheres da Rua dos Ervanários sacodem como podem o desalento, deitam mãos à enxurrada que atirou por terra as grandes vitrines e bancadas que ostentavam o verde polido das pedras de jade. Contentores de lixo tombados, paletes, placas de madeira e de zinco, chapa, óleo derramado, alimentos putrefactos. Sobre camadas de detritos e lama caminham os homens, como espectros. Contam apenas com a força dos braços para reerguer o que o Hato, que se anunciou de mansinho, ousou arrasar.

      “EM DEZ MINUTOS A ÁGUA SUBIU ATÉ METADE DA CASA, NÃO CONSEGUIMOS LIGAR PARA AS AUTORIDADES A PEDIR AJUDA”

      Na apertada Travessa dos Alfaiates, arrastam-se para a rua os pertences que a vida tratou de acumular. A água invandiu casas e pequeno comércio, em momentos de terror de que ninguém conseguiu escapar. “Esta era uma casa tão bonita, mas está destruída. Em 10 minutos a água subiu até metade da casa. Não conseguimos ligar para as autoridades a pedir ajuda, não havia electricidade, não havia internet”, conta Yu Kong, enquanto recorda o que viveu minutos antes. Com uma esfregona, tenta em vão vazar a água enlameada trazida pelo rio, que lhe derrubou móveis e objectos, mas não lhe tolhiu a perseverança. Aos 60 anos, diz nunca ter testemunhado um tufão de tamanha violência. “Há uma década houve um muito forte, mas a água não subiu tanto”. Yu diz não querer procurar ajuda, resignou-se na convicção de que terá que reerguer-se sozinho. “O meu Governo não faz nada”, murmura, enquanto arrasta as águas para a calçada.

      Uns metros à frente, um casal de filipinos mostra uma sala apinhada de beliches, uns poucos metros quadrados onde foram surpreendidos, durante o sono, pela enxurrada. Sem se identificarem, contam que a água entrou pela camarata enquando descansavam da longa jornada nocturna de trabalho. “Atingiu a altura de um metro”, descreve o homem, com o pânico ainda fixado no rosto.

      Instalou-se o caos na Rua Camilo Pessanha, onde dezenas de moradores e lojistas arrastam lixo e destroços, que vão empilhando ao longo da via. Numa loja onde a mercadoria foi arrasada pela lama, um homem despeja caixotes de roupa para a rua. Em segundos, dezenas de mulheres, na sua maioria filipinas, atiram-se sobre o chão para recolher molhos de peças ensopadas em lama. “Ele está a oferecer roupa que ficou danificada, estamos aqui há mais de uma hora”, conta uma das mulheres, com as pernas cobertas de lama. A cada cinco minutos, uma nova pilha de roupa é lançada do interior da loja. Repete-se a sofreguidão delas, que não desmobilizam enquanto a dádiva não cessa.

      “AS PESSOAS NADAVAM PARA FUGIR, AS LOJAS FICARAM COBERTAS PELA ÁGUA”

      Na varanda por cima da loja, a mulher que carrega um bebé grita que na rua a água subiu dois metros. Conta ter visto aqueles que nadavam para escapar à fúria do vento e das correntes. “Nunca vi nada assim. As pessoas nadavam para fugir, as lojas ficaram cobertas pela água. Aqui em cima estamos bem, não aconteceu nada”.

      Pouco depois das 16 horas, centenas de pessoas observam em silêncio, ao longo da Visconde Paço d’Arcos, rua desafogada e agora alagada que envolve o Sofitel. Caminham com os pés enfiados na água, olham em volta, desafiam o vento que subitamente volta a soprar, convictos que o pico de violência já não volta. Seguem alguns para o hotel mergulhado na penumbra. No imenso lobby, amontoam-se hóspedes e bagagens pelos sofás, a aguardar indicações que permitam zarpar para o ferry ou o aeroporto.

      No Porto Interior o cenário de devastação agrava-se à medida que os pés avançam sobre a lama. Frente aos restaurantes do cais, centenas de homens e mulheres caminham sobre as águas pútridas, enquanto tentam agarrar com as mãos peixe ainda vivo que se soltou dos aquários estilhaçados. Detritos alimentares e imundície é tudo o que sobra e se alastra. E o cheiro fétido, a carne e peixe apodrecidos que se acumulam nos passeios, a combustível. O Cais 22, restaurante que é ponto de rumagem de locais e forasteiros, está agora reduzido a destroços, com máquinas e mobiliário arruínados. Do fundo corredor, onde habitualmente seguem, num corropio, as travessas para o terraço sobre o rio, resta agora escuridão e silêncio.

      Cá fora, empunham-se os caranguejos ao alto, auscultam-lhes a frescura, que tudo o resto, como a limpreza, já não importa. “Este tufão foi o pior que vi desde que cá estou, e já cá estou há 10 anos”, conta Sitaram Khatri, emigrante do Nepal, que observa a multidão que se atira sobre a lama. Na rua onde vive, a poucos metros de distância, todos os prédios têm os pisos térreos arruínados pela enxurrada. “A minha casa está bem, fica num segundo andar, mas o rés-do-chão está destruído. Entre as 12 e as 13 horas, a água subiu até à altura do meu pescoço. Na minha rua todos os edifícios estão alagados”. Mostra a imagem captada com o telemóvel de um carro levantado, cuja dianteira foi encaixar em cima de um pilar.

      “ESTAMOS A TRABALHAR, VAMOS PROCURAR PESSOAS EM CASAS ALAGADAS”

      Do outro lado da estrada, um grupo de mergulhadores dos Serviços de Alfândega, alinhados em círculo, narra em surdina uma estratégia de salvamento a travar em território desconhecido. Não revelam a missão que os levará para as águas, mas atiram: “Estamos a trabalhar, vamos procurar pessoas em casas alagadas”. E rapidamente se afastam. Na Rua do Tarrafeiro, dezenas de pessoas observam o tal carro levantado, erguido sobre o pilar. A poucos metros, uma viatura dos bombeiros extrai água em mais um edifício inundado.

