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      InícioCultura"Merecemos pelo menos uma ópera produzida localmente por ano"

      “Merecemos pelo menos uma ópera produzida localmente por ano”

      O director local Johnny Tam quer trazer mais ópera ao território, dando o pontapé inicial neste amor pelos clássicos com uma das menos famosas peças de Puccini no Centro Cultural de Macau. Com a primeira sessão já amanhã e outra no dia 19 de Abril, a ópera cómica “Gianni Schicchi” será reimaginada numa produção de formato mais íntimo. O espectáculo apresenta o barítono de Hong Kong, Michael Lam, pela primeira vez no papel principal, e resulta de uma colaboração entre artistas de diferentes origens. O PONTO FINAL esteve nos bastidores para conhecer a produção de perto, que inclui a mundialmente famosa ária “O mio babbino caro”, interpretada por uma artista local.

      O nome “Giacomo Puccini” traz imediatamente à mente tragédias de cortar o coração como “Madama Butterfly”, “La Bohème” ou “Tosca”. O compositor italiano, mestre indiscutível do verismo e das emoções em tons maiores e menores, construiu uma carreira assente no sofrimento de heroínas inesquecíveis e em finais que raramente deixam o espectador indiferente. Mas o que poucos sabem é que o mesmo Puccini, capaz de arrancar lágrimas com a pureza de um “O mio babbino caro” (que, ironicamente, faz parte precisamente desta obra), deixou também uma única ópera cómica, “Gianni Schicchi”.

      “Puccini transformou uma breve referência literária num retrato vívido de um cidadão comum”. É precisamente essa humanidade, feita de ganância, esperteza e fragilidade, que o director Johnny Tam quer trazer para o centro do palco na sua própria encenação desta ópera que prova que Puccini também sabia fazer rir.

      Composta em 1918 como a terceira e última parte do tríptico “Il trittico”, a obra contrasta deliberadamente com as restantes, “Il tabarro” (a tragédia) e “Suor Angelica” (o drama religioso), oferecendo ao público uma lufada de ar fresco em forma de farsa. A história, baseada num episódio do “Inferno” de Dante, narra com humor e ironia a história da família Donati que, à beira de perder uma herança milionária para um mosteiro, recorre ao astuto e irreverente Gianni Schicchi para fingir ser o falecido patriarca e ditar um novo testamento. O resultado é uma comédia de costumes afiada, onde a ganância, os laços familiares, a esperteza popular e o oportunismo se entrelaçam num ritmo alucinante, pontuado por uma das árias mais famosas de toda a história da ópera.

      A peça chega agora a Macau, através da companhia The Macau Experimental Theatre, apresentada num formato de câmara com piano e legendagem em chinês e inglês, mantendo o original cantado em italiano. O elenco é maioritariamente local, com direcção musical de Elyot Lou e participação de Michael Lam no papel principal. O espectáculo tem a duração de sessenta minutos e sem intervalo. A escolha do Black Box II, um espaço íntimo por excelência, não é inocente. A equipa espera que o público respire a mesma atmosfera dos personagens, que sinta cada nuance da interpretação e que se deixe involucrar pela música como se estivesse dentro da própria sala do drama familiar.

      As apresentações de “Gianni Schicchi” realizam-se nos dias 18 de Abril (amanhã) às 19h45 e 19 de Abril (domingo) às 14h45 no Black Box II do Centro Cultural de Macau. Os bilhetes custam 180 patacas ou 150 patacas em promoção para duas pessoas.

      O PONTO FINAL foi procurar saber mais sobre a produção com o director Johnny Tam, detentor de um Dora Mavor Moore Award do Canadá, e o barítono Michael Lam, vencedor do Grand Prize Virtuoso International Music Competition em Londres.

      Como é que um director de Macau e um barítono de Hong Kong acabam a preparar uma ópera de Puccini?

       

      Johnny Tam (JT): Antes de encenar qualquer ópera, o meu primeiro passo é sempre a investigação. Entro no mundo da obra tanto através do seu contexto histórico como das suas origens literárias. A personagem de Gianni Schicchi apareceu primeiro na “Divina Comédia” de Dante, onde foi condenado por impostura e fraude. Séculos mais tarde, Puccini transformou esta breve referência literária num retrato vívido de um cidadão comum, trazendo uma figura lendária da poesia medieval para a realidade viva da sociedade quotidiana. Quando Puccini compôs “Gianni Schicchi” em 1918, o realismo moderno emergia na literatura e nas artes. Em vez de se focar em figuras heroicas, colocou pessoas comuns no centro do palco operático, revelando a natureza humana através do humor, da precisão e da observação aguçada. Para mim, compreender esta transformação – da alegoria moral medieval para a comédia social moderna – é um ponto de partida essencial para abordar a obra hoje. Ouvir atentamente a partitura é igualmente importante no meu processo de encenação. Cada motivo musical carrega relações, intenções e ritmos entre personagens. A minha encenação cresce a partir desta estrutura musical e tradu-la gradualmente em linguagem teatral.

      Michael Lam (ML): Como cantor de ópera de Hong Kong, é uma grande honra actuar aqui em Macau. Já cantei em três produções anteriores de “Gianni Schicchi”, em diferentes papéis, e essas experiências deram-me um amor mais profundo tanto pela história como pela música. Para esta produção, estou grato por assumir o papel-título pela primeira vez. Através da confiança e colaboração da nossa equipa criativa, uma bela ópera de Puccini encontrou o seu caminho até Macau. Ela reúne artistas de diferentes lugares, todos unidos por uma paixão comum pela música e pelo teatro.

