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      InícioParágrafoParágrafo #82E de repente rebentou a trovoada

      E de repente rebentou a trovoada

       

       

      1. Aos poucos, habituamo-nos. Enchem páginas de jornal. Na televisão, são frequentes as notícias em que estão trabalhadores e dirigentes sindicais à porta de uma fábrica. Muda o nome da fábrica, mas quase tudo o resto se mantém: aqueles que trabalharam vinte ou trinta anos na fábrica, os casais que trabalhavam juntos na fábrica e que ficam juntos no desemprego, os malabarismos económicos que tiveram de fazer para viver com cinco ou seis meses de salários em atraso. A seguir, os dirigentes sindicais, com um tom treinado de “declarações à imprensa”, sistematizam alguns dos problemas concretos daquela empresa e daquele sector de actividade. Depois, há imagens em que os trabalhadores fazem vigílias à porta da fábrica. Às vezes, tentam impedir que os credores cheguem para levar as máquinas.

      A repetição exaustiva é, quase sempre, uma das melhores representações do silêncio absoluto. O grande problema que a repetição destas notícias nos traz é a facilidade com que banaliza tragédias reais, gente que tenta sobreviver com salários em atraso, gente que trabalha, dia após dia, e que, no final do mês, não recebe um cêntimo: nem o salário pequeno que têm aqueles que trabalham por turnos, nem metade desse salário: nada.

      Se somos gente, é importante que nunca nos habituemos.

       

      1. Li recentemente Uma História Suja, de Luis Sepúlveda, publicado em 2004. Ao mesmo tempo, trata-se de uma leitura ligeira e pesada. Se, até na ficção, a sua escrita dá a impressão de se tratar de histórias vividas, este livro assume totalmente essa faceta, uma vez que é composto por textos diversos que têm a uni-los o facto de terem nascido nas páginas dos cadernos Moleskine que sempre acompanhavam este escritor chileno, desaparecido em 2020. Por isso se trata de uma leitura ligeira e pesada. Se, por um lado, existe espaço para a descrição de pequenos acontecimentos quotidianos, por outro lado, o livro é atravessado por pistas de reflexão sobre os conflitos do Iraque, do Afeganistão e da conjuntura imperialista – não há outra palavra – que os despoletou.

      Uma das histórias mais curiosas das muitas que preenchem as páginas deste livro é aquela em que Sepúlveda descreve o encontro que teve com Graham Green no início dos anos 80. É-nos contada a forma como Green se sentia algo insatisfeito por ainda não ter sido capaz de escrever um romance do qual apenas tinha a última frase: “E de repente rebentou a trovoada”. Nas palavras de Sepúlveda, o romance que Green queria escrever, deveria contar “uma história da estupidez desenfreada de um grupo de homens durante um tórrido Verão, e a trovoada era chamada a restituir a ordem natural das coisas”.

      Foi Italo Calvino que, em Seis Propostas para o Próximo Milénio, escolheu a leveza como uma das propostas essenciais. Mas, perante tudo o que Sepúlveda descreve, perante este mundo, a leveza, tão necessária, só poderá ser efectiva no dia em que, como no romance que Graham Green não escreveu, de repente rebentar a trovoada.