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      EM FOCO

      A história do Bispo de Nanquim que nunca chegou à China

       

      António Pais Godinho foi um alentejano que teve as malas feitas para a China, mas nunca partiu. Nomeado Bispo de Nanquim por Dom João V, a vida e a época não quiseram que chegasse ao Oriente. Em Portugal, ajudou a disseminar a laranja-da-china. Um novo livro de José António Falcão conta a sua história.

       

      «Por quatro vezes, ele está com as malas no cais à espera de embarcar. Roma dá-lhe ordens para viajar mas ele nunca consegue autorização [da China] para seguir.» É assim, com esta imagem forte de um clérigo que se prepara para dizer adeus à sua terra e rumar a uma das dioceses mais distantes do Extremo Oriente, que José António Falcão, historiador de arte, museólogo e professor universitário começa a contar a história de António Pais Godinho (1668-1752), mais conhecido no Alentejo onde nasceu por Bispo de Nanquim. É este homem – nomeado bispo das terras distantes da China durante a era do Imperador Kangxi, mas impedido de cumprir o desígnio de chegar ao País do Meio – o tema central do livro Parecer e Ser – Excursus Vital de D. António Paes Godinho, Bispo de Nanquim, editado pela Orik – Associação de Defesa do Património de Ourique.

      O Bispo de Nanquim, conta o historiador ao telefone, «faz parte da mitologia regional e local» alentejana. «O que sabia sobre ele é que era alguém que tinha sido bastante influente no tempo de D. João V e que tinha alcançado dois pequenos feitos: numa quinta que se chama Quinta de Olhos Bulidos, e que fica nas imediações de Santiago do Cacém, uma quinta histórica que até está classificada pelo Ministério da Cultura, teria introduzido a laranja-da-china, que depois povoou os pomares e as hortas à volta. Por outro lado, existia também a história de que este homem, já que não tinha conseguido chegar à China por circunstâncias que o transcendiam, porque nunca teve autorização para embarcar, teria mandado vir seminaristas chineses que formou em Santiago do Cacém».

      Da segunda narrativa, admite José António Falcão, não foi possível fazer prova documental. Certo é que a história de jovens seminaristas chineses formados no Alentejo continua a contar-se. Já quanto à disseminação dos famosos citrinos e de outras plantas e árvores então exóticas, é certo que Pais Godinho, prelado influente e erudito com fortes ligações a Macau, terá jogado um papel importante.

      Na sua vida profissional, da qual faz parte um trabalho de monta no festival de artes Terras Sem Sombra, Falcão trabalhou na Academia de Ciências de Lisboa e ali encontrou uma pequena biografia do bispo, que «permitiu esclarecer uma série de dúvidas e questões que estavam em aberto». Esta foi a base do trabalho do investigador para o livro agora publicado, mas não se ficou por aí e avançou para outros arquivos: o arquivo secreto do Vaticano, os arquivos portugueses da Torre do Tombo, arquivos de Évora e toda uma série de documentos que lhe permitiram encontrar inúmeras pistas. «Consegui perceber onde tinha nascido, qual o seu percurso e outros aspectos importantes: numa época que valorizava muito o fausto e a opulência, e em que os bispos tinham um grande destaque, ele era contra-corrente. Fez coisas que para a época eram incompreensíveis mas ao mesmo tempo apreciadas. Furtou-se o mais que pôde a aceitar cargos. Por outro lado, foi uma pessoa que se manteve sempre fiel às suas raízes, algo muito comum nos alentejanos – sempre que conseguia libertar-se de um cargo na corte, ele voltava ao Alentejo».

      António Pais Godinho nasce em Santa Luzia, pequena aldeia que hoje pertence ao concelho de Ourique, no seio de uma família de pequenos agricultores. Teve um tio-avô doutorado em Évora que fora padre e acredita-se que terão sido este e outros clérigos da família a puxá-lo para os estudos. Faz a licenciatura e mestrado em Évora, é ordenado sacerdote e segue depois para Coimbra, onde começa o doutoramento. É aí, na cidade dos estudantes, que deve ter entrado em contacto directo com um grupo de pessoas que definiria a sua visão do mundo. «Ele integrou um movimento espiritual da época, que tinha também as suas conotações políticas e sociais, e que é um movimento que virá até no tempo do Marquês de Pombal, já no reinado de Dom José, a ser declarado herético: o movimento da Jacobeia. A coisa é tão complicada que ele, no final da vida, já retirado e a viver em Viana do Alentejo, acaba por ter problemas com a Inquisição. Isto mostra, no fundo, uma personalidade que quem conhece os alentejanos descreveria como muito presa à terra, muito chã», nota José António Falcão.

      Pais Godinho, que de acordo com o historiador ainda hoje tem «fama de santo» por aquelas bandas, viveu em Alvito, foi pároco e sobreviveu a uma tentativa de homicídio, até que é chamado para Bispo de Nanquim. Aquela diocese chinesa, «talvez a mais importante da China na altura», estava numa região rica e, estando fora de Pequim, era «mais fácil o cristianismo expandir-se ali». Infelizmente, conflitos entre as ordens religiosas lusas e as de outros países europeus não permitiram que a viagem se concretizasse e o bispo que, a convite dos reis, tinha sido um dos prelados a sagrar Mafra, acabou por permanecer em Portugal.

      No livro agora publicado conta-se ao pormenor a história deste homem que, acredita José António Falcão, pode ser apenas uma das muitas ligações daquela época entre o Alentejo e a distante China, onde Macau era porta e porto de entrada. Um tema que o premiado historiador, membro da Academia Nacional de Belas-Artes e da Academia Portuguesa de História, promete continuar a estudar.

       

       

      José António Falcão

      Parecer e Ser – Excursus Vital de D. António Paes Godinho, Bispo de Nanquim

      Orik – Associação de Defesa do Património de Ourique