Os jovens escritores Wang Weilian e Zhu Shanbo consideram que a Grande Baía apresenta uma grande diversidade em termos do seu património cultural e linguístico, o que permite aos autores dessa área receber mais ideias novas, inclusivas e diversificadas na sua criação literária. Os dois autores convidados da presente edição do Festival Literário de Macau afirmaram que a Grande Baía é uma janela para a China ver o mundo, e vice-versa. Já o escritor Carlos Morais José destaca a importância da tradução das obras produzidas na Grande Baía, incluindo Macau, entre português, inglês e chinês.
A diversidade, tolerância e igualdade são palavras-chave para a literatura na Grande Baía, área que pode ser considerada a mais complicada e diversificada da China. Na óptica de Wang Weilian e Zhu Shanbo, jovens escritores premiados no interior da China que actualmente vivem em Cantão, a Grande Baía, devido à sua grande riqueza cultural, pode oferecer novas inspirações aos escritores radicados na zona, mas também os deixa descobrir e ouvir mais “vozes negligenciadas”.
“A Grande Baía serve como um espelho, uma referência para os escritores poderem ver e apanhar coisas que ignoram no dia a dia”, afirmou Wang Weilian, um dos mais importantes representantes dos jovens escritores chineses, na sessão intitulada “Grande Baía: A Busca por uma Maior Diversidade Literária” do 12.º Festival Literário de Macau, que decorreu na passada sexta-feira, na Livraria Portuguesa.
De acordo com o autor, a escrita num ambiente singular implica a ignorância de outras vozes, mas escrever na Grande Baía significa a abertura de escuta dessas diferentes vozes, como a literatura tem visado a concretizar da sua natureza – “A grandeza da literatura é o respeito a tudo. Sem discriminação e mostra a igualdade perante todas as coisas. A literatura rejeita a simplificação e centralização, mas exige pensamento profundo”, frisou.
A diversidade da Grande Baía encarna-se na sua coexistência de “muitos estilos de vida diferentes, culturas diferentes, línguas diferentes”, e Wang Weilian deu o exemplo do referido painel do Festival Literário, onde se falaram quatro línguas, português, inglês, cantonês e mandarim, o que mostra também a “inclusividade” de vozes diferentes.
Wang Weilian é autor de mais de dez obras publicadas na última década, incluindo os romances “O Futuro Por Capturar”, “Invadindo o teu Quarto” e “O Som da Formação do Sal”, sendo que alguns trabalhos já foram traduzidos para inglês, japonês e húngaro, bem como uma colecção de ficção científica intitulada “Planetas e Memórias”, em Itália. Wang é também professor da literatura chinesa na Universidade Sun Yat-sen, em Cantão.
Salientando que para muitos autores a Grande Baía “ainda é um conceito bastante novo” e não escrevem de forma específica e com muita consideração sobre a área, Wang Weilian admite, entretanto, que a vida nessa zona já se tornou uma fonte de inspirações para a sua escrita.
No romance “O Seu Olhar”, que foi publicado no ano passado, Wang Weilian narra a história de um designer de óculos que trabalha numa rua de fábrica de óculos, em Shenzhen, onde produz 70% dos óculos do mundo. “A Grande Baía também é um par de óculos para o estrangeiro ver a China e também para a China ver o mundo”, sublinhou o escritor, considerando que o intercâmbio de diferentes culturas permite a descoberta e a criação de novas coisas, sendo que todos os escritores consideram uma parte dessa onda do encontro cultural.
LIVRES E ABERTAS
Na mesma ocasião, outro escritor chinês, Zhu Shanbo, afirmou que também partilha a mesma visão. O autor proveniente de Guangxi está a viver em Cantão, onde sente particularmente a diversidade da Grande Baía devido às suas “ideias novas, livres e abertas”.
“Cantão está no centro da Grande Baía, é caracterizada pela sua abertura e diversidade de ideias, conhecimentos e culturas. Fornece muitos materiais para a minha escrita, sou muito influenciado e tenho paixão pela cultura cantonesa”, disse Zhu Shanbo, descrevendo que a mudança de viver em Cantão, para si, não é uma deslocação, mas um “regresso” a essa cultura.
Zhu Shanbo, romancista e poeta vencedor de vários prémios de literatura chinesa, também autor de romances “Biografia de um Cobarde” e “Autobiografia do Espírito de Ma Qiangzhuang”, assume que a origem dos escritores “tem uma relação estreita” com as suas obras, e que no seu romance “Período de Alerta de Tempestade” o tufão é “um símbolo que está na memória colectiva da vida no sul”. Neste caso, o autor pretende ainda discutir a rapidez e mudanças, como durante a passagem do tufão, na sociedade e no progresso económico da Grande Baía, tanto como a forma como as pessoas comuns lidam com essa situação em termos mentais e culturais.
TRADUÇÃO COMO PORTA
Neste painel moderado pela académica Agnes Lam, o escritor e jornalista Carlos Morais José, ao reconhecer que a Grande Baía tem a diversidade cultural das culturas cantonesa, macaense e portuguesa, realçou que é importante criar uma rede de tradução para que as obras publicadas nas cidades e regiões da Grande Baía possam ser traduzidas para mais línguas, atingindo um maior grupo de leitores e, assim, um mercado enorme na China e nos países lusófonos.
“A província de Guangdong é um local que tem sempre mais ligações com os estrangeiros. Os projectos da Grande Baía podem ajudar a apresentar a literatura chinesa para o exterior, sendo uma porta para a China, não apenas para entrar, mas também para sair”, asseverou.
Na opinião de Carlos Morais José, esta é a direcção para a qual as autoridades devem trabalhar, ou seja, o desenvolvimento cultural e literário, em vez de se focar apenas no económico. “O mais importante é o facto de que a Grande Baía nos dar a oportunidade de comunicar”, referiu o poeta português, apontando que “a identidade da Grande Baía seria, não uma identidade, mas uma identidade diversificada, e mesmo uma identidade mista”.













