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      Início Opinião O dia em que a história não mudou

      O dia em que a história não mudou

      Mesmo numa história longa como a de Macau, multissecular, não se contam muitos dias sobre os quais se possa dizer que tudo poderia ter mudado nessas 24 horas. Hoje, passam 400 anos desde um desses dias.

      Em 24 de Junho de 1622, o curso da história de Macau esteve próximo de ter sido definitivamente alterado. Não foi nesse dia que o território sofreu o único ataque militar (outros houve em 1601, 1603 e 1607, sempre levados a cabo pelos holandeses), mas em nenhum outro momento estiveram os dos Países Baixos tão perto de conquistar o importantíssimo entreposto comercial, situado na exacta encruzilhada e no momento em que se definiam destinos de nações e os equilíbrios das potências globais.

      Naquele tempo, o mundo habituara-se a que o domínio de portugueses e espanhóis, então unidos sob a mesma coroa filipina, corresse praticamente imperturbável; não mais. Ninguém melhor dos que os neerlandeses o sabia, porque era a Holanda que estava no caminho da ascensão, feita, precisamente, à custa do declínio do poderio ibérico.

      Muitas razões explicam tal desenlace e não lhe é alheia a demonstrada incapacidade espanhola para controlar as avultadas despesas militares (menos na defesa de possessões portuguesas…), fazendo com que, só na segunda metade do século XVII, o país entrasse por quatro vezes em incumprimento no pagamento de dívidas, como nota o historiador britânico Peter Frankopan, em “The Silk Roads” (2015).

      Para resolver os problemas fiscais que se amontoavam, recorria-se, invariavelmente, à mesma solução – o aumento da carga fiscal. Esse crescente peso era sentido particularmente nos domínios filipinos dos Países Baixos, onde se concentravam emergentes empórios comerciais e a prosperidade favorecera um ambiente marcado por uma vibrante vida social e diversidade religiosa. Triunfava o liberalismo.

      Tudo isso, todavia, seria transformado num alvo da obstinada perseguição espanhola, fomentando a revolta que conduziu à declaração de independência e formação, em 1581, da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, também conhecida como República Holandesa.

      A partir daí, responsáveis pelo próprio destino, os holandeses lançaram-se ao mundo com a missão de garantir que o sucesso das suas empresas comerciais, nas Américas, África e Ásia, era também a consolidação da sua independência.

      É verdade que seguiram no encalço de exploradores portugueses e espanhóis, mas os holandeses foram pioneiros, por exemplo, na forma como transformaram a sua expansão numa operação comercial equivalente às grandes multinacionais do nosso tempo, metodicamente planeada e altamente eficaz e sustentável. Com a Vereenigde Oost-Indische Compagnie – a Companhia das Índias Orientais –, a estratégia não passava por competir com outros mercadores, como acontecia em Goa, onde os portugueses conviviam com comerciantes de várias nacionalidades; de acordo com o plano dos holandeses, não havia lugar para mais ninguém além deles mesmos. Nas Molucas, em Malaca, no Ceilão ou em Cochim. Progressivamente, os holandeses foram assentando arraiais, expulsando os anteriores inquilinos. Os “diabos vermelhos” só viram frustradas as suas intenções conquistadoras em Goa e em Macau.

      Nos sucessivos relatos sobre o acontecimento, a forma como o estabelecimento na costa chinesa resistiu à investida holandesa foi sendo caracterizada como algo de natureza quase milagrosa. De facto, a defesa de Macau era escassa –

      destacavam-se a fortaleza de São Paulo do Monte, o baluarte de São Francisco e baterias na Barra e na Praia do Bom Parto, e calculavam-se apenas 150 homens na cidade capazes de pegar em armas.
      O dia para atacar parecia ter sido escolhido judiciosamente, em época de feira, quando a maioria dos homens estava fora. No entanto, celebrava-se São João Baptista, e os protestantes talvez ignorassem, ou simplesmente não acreditassem, que todos os santos ajudam.

      No dia 22 de Junho de 1622, chegaram às proximidades marítimas de Macau 13 embarcações holandesas. Depois de algumas tarefas de reconhecimento do terreno, no dia 24, “quase duas horas depois de sair o sol”, como se conta num documento incluído no “Livro de Copias de alvarás, cartas e mais papeis pertencentes ao governo económico de Macau” (1769), tida como a primeira narrativa oficial portuguesa do ataque holandês, desembarcaram na Praia de Cacilhas “mais de oitocentos homens de mosquete, com tanto esforço, e tão furiosas surriadas”.

      A recebê-los, assustados, “sessenta portugueses, e noventa Filhos, e homens da terra, que estavam detrás de um vale de areia, pelo mesmo foi desembarcar o inimigo, e ganhar o vale”. Soava o alarme. “Picou-se n’este tempo o sino da Cidade, e a gente que por vários lugares estavam repartidas veio concorrendo, posto que sem ordem, nem bandeiras, nem uma Companhia, que tudo faltou à nossa parte, senão a muita providência de Deus, que por esta via de andarem os nossos espalhados, nos quis dar a vitória mais barata, e vinha o inimigo já com o rosto dos bambuais e Cidade, quase emparelhando com a Ermida de Nossa Senhora da Guia, quando do Monte de São Paulo, que lhe fica sobranceiro, a todo aquele Campo, se disparou uma peça grossa, e após ela outras menores, que os fizeram parar”.

      Não avançaram mais do que o local onde hoje se ergue o Monumento da Vitória, no jardim com o mesmo nome. Estacaram quando um jesuíta italiano, o padre Jerónimo Rho, acertou com um tiro no paiol do inimigo, provocando uma enorme explosão. Perante o revés, os invasores hesitaram e os de Macau aproveitaram para carregar. “Não podendo os holandeses sustentar o ímpeto dos nossos, nem ter mão nos seus de mistura, se voltaram ao mar, lançando-se muitos a nado para chegarem às lanchas com tanta perturbação e medo da nossa mosqueteria que os que ainda levavam armas as largavam na água, aonde também com a pressa e cansaço ficaram afogados mais de noventa”.

      Ao todo, os holandeses terão perdido mais de 300 homens, entre os quais “os melhores que tinham na Índia, gente muito escolhida, e exercitada em Flandres, que por despachos de serviços se segue que vinham a esta conquista, como a coisa de muito proveito, pouco risco, e nenhum sangue”. Uns 130 foram degolados “em honra de São João Baptista”. Do lado de Macau, contavam-se quatro portugueses mortos, dois espanhóis e alguns escravos. Feridos eram uns vinte, “muito pouco número a respeito de durar a briga mais de duas horas”.

      Na historiografia de Macau, tornou-se comum designar este como “o dia mais glorioso da história de Macau”, como afirmava Monsenhor Manuel Teixeira. Nos séculos seguintes, a data foi sendo comemorada “anualmente, com feriado municipal [o dia da Cidade de Macau, até 1999], missa pontifical e procissão com assistência oficial: Governador e Leal Senado e Autoridades Religiosas e Civis”. Até à transição.

      Até a história de Macau ter mudado como não mudou num certo dia, há quatro séculos.

       

      (A série “Macau em estado de sítio” é retomada na próxima crónica.)

       

      Hugo Pinto

      Jornalista