Lin Tchi Fá: a flor de lótus desabrochou em chinês e inglês

Lin Tchi Fá – Flor de Lótus tem agora duas versões bilíngues, em português-inglês e português-chinês, editadas pela Praiagrande Edições. A obra de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, publicada originalmente em 1925, tem tradução de Lian Zimo e de Ian Watts.
Lin Tchi Fá – Flor de Lótus, obra de Maria Anna de Magalhães Colaço Acciaioli Tamagnini, publicada originalmente em 1925, está agora disponível não só em língua portuguesa como em inglês e chinês. A Praiagrande Edições lançou estas edições bilíngues, com traduções de Lian Zimo e de Ian Watts e prefácio de Sara Augusto. Depois de 1925, o livro esteve na sombra, tendo sido novamente editado em 1991 pelo Instituto Cultural e depois em 2006 pela Tágide.
Filha do Juiz Manuel de Barros da Fonseca Acciaioli Coutinho e de Lia Magalhães Colaço, a autora de Lin Tchi Fá nasceu a 3 de Julho de 1900, em Torres Vedras, Portugal. Aos 16 anos começou os seus estudos na Faculdade de Letras, em Lisboa, onde conheceu Artur Tamagnini, seu professor, com quem casou em 1916.
Artur Tamagnini Barbosa foi nomeado Governador de Macau dois anos depois e Maria Anna acompanhou-o nas suas duas primeiras missões, num total de sete anos: a primeira entre 1918 e 1919, a segunda durou de Dezembro de 1926 a Março de 1931. Em Macau, Maria Anna Acciaioli Tamagnini granjeou muito prestígio. Natália Correia escreveu em 1991 que isto se deveu à «irradiação do seu espírito que brilhava à flor da delicada formosura que os seus retratos nos mostram» e também pelo «talento literário com que semeou por jornais e revistas uma assinalável colaboração em verso e prosa, quer ainda pelo seu empenho em obras sociais e protecção com que encorajava as artes e letras».
Este prestígio sentia-se não só entre a comunidade portuguesa, como também chinesa. Em Macau, Maria Anna Acciaioli Tamagnini era professora de francês e de história da literatura francesa, falava português, inglês, castelhano, italiano e até se conseguia expressar em cantonês.
Além da escrita, Maria Anna pintava, tendo o Oriente como tema frequente das suas obras. Enquanto leitora, optava por Florbela Espanca, Guerra Junqueiro, Eça de Queiroz, Antero de Quental, Fernando Pessoa, Camilo Pessanha e Wenceslau de Morais.
Publicou, então, Lin Tchi Fá em 1925, quando tinha 25 anos. Apesar de ter sido bem recebido, este foi o seu único livro de poemas. Aos 32 anos acabou por morrer no parto do seu quinto filho.
Colectânea de 32 poemas de influência oriental
Lin Tchi Fá – Flor de Lótus, que na primeira edição tinha como título Poesias do Extremo Oriente, junta 32 poemas de temática oriental, com influência chinesa e japonesa. A obra foi bem recebida pela crítica, lembra Sara Augusto no prefácio desta edição bilíngue.
«Quem foi esta surpreendente poetisa que no Extremo Oriente, em Macau, ocultou da devassa da fama as espécies exóticas da sua singular poesia?», escreveu Natália Correia no prefácio da edição de 1991. Natália Correia refere a simbiose estabelecida entre a sua alma lusa, feita de «emoção e brisa», e as imagens do Oriente, feitas de mistério. Refere ainda que a feição parnasiana da poesia de Maria Anna, visível na preocupação com a forma e a elegância dos versos, com o requinte das imagens e dos cenários, se conjuga com o simbolismo, «marcadamente nos preciosismos da gama exótica do Oriente de que se recamou a imagética simbolista».
Nesta publicação da Praiagrande Edições, Sara Augusto destaca que, para além das imagens e dos cenários, a leitura assídua de Camilo Pessanha por parte de Maria Anna revela-se num orientalismo que não é «decorativo, mas interior e subtil». Sobre as possibilidades de filiação artística, Seabra Pereira, no seu O Delta Literário de Macau, considera que Lin Tchi Fá «é tão plausivelmente tributário dessa tradição parnasiana quanto de tendências herdadas dos esteticismos finisseculares (decadentista e simbolista) e sujeitas desde os alvores do século XX, a uma assimilação lenificante por partes de tendências de reacção neo-romântica».
Tradução: Que desafios?
Ian Watts e Lian Zimo fizeram agora a tradução da Flor de Lótus para inglês e chinês, respectivamente. Watts tem as suas raízes nas comunidades portuguesas da Califórnia e do Havai e licenciou-se em Antropologia e Governo dos EUA na Universidade da Virgínia, tendo posteriormente obtido o Doutoramento em Filosofia em Estudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Brown. Lian Zimo, por seu lado, tem bacharelato em Língua Portuguesa pela Universidade de Estudos Internacionais de Sichuan, actualmente cursa o mestrado em Tradução Chinês-Português na Universidade de Macau.
A obra foi apresentada na última edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Numa sessão moderada por Vera Borges, professora associada da Faculdade de Humanidades e de Ciências Sociais da Universidade Cidade de Macau, os dois tradutores e Sara Augusto falaram sobre a obra. A autora do prefácio desta edição contou que, ao descobrir esta obra de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, ficou «absolutamente espantada pela qualidade da poesia». «Não é uma literatura egocêntrica, é uma poesia que tem uma vertente narrativa, em que as personagens evoluem como se houvesse um distanciamento», descreveu a professora também da Faculdade de Humanidades e de Ciências Sociais da Universidade Cidade de Macau, acrescentando que «não se desfaz em sentimentos e emoções do eu poético, é mais do que isso».
Ian Watts cruzou-se com a poesia de Maria Anna quando investigava a Guerra do Ópio em Macau. O tradutor encontrou um texto de Artur Tamagnini Barbosa em que o Governador defendia o comércio de ópio e depois deparou-se com um outro texto de Maria Anna em que ela dizia que era «a degradação da alma humana», o que, supõe o académico, terá levado a discussões entre os dois. Foi aí que começou o interesse pela autora, que levou até esta tradução para inglês.
Já a responsável pela tradução para língua chinesa falou sobre os desafios que encontrou durante o processo, o principal dos quais foi a evolução da língua portuguesa ao longo dos 100 anos desde a publicação original dos poemas. Para Lian Zimo, outra das dificuldades da tradução da obra teve que ver com as transcrições dos nomes, o que a obrigou a cruzar referências e a consultar vários documentos. Por fim, o contexto cultural e a estética da poesia, por exemplo a tradução das rimas, também posaram desafios à tradutora.









