EM FOCO

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André Vinagre

Clube de Leitura dá vida à palavra escrita

 

O Clube de Leitura já conta com duas sessões realizadas: A primeira delas sobre Vindima, de Miguel Torga, e a outra sobre O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado. A terceira vai realizar-se na Livraria Portuguesa, mas ainda não foi definida a obra a ser analisada. Shee Va, promotor da iniciativa, explica que o objectivo é trazer livros à tona da água e «dar vida à palavra escrita».

O Clube de Leitura foi criado recentemente com o objectivo de criar hábitos de leitura na população portuguesa de Macau, trazer à tona da água novos livros e «dar vida à palavra escrita», conta Shee Va, fundador da iniciativa. Outra finalidade do grupo é divulgar autores de língua portuguesa junto das outras comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo por intermédio do Instituto Camões, assim como dar a conhecer o que se escreve em português noutros pontos do globo.

A primeira sessão teve como foco a obra de Miguel Torga, Vindima, e foi realizada no âmbito das comemorações do Junho, Mês de Portugal. Cada uma das sessões é dinamizada por um membro da associação e, neste primeiro encontro, que se realizou nos jardins do Consulado de Portugal em Macau, foi o próprio Shee Va o dinamizador. O médico destaca as análises críticas ao romance que surgiram na ocasião e a «razoável» participação do público.

A segunda sessão, que se realizou no passado dia 12 de Setembro, na Casa de Portugal, teve a coordenação a cargo da pediatra Filomena McGuire, por se tratar de um livro infantil: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado. Os convidados foram Roberval Teixeira e Silva, Jandira Silva e Sara Augusto. Fez-se uma leitura de alguns excertos do romance e promoveu-se uma discussão acerca do livro, «das várias temáticas do romance como os tipos humanos retratados nos personagens animais, o anti-herói, o significado da paixão e do amor, o casamento forçado, etc», detalha Shee Va.

A próxima sessão ainda não tem data e ainda não foi decidido qual a obra a ser abordada. Já há, no entanto, um local: A Livraria Portuguesa. Depois disso, o Clube de Leitura quer passar também pela Escola Portuguesa de Macau, pela Fundação Rui Cunha e pela Casa Garden, adianta o fundador da iniciativa, acrescentando que «está no espírito do Clube que qualquer pessoa se possa associar e coordenar uma sessão com os seus amigos convidados». Posteriormente, a acção será estendida aos leitores em língua chinesa.

Na opinião do médico, «há hábitos de leitura em Macau» e o Clube de Leitura serve precisamente para «trazer livros à tona da água para que outras pessoas se possam interessar pelas diferentes temáticas abordadas». «Há autores, há livros e há leitores. Temos que agregá-los e dar vida à palavra escrita», reforça.

Sara Augusto tem participado nas sessões do Clube de Leitura e defende que o propósito da iniciativa é promover encontros informais entre «pessoas que gostam de ler e de falar sobre o que lêem». Até porque «não se conversa muito sobre isso», diz. A professora universitária comenta que «o Clube de Leitura pode despertar um pouco e dar indicações sobre o que se lê, para que o exercício não seja tão individual».

«Muitas vezes, lemos um livro e não temos pistas de leitura. Esse diálogo pode ser muito interessante e pode levar à leitura de obras do mesmo autor ou da mesma época, por exemplo. Pode ser muito interessante», comenta Sara Augusto.

Pedro D’Alte, membro do grupo, já tem em mente qual o tema de uma sessão a ser organizada por si no futuro: Timor-Leste. «A literatura timorense em língua portuguesa é muito circunscrita. No romance, o grande autor é Luís Cardoso, mas temos também Ruy Cinatti, que produziu muita obra», destaca, comentando também que, «em termos de estudos culturais e literários, Timor é extremamente rico, porque tem uma cultura periférica e, por isso, é interessante para os leitores ocidentais e também para os leitores da Ásia que não conhecem Timor – pode, à boleia destas sessões, conhecer-se um bocadinho mais».

O professor lamenta que «a cultura sob a forma de livro não seja a mais apetecível em Macau». «Houve livros interessantíssimos lançados este ano que nem sempre tiveram o público que deviam ter tido, por exemplo quando foi lançada a edição dos 100 anos de Henrique de Senna Fernandes, que é um dos maiores ícones da literatura em Macau», assinala.

«Não sei se seremos nós, os professores, que teremos de fazer uma maior promoção junto dos alunos. Mas a verdade é que algo está a falhar quando temos edições numa só língua. Deveríamos ter mais interesse», critica, olhando para o resto do mundo para constatar que esta «é uma situação isolada em Macau», uma vez que «o negócio do livro no planeta inteiro tem suplantado o da música».

Os clubes de leitura, como este recentemente criado em Macau, não servem necessariamente para atrair o jovem leitor. «Temos é de actuar no público antes de chegar à idade adulta para, quando estes clubes são feitos, termos ainda mais público e para que as pessoas não se sintam desencaixadas ou que o sintam num ambiente estranho. O trabalho tem de ser feito junto das crianças e jovens», conclui Pedro D’Alte.