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      Era uma vez no Extremo Oriente

      Crescer na União Soviética durante os tempos de Brejnev não foi tão duro como tinha sido nos tempos de Estaline, mas as pessoas continuavam a viver com medo mesmo décadas depois da morte do “grande líder”. Entre os tabus então existentes contavam-se as diferentes identidades étnicas e culturais do povo soviético e as purgas de 1937 que lhes estiveram parcialmente associadas.

       

      Enquanto criança, sempre me intrigou a razão por que há tão poucos homens na nossa família, especialmente da geração que teria 20 ou 30 anos de idade pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Descobri mais tarde que as famílias dos meus pais vieram como colonos para o Leste do império russo em 1907, e que estavam entre um grande número de pessoas da Ucrânia, Bielorrússia e províncias centrais do império (na maioria da Ucrânia) que, à semelhança do que se havia passado com os colonos no Faroeste dos Estados Unidos, viajaram para partes distantes do império em busca de uma vida melhor.

       

      Antes do final do século XIX, a Sibéria e o Extremo Oriente eram um grande vazio escassamente habitado e gerido directamente por São Petersburgo. Durante séculos foi um lugar de comércio de peles e exílio, e a sua importância estava a declinar quando, em 1882, começou a ser organizada uma migração em massa a partir das regiões europeias do império russo. Para isso, aos colonos foram oferecidas terras e assegurado transporte gratuito. Logo em 1883 foi inaugurada uma ligação marítima a Vladivostoque: levando a bordo na maioria camponeses, os navios partiam de Odessa e ao longo de mês e meio efectuavam a viagem através do Estreito do Bósforo, Canal do Suez, Índia, China, Coreia e Japão.

       

      O que motivava a migração em massa neste império vasto e problemático eram as promessas de liberdade e de terra a custo zero. E o movimento mais se intensificou a partir de 1903, quando foi concluída a construção do Transiberiano, 9 mil quilómetros de linha férrea que permitiam fazer chegar ao Extremo Oriente maior número de colonos em menos tempo. A maioria das pessoas que lá chegavam era proveniente da Ucrânia. Os meus bisavós estabeleceram-se na região de Amur em 1909, vindos de Kiev, da Bielorrússia e da zona de Stavropol.

       

      Os meus familiares do lado materno instalaram-se nos distritos hoje designados Zheltoyarovo e Gaschenka Svobodny, na região de Amur. Os camponeses que se adaptaram bem à nova realidade e trabalharam arduamente, depressa passaram a desfrutar de um nível de vida mais elevado do existente na Rússia europeia. Em apenas uma década, as famílias Bessmertnyi, Shevchenko e Sukhonosik conseguiram prosperar graças à agricultura e à produção de mel. O meu bisavô, Vikula Maximovich Shevchenko, abriu uma oficina de ferragens centrada na reparação de maquinaria e equipamento agrícola, e chegou mesmo a deslocar-se à Feira de Moscovo pouco tempo antes da Primeira Guerra Mundial, o que era um importante sinal de sucesso para a época.

       

      De acordo com estatísticas oficiais, cerca de 300 mil russos de outras regiões do império mudaram-se para a Sibéria e no Extremo Oriente entre 1883 a 1916. Os ucranianos, na sua maioria, optaram pela região de Primorie e por terras banhadas pelos rios Amur e Zea. Eram zonas que lhes recordavam as regiões de Chernigov e Poltava, na Ucrânia. Mentalmente, encaravam o triângulo entre Blagovestchensk, onde nasci, Vladivostoque, onde vivi antes de me mudar para Macau, e Nikolayevsk, em Amur, como uma “Ucrânia Verde”.

       

      Após o estabelecimento da República Bolchevique do Extremo Oriente, a 6 de Abril de 1920, houve mesmo um esforço popular para estabelecer oficialmente uma entidade chamada Ucrânia Verde, mas em 1924 este movimento foi fortemente reprimido pelo governo central. Moscovo começava então já a prestar uma grande atenção ao combate a todos os movimentos separatistas e a promover uma intensa russificação da região, proibindo a língua ucraniana e fechando as escolas que a ensinavam.

       

      A Sibéria e o Extremo Oriente conseguiram evitar o “terror vermelho”, responsável por prisões e execuções em massa de inimigos de classe nas regiões ocidentais do império nos anos que se seguiram à Revolução de 1917, mas não conseguiram escapar à política de colectivização iniciada em 1930.

       

      À primeira vaga de expropriações forçadas de terras e empresas ainda resistiram as aldeias. Mas alguns meses mais tarde emissários do governo, agora já com o apoio do exército vermelho, impuseram o confisco, recorrendo à violência sempre que necessário. Tudo o que fora acumulado pelas pessoas graças a décadas de muito trabalho foi levado para herdades colectivas, deixando a minha família e muitas outras apenas com o suficiente para acorrer a necessidades básicas. Como a minha avó Maria Ivanovna Shevchenko me contou, custava muito ver como tudo o que fora confiscado foi depois tratado por funcionários do estado ignorantes e pelos aldeões que com eles colaboravam.

       

      Os resultados foram devastadores. As pessoas não se sentiam motivadas para trabalhar de graça em função de promessas distantes de uma vida colectiva feliz sob o comunismo. Para sobreviver, o Estado bolchevique introduziu um sistema próximo do regime de servidão que a Rússia czarista mantinha antes das reformas de 1868, sob a forma de um número mínimo de dias de trabalho forçado que cada membro dos ‘kolkhozes’ tinha de completar por ano, sob pena de prisão.

