Oseo Acconci, arquitecto italiano que viveu em Macau durante meio século e deixou inúmeras criações artísticas ao urbanismo e à arquitectura da cidade, foi recordado num livro recentemente lançado pelo Instituto Internacional de Macau. Na publicação, a autora, Jane Lei, assinala os contributos para Macau por parte do influente arquitecto, mas paradoxalmente mais esquecidos, procurando também evocar a atenção do público sobre os valores artísticos e arquitectónicos no nosso espaço urbano.
Lançado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e da autoria de Jane Lei, o livro “Endless Summer – A Forgotten History of Macau Modern Art: Oseo Acconci and his works” foi apresentado ao público no passado sábado, com uma retrospectiva dos traços artísticos de Oseo Acconci em Macau, enquanto uma das figuras representantes do urbanismo e da arquitectura moderna do território na época pós-guerra.
O livro destina-se a redescobrir a ligação profunda que Oseo Acconci estabeleceu com a cidade, oferecendo uma história recapitulada mais completa deste artista pouco lembrado, através de uma análise das suas esculturas, arquitectura e murais deixados em Macau.
O painel de mosaicos do antigo Hotel Estoril, a Igreja de Nossa Senhora das Dores em Ká Hó, a extinta fonte do Largo do Senado e outras igrejas espalhadas na cidade, foram todas obras de Oseo Acconci incorporadas com símbolos culturais e artísticos de Macau. A controvérsia entre os contributos e a importância prestada a Oseo Acconci foi o factor que levou a académica Jane Lei a se dedicar ao estudo deste arquitecto italiano.
A autora confessou ter encontrado muitas dificuldades na pesquisa de informação sobre Acconci em Macau, o que lhe despertou, entretanto, a curiosidade e paixão para traçar as suas obras.
Jane Lei entende que é necessário permitir ao público conhecer ainda mais a importância e a contribuição de Acconci, esperando que o livro forneça uma visão geral da estética arquitectónica do artista e “sirva para incentivar mais estudos semelhantes no futuro”, realçou a autora no lançamento do livro, que teve lugar na simbólica Vila de Nossa Senhora de Ká-Hó.
UM ARTESÃO VISIONÁRIO
Oseo Acconci nasceu numa aldeia medieval no Vale do Arno, Itália, uma terra conhecida por mármore. Estudou na Accademia di Belle Arti Carrara, onde também leccionou.
Pelo seu profissionalismo na arquitectura, foi depois convidado para trabalhar em Xangai e Hong Kong, onde participou na decoração do edifício do Hong Kong and Shanghai Banking Corporation, no interior da Casa Sassoon, ou seja, o actual famoso Hotel Peace, em Xangai, uma construção icónica de ‘Art déco’.
O artista deslocou-se mais tarde a Hong Kong onde conheceu muitos portugueses e, até ao início da guerra, em 1941, a família mudou-se para Macau, onde o então governador, Gabriel Teixeira, convidou Oseo Acconci para trabalhar em projectos de engenharia municipal.
Com papel activo no desenvolvimento urbano de Macau entre as décadas de 1950 e 1980, Oseo Acconci mostrava um grande apreço cultural a Macau. “Não chegou a Macau para fazer negócio, mas pretendia criar ligação espiritual e cultural com esta pequena cidade”, analisou Jane Lei, sublinhando que o arquitecto “deu o seu melhor” à construção da imagem cultural de Macau apesar da falta de condições e recursos naquela época.
Ao detalhar as histórias das criações artísticas de Acconci, incluindo várias construções religiosas na Rua Francisco Xavier Pereira e a Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Toi San, Jane Lei destacou as características estéticas e arquitectónicas de Oseo Acconci, nomeadamente o uso de janelas, muitas vezes redondas, nas igrejas para aumentar a projecção de luz solar, bem como a utilização de blocos de cimento furados nas paredes exteriores sendo um sistema de ventilação natural.
O modernismo, o simplismo e o pragmatismo dominavam sempre o estilo e a concepção de construção de Oseo Acconci, que ambicionava incorporar o apelo estético, o controlo de custos e o atendimento de necessidades reais de utilizadores.
VALORES CULTURAIS EM PERDA
Na sua apresentação, Jane Lei recordou ainda a história da Villa Oseo, uma construção de Oseo Acconci em Coloane que, segundo contou Giulio Acconci, filho de Oseo Acconci, servia como casa de férias para a família.
A casa construída principalmente de pedra já não pertence à família Acconci e está “totalmente diferente” com a falta de conservação cultural. “Agora deve ser o alojamento dos empregados de uma família rica que mora ao lado, e eles não sabem os valores desta casa, nem a história”, lamentou.
Acrescentou que vários edifícios concebidos ou construídos por Acconci foram igualmente demolidos, incluindo a antiga residência para funcionários públicos dos CTT, situada perto da Sé.
Jane Lei, nesse sentido, sublinhou que o público deve conhecer, e também reconhecer, a importância cultural e arquitectónica das construções históricas, especialmente quando surgem controvérsias como renovação e demolição das obras. “Poucos debates concentraram-se na arte em si ou na estética arquitectónica. Apenas ponderam valores económicos ou outros para decidir se deveríamos demolir ou preservar, sem nunca considerar isso de uma perspectiva artística, nem percebem que já perdemos muito do nosso património cultural”, lamentou.