      Na Rua do Teatro, sem lugar a encenação, um tapete de lixo cobre o pavimento. Caminha uma alma com vagar, a arrastar o passo, entregue ao desalento. O Largo do Pagode do Bazar converteu-se entretanto num repositório de motas e o entulho estende-se até à porta do templo. Soçobram os crentes com os pés fincados nos bancos, corpo inclinado sobre o chão. Estugar o passo, avançar sobre as artérias onde a desolação se repete ao infinito. Na esquina da Rua do Guimarães, juntam-se aqueles que expiam a operação da polícia. Olhos postos nos vidros de uma loja, onde os agentes, nariz espetado sobre a fechadura, sussurram dúvida e indignação, como quem teima em resolver um mistério. A explicação chega em português, pela voz do proprietário, que de braços cruzados aguarda indicações dos agentes. “A minha casa está bem, mas a loja está mal, é de artigos de pesca. Tentaram entrar, deram umas marteladas na fechadura. Agora não podemos entrar, a fechadura está rebentada ou fecharam-se por dentro. Só abri a loja há dois anos, mas nunca fui assaltado”, conta Naza Lameiras.

      Também o macaense, de 33 anos, confessa nunca antes ter embatido numa tempestade de tamanha intensidade. “Há muitos anos que não via nada assim. O anterior tufão violento foi há mais de 10 anos, e foi sinal 9. Na minha memória esta é a segunda vez que enfrento um tufão assim”. A última vez que um sinal 10 foi içado na cidade, essa, foi já em 1999, coisa que parece já não caber na memória de Naza. Entretanto os agentes, curvados sobre a fechadura que não abre, ponderam ainda se rebentam e avançam.

      No emaranhado de ruas da zona baixa da cidade, que se estende sobre o rio, são cada vez mais as lojas que oferecem a quem passa alimentos manchados pela lama. A dádiva não impede que alguns, sobretudo os velhos, avancem sobre os contentores, para vasculhar o lixo à procura de alimento. Na cidade da abundância e do jackpot, a fartura não chega a todos e a pobreza desvenda-se quando a intempérie agrava o quadro de miséria.

      A IMAGEM APOCALÍPTICA DAS ÁRVORES TOMBADAS PELO VENTO

      Junto ao Mercado de São Lourenço, transpõe-se a venda da banca para rua, e as mulheres vendem o peixe a preço irrisório em travessas metálicas alinhadas no chão. No café em frente, uma extensa fila aguarda por refeição quente numa altura em que escasseiam os restaurantes. Na chegada à Barra, a imagem apocalíptica da imensa sequência de árvores tombadas pelo vento, de carros levantados, ao longo da Avenida Almirante Sérgio. Junto ao portão encravado de uma loja, os gritos daqueles que tentam libertar quem, desde de manhã, ali se encontra encarcerado. Não se poupam a esforços os bombeiros, que tentam levantar a estrutura metálica. Avançam os homens sobre o porto, pedem auxílio a quem se socorre de uma empilhadora para devolver ao cais os grandes contentores de carga, que a força das águas arrastou até à avenida. Avança a empilhadora sobre a loja e ergue o portão encravado até libertar o jovem casal que emerge da escuridão.

      AQUIETAR OS ESPÍRITOS EM DIA DE TEMPESTADE

      Pelas 19 horas, já a noite desceu sobre a cidade, centenas de pessoas alinham-se ao longo da Almirante Sérgio, a aguardar por um táxi ou autocarro. Uma multidão de vultos na escuridão da imensa avenida que hoje não será iluminada. Caminham desorientados, as crianças carregadas nos braços, quem procura água numa cidade onde o abastecimento está há horas cortado. Numa rua mergulhada na escuridão, o olhar é atraído por um ponto de luz. Sobre uma toalha estendida no chão, um altar improvisado, onde ardem velas e incenso, rodeados por saquinhos de arroz, rebentos de soja, frutos secos e rebuçados. No mês em que a cultura chinesa assegura que os fantasmas vagueiam entre os vivos, importa aquietar os espíritos. Nem a adversidade trava a fé dos homens.

      A DESAFIAR O CAOS, A MELODIA DE UMA GUITARRA    

      Multiplicam-se os sinais de esperança na noite escura. Na Rua da Felicidade, enquanto se retira entulho das casas e a água é despejada sobre a rua, soa a melodia dormente de uma guitarra. Sentado à porta de um café, junto a um contentor tombado, um homem dedilha as cordas alheado do caos e bulício que o envolve. “Hoje, não”, responde, perante a tentativa de diálogo, resguardado num silêncio fundo que não carece de palavra.

      O dia infinitamente longo culmina no Centro de Abrigo de Tempestades Tropicais da Ilha Verde, na Rua do Asilo. Numa altura em que ainda não é conhecido o número de desalojados, nesta que é a primeira noite após a calamidade, são 13 os cidadãos que dormem nos dois salões do abrigo, três mulheres num, 10 homens no outro. Conta quem ali trabalha que começaram a chegar depois das 9 horas da manhã, quando o sinal 8 já havia sido içado. São de Macau, mas também de Hong Kong e Zhuhai. Na grande sala de luz branca, a única de portas abertas, dezenas de colchões alinhados no chão, sobre os quais descansam os homens, rostos afundados na almofada. Para além do duche, nada mais há do que pacotes de ‘noodles’ e biscoitos para afagar a alma. Na cidade da abundância e do jackpot, mantém-se curto o apoio estendido aos desamparados.

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau

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