      Johnny, ao trazer esta comédia tão italiana para Macau, que tipo de ajustamentos culturais ou dramáticos fez para que ela chegasse ao público local?

      JT: Nesta produção, fiz vários ajustamentos culturais e dramatúrgicos, particularmente no papel de Lauretta. Na versão original, a sua felicidade depende em grande parte das acções do pai. Nesta interpretação, devolvi agência a Lauretta integrando certas funções dramáticas no seu papel, permitindo-lhe participar mais activamente na construção do seu próprio futuro ao lado de Gianni Schicchi. Esta reinterpretação reflecte uma perspectiva contemporânea e oferece uma nova maneira de ler a personagem para o público actual de Macau.

      Michael, como barítono original de Hong Kong a cantar em italiano, qual é o maior desafio ao interpretar um papel como Gianni Schicchi?

      ML: O maior desafio para mim é que Gianni Schicchi tem de mudar subitamente a sua voz e maneirismos para fingir que é o moribundo “Buoso”, o patriarca. Preciso de equilibrar o drama e o canto cuidadosamente, para poder criar a comédia enquanto mantenho a voz clara, saudável e bem projectada ao mesmo tempo. A língua italiana e o timing cómico são ambos importantes, mas esta rápida troca de personagens é a parte mais exigente – e também a mais divertida.

      A história é sobre um testamento falso e uma família a lutar por dinheiro. Vê alguma ligação específica entre esta farsa florentina do século XIII e a sociedade contemporânea de Macau?

       

      JT: Embora a família Donati pareça esmagadoramente dominada pela ganância, o jovem casal Lauretta e Rinuccio representa a abertura à mudança e a possibilidade de um futuro social diferente. A presença deles mantém a ópera emocionalmente viva e ressoa fortemente com as gerações mais jovens de hoje.

      ML: Embora seja de Hong Kong e ainda esteja a aprender mais sobre Macau, acredito que os temas em “Gianni Schicchi” são verdadeiramente universais. Conflitos familiares, o amor ao dinheiro e as pessoas a lutar para proteger os seus próprios interesses aparecem em muitas séries de televisão de Hong Kong e em histórias de todas as culturas. Embora a ópera se passe na Florença do século XIII, as emoções sentem-se muito próximas da vida moderna. O público de Macau, como as pessoas em todo o lado, reconhecerá facilmente estes sentimentos humanos e apreciará a farsa imediatamente.

      Estão a apresentar no intimista Black Box II. Como é que esta configuração mais reduzida muda a forma como se conectam com o público? Torna a comédia mais vulnerável ou mais poderosa?

      JT: Esta produção adopta uma versão com redução de piano como parte de uma exploração de como a ópera pode existir em Macau num ambiente de actuação mais íntimo. Ao trazer a ópera para uma relação mais próxima com o público, espero devolvê-la a uma escala mais humana – mais imediata, mais flexível e mais ligada à vida quotidiana. A ópera não deve pertencer apenas às grandes casas de ópera; pode também crescer naturalmente em espaços mais pequenos e comunidades locais.

      ML: Adoro esta versão de câmara. Num espaço mais pequeno, o público senta-se muito mais perto de nós. O piano dá-nos um som claro e focado que substitui a orquestra completa e permite mais liberdade para o drama. Como tudo é tão íntimo, a nossa ligação com o público torna-se muito directa. A comédia sente-se simultaneamente mais vulnerável e mais poderosa – cada pequena expressão e momento divertido é partilhado imediatamente com as pessoas que estão a assistir.

      O que aconteceu de mais surpreendente durante os ensaios desta produção em Macau? Algum momento especial?

      ML: O momento mais surpreendente e bonito para mim aconteceu quando falámos sobre os modelos que nos inspiram. Percebemos que as pessoas que admiramos e os sonhos que temos para as nossas actuações são muito semelhantes – mesmo vindo de cidades e contextos diferentes. Isso mostrou-me que, no fundo, não existem barreiras culturais reais na forma como trabalhamos e criamos. Esse sentimento de ligação tornou os nossos ensaios calorosos e verdadeiramente especiais.

       

      O que esperam que o público leve desta experiência – para além da melodia clássica de “O mio babbino caro” presa na cabeça?

      ML: Muitas pessoas já conhecem a bela melodia de “O mio babbino caro”, mas podem não conhecer a história completa e divertida por trás dela. Espero que o público saia a perceber o que acontece na ópera e porque é que a música é tão significativa. Da próxima vez que ouvirem aquela ária, espero que sorriam e se lembrem de toda a história viva – não apenas da canção, mas das personagens espertas, do caos familiar e da alegria da actuação.

      JT: Esta encenação não é apenas uma apresentação de “Gianni Schicchi”, mas também uma exploração de como a ópera pode continuar a viver e transformar-se numa cidade contemporânea como Macau. Acima de tudo, espero que a ópera possa criar raízes e encontrar o seu lugar em Macau. Temos muitos artistas locais talentosos, e merecemos pelo menos uma ópera produzida localmente por ano. Espero que o público daqui abrace esta forma de arte clássica mas moderna, se apaixone pela sua música e descubra o pensamento filosófico escondido por trás das suas gargalhadas.