       

      Ao mesmo tempo, todos os que pertenciam à categoria da ‘classe exploradora’ foram reunidos em campos de concentração e de trabalho construídos à pressa. Os meus bisavós, então já menos jovens, foram enviados para o BAMlag, um campo onde foram reunidas pessoas de toda a Rússia para trabalharem na construção de uma via férrea que ligaria o lago Baykal ao rio Amur. Foi um projecto totalmente falhado, mesmo quando Brezhnev o tentou terminar já na década de 1970, pois os solos congelados durante o Inverno transformavam-se em pântanos no Verão, inviabilizando a construção de estradas ou vias férreas. As condições de trabalho eram horríveis e as pessoas morriam sem qualquer assistência junto dos trilhos que tinham acabado de construir. No campo, um tribunal conduzia julgamentos e execuções. O número de pessoas que passou por aquele inferno entre 1932 e 1938, segundo informações acessíveis ao público, terá sido entre 600 mil e mais de um milhão. O meu bisavô Ivan Filipovich Suhonosik, oficialmente classificado como um ‘kulak’ (proprietário de terras), a sua mulher e outros familiares não sobreviveram a todas as privações. Ainda hoje os seus corpos estarão enterrados numa vala comum por descobrir.

       

      O meu avô Yakov Vikulovitch Shevchenko, então ainda um jovem, foi forçado a trabalhar como ferreiro na oficina de ferragens que antes pertencera ao seu pai, e que fazia agora parte da herdade colectiva. Uns tempos depois foi eleito administrador, uma vez que já não havia muitos trabalhadores que soubessem ler e que possuíssem sequer conhecimentos básicos de organização empresarial. No entanto, em 1937, com base numa denúncia supostamente unânime, foi preso e escoltado até à sede regional da NKVD (a polícia política antecessora do KGB) para ser interrogado. Yakov estava de tal modo seguro da sua inocência que não tentou fugir, mesmo depois de aconselhado a fazê-lo por muitos dos seus amigos. As últimas palavras que a minha avó lhe ouviu foram: “Maria, por favor, toma conta das crianças”.

       

      Ele e mais de metade dos homens da aldeia, com idade acima dos 16 anos, desapareceram sem deixar rasto. Apenas no início dos anos 70 ficámos a saber, por pessoas que estiveram com ele nessa altura, que não chegou sequer a ser julgado. Foi brutalmente espancado durante os interrogatórios e morreu por se recusar a confessar.

       

      A minha avó Maria, então com 31 anos e sem grande esperança de sobrevivência, foi deixada viúva com quatro filhos biológicos e dois adoptados. A mais velha tinha 14 anos, a mais nova apenas 2. O que a ajudou a sobreviver, e ao mesmo tempo a completar o número de dias de trabalho forçado no kolkhoz, foi uma máquina de costura Singer em que ninguém reparou durante a colectivização, e a circunstância de saber utilizá-la. Começou a trabalhar à noite e a trocar com os seus clientes peças de vestuário por dias de trabalho forçado, que aqueles assinavam em seu nome. As crianças também tinham de trabalhar fora dos horários escolares. Como conseguiram sobreviver após a prisão de Yakov Vikulovich, e em especial durante os anos da Segunda Guerra Mundial, quando quase todos os produtos da terra eram enviados para a frente de batalha, é um autêntico milagre.

       

      A vida da família do meu pai não foi melhor. O meu avô (Aleksey Fomich Bessmertny) e o meu bisavô (Foma Vasilievich Bessmertnyi) foram presos e nunca mais regressaram em circunstâncias semelhantes. De acordo com um decreto oficial de reabilitação que nos foi enviado 40 anos depois da sua prisão, foram ambos executados em 1938 por motivos tão absurdos como seria uma “conspiração para derrubar o querido líder do Estado Soviético, escavando para isso um túnel da Sibéria até Moscovo”. A esposa de Aleksey, a minha avó Elena Bessmertnaia (Kushnarenko de nome de solteira) foi deixada viúva com 10 filhos a seu cargo.

       

      Mesmo tendo apenas em conta estatísticas oficiais, as vítimas de repressão entre 1920 a 1950 na região de Amur terão ultrapassado as 100 mil pessoas – número superior aos 40 mil mortos em defesa da pátria na mesma região, durante a Segunda Guerra Mundial, ou às 56 mil vítimas do terceiro mais mortífero campo de concentração do Terceiro Reich, Buchenwald.

       

      Durante décadas, até cartas de reabilitação com pedidos de desculpa e promessas de indemnização começarem a chegar às famílias das vítimas no início dos anos 70, tanto os meus pais como os meus tios e tias estiveram oficialmente classificados como “filhos de inimigos do Estado”, carregando consigo as cicatrizes da repressão estalinista até atingirem a meia idade.

       

      A Perestroika trouxe algumas mudanças e permitiu o acesso aos arquivos do Estado, mas nos anos 2000 essa janela sobre o passado foi novamente fechada. A justificação apresentada foi que só assim seria possível evitar conflitos sociais. Mas na Rússia, tal como na Alemanha do pós-guerra, julgo que não haverá futuro sem serem julgados os crimes do passado, especialmente os cometidos pelo Estado em larga escala.

       

      Asolo, Itália

      2022

      Konstantin Bessmertny

      Artista plástico