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      InícioParágrafoParágrafo #82Na biblioteca do ditador

      Na biblioteca do ditador

       

                   Estaline leu e escreveu muito – mas leu o quê? E o que é que isso diz sobre um dos grandes tiranos do século passado? O historiador Geoffrey Roberts tenta responder a estas e outras perguntas em A Biblioteca de Estaline.

       

      Estaline trabalhou muitos anos para chegar a editor-chefe da União Soviética. A frase que aleija um bocadinho a quem vive do jornalismo é nossa, mas a expressão “editor-chefe da URSS” é do historiador Geoffrey Roberts, autor de A Biblioteca de Estaline, livro improvável e fascinante sobre os calhamaços que rodearam este líder russo, a sua relação com a palavra escrita e com a leitura. Roberts colecciona aliás um grande número de felizes expressões para definir Estaline, como “o erudito do Kremlin” – e é assim, largando desse porto pouco habitual quando se fala de Estaline, que o autor, munido de variadas fontes mormente secundárias, navega pela história da URSS e de um dos seus mais carismáticos e irascíveis líderes.

      Um livro desta natureza corre desde logo o perigo de humanizar um ditador conhecido pela longa lista de atrocidades cometidas contra o seu próprio povo. A Biblioteca de Estaline fá-lo – e fá-lo porque de facto, como escreve Roberts, «não era nenhum psicopata, mas sim um intelectual dotado de inteligência emocional e de sensibilidade. Com efeito, foi o poder da sua ligação emocional a crenças firmemente consolidadas que lhe permitiu sustentar décadas de um regime bruta» (pp. 11). Que Estaline seja humano não significa nada além disto: o mal, para quem não tenha reparado, é uma das principais características da humanidade, basta olhar em volta.

      Mas Estaline. Estima-se que Estaline tenha acumulado qualquer coisa como 25 mil volumes na sua dacha para construir a Biblioteka IV Stalina, mas desses restam apenas umas quatro centenas fartamente anotados pelo ilustre leitor – as passagens dedicadas ao destino da biblioteca do tirano são das melhores do livro. Roberts nota que Estaline «valorizava as ideias na mesma medida que valorizava o poder, (…) lendo sempre em prol da revolução até aos seus últimos dias» (pp.17). Na juventude, o futuro terror dos inimigos da revolução bolchevique leu Marx e Engels, Lenine, claro, mas também os clássicos russos, de Tolstói a Gógol; outros vultos europeus como Cervantes, Schiller ou Balzac, e ainda tomos e tomos de história, o seu tema de eleição. Após a morte de Lenine, em 1924, sempre dotado de um pragmatismo à prova de páginas fúteis, Estaline dedicou-se a ler os escritos dos seus «rivais na luta para suceder ao fundador do Estado soviético: pessoas como Leon Trótski; Grigory Zinoviev, Lev Kamenev e Nikolai Bukharin» (pp.21). Finalmente, nos anos 1930 Estaline centrou as suas leituras nas obras de autores soviéticos, escritores que viviam e trabalhavam e escreviam dentro e por dentro do regime, gente como Isaac Babel ou Máximo Górki. Mas tão ou mais importante do que atentar à sempre curiosa lista de autores (também restringida ao que era escrito em russo ou traduzido para o idioma dos falecidos czares), é perceber que «para os bolcheviques as palavras eram expressões de ideias que, aliadas à acção radical, poderiam tornar-se uma força material capaz de transformar não só as sociedades, mas também a própria natureza humana» (pp.24), como expõe Roberts. A leitura e a escrita enquanto forma de «auto-emancipação colectiva e individual face tanto à elogia burguesa quanto ao atraso cultural” era uma ideia bonita, porém bem sabemos que não foi bem assim na prática, com um role de intelectuais, perseguidos e presos. O famoso Glavlit, departamento de censura da máquina soviética, tinha milhares de funcionários distribuídos por todo o país e, defende Roberts, esse controlo apertado era a argamassa do regime. Por isso, «não é coincidência que o sistema soviético se tenha desmoronado no final da década de 1980, quando Mikhail Gorbachev introduziu a política do glasnost e libertou o discurso político soviético da censura» (pp. 26).

      Na tentativa de nos ajudar a entender Estaline e a encontrar «a chave para a personalidade que fez do seu regime algo de tão monstruoso» , o autor pede-nos que olhemos para aquilo que está à vista de todos e que para si é a solução do enigma: «a política e a ideologia de uma implacável luta de classes em defesa da revolução e da procura de uma utopia comunista». E remata: «A paranoia de Estaline, frequentemente referida, era de natureza política, não pessoal».

      A escrita de Estaline e o seu trabalho de editor – em panfletos do partido, mas não só – também têm lugar em A Biblioteca de Estaline. Apesar de sempre ter evitado que o biografassem, é nas páginas que escreveu, editou e acima de tudo naquilo que sobra dos muitos livros que coleccionou e leu que podemos intuir quem foi este intelectual de esquerda musculada. Como Geoffrey Richards elabora muito literariamente: «Ao acompanharmos a forma como Estaline lia livros é-nos possível vislumbrar o mundo através dos seus olhos. Talvez não consigamos espreitar para dentro da sua alma, mas é-nos dada a possibilidade de usar os seus óculos».

       

       

       

      Geoffrey Roberts

      A Biblioteca de Estaline

      Tradução de Frederico Pereira

      Zigurate