No comércio do ópio, no século XIX, Macau tinha um papel central, por ser a primeira paragem, onde os contrabandistas chineses contactavam com os parceiros, antes de seguirem para a Ilha de Lintin. Autor de trabalhos como a trilogia “Ibis”, centrada na primeira Guerra do Ópio, e por obras de ficção histórica e não-ficção, que exploram o colonialismo, a identidade e as mudanças climáticas, o escritor indiano Amitav Ghosh, no território para participar no Festival Literário de Macau, em entrevista ao PONTO FINAL, falou sobre trabalhos passados e futuros, além das várias crises ambientais (e não só) que, actualmente, assolam o mundo.
Qual era o papel de Macau neste comércio do ópio, entre a China e a Índia?
Macau tinha um papel essencial. O comércio do ópio foi banido na China, por isso, todas as pessoas que estavam a vender ópio eram, na verdade, contrabandistas. O primeiro porto onde paravam era Macau. Não descarregavam aqui o ópio, apenas pequenas quantidades, mas faziam a primeira paragem aqui e estabeleciam comunicações com os seus parceiros chineses, as redes de contrabando dentro da China. Depois, iam daqui para um lugar chamado Ilha de Lintin. Nesse período, o império Qing não exercia controlo directo nas ilhas remotas. Não tinha, por isso, controlo directo na Ilha de Lintin. Os britânicos e americanos transformaram a Ilha de Lintin no ponto principal para o contrabando de ópio. Os barcos iam daqui para a Ilha de Lintin e, aí, descarregavam o ópio nestes navios de contrabando que levavam para os navios britânicos e americanos que estavam ancorados lá. Os contrabandistas chineses entregavam o ópio e descarregavam os navios, para que estes não tivessem quaisquer sinais no porão. Depois iam para norte, para o estuário do Delta das Pérolas, onde estava a primeira estação de alfândega chinesa. Quando os inspectores subiam a bordo para inspeccionar os barcos, perguntavam: Que ópio? Não há ópio.
Tanto na ficção como na não-ficção, tem escrito também muito sobre assuntos como as alterações climáticas, sustentabilidade e aquecimento global. Quando é que começou a recorrer à literatura para abordar estes tópicos?
Não diria que usei a literatura. Prefiro dizer que as minhas preocupações ambientais tornaram-se parte do que estava a escrever. Na trilogia “Ibis”, muito é sobre o ambiente, no que diz respeito às flores e ao comércio de flores. Já então, abordei as questões ambientais, historicamente, para que se perceba como a história ambiental e ecológica transformaram o planeta. O comércio do ópio foi parte do processo.
De que forma é que o comércio do ópio foi parte do processo?
Foi um processo de extracção. Por exemplo, no regime colonial britânico na Índia, os camponeses foram uma parte importante da planície indo-gangética. Implementaram o regime de produção de ópio, o que transformou completamente o ciclo da agricultura. Contrabandearam o ópio para a China, onde foi vendido a milhares de dependentes e todos os lucros foram para eles, levando depois esse capital para Londres, Nova Iorque e Boston. Construíram linhas de comboio. Um dos principais comerciantes de ópio ficou rico e o filho comprou uma terra tão grande como o Liechtenstein, transformando-a completamente. As ramificações do comércio do ópio transformaram-se num modelo: angariar capital e a criação de capital, que gera estes modelos onde estas intervenções massivas ambientais se tornam possíveis.
Nos seus trabalhos e nas suas intervenções públicas, faz sempre uma ligação entre o colonialismo, o capitalismo e o aquecimento global. Como é que estão todos relacionados?
Tem a ver exactamente com este processo de extracção e em como o dinheiro é retirado de alguns locais. O meu livro, “A Maldição da Noz-Moscada”, traduzido para português, começa por contar a história do que os holandeses fizeram na Indonésia, nas Ilhas Molucas. Os portugueses foram os primeiros a chegar às Ilhas Molucas, mas eram poucos para conseguirem conquistá-las ou tomá-las. Mas as Ilhas Banda, a sul das Molucas, controlavam o comércio inteiro de noz-moscada, porque a árvore da noz-moscada crescia apenas nesta região. Há milénios que estavam envolvidos no comércio da noz-moscada e esta, juntamente com o macis, tinham-se tornado valiosos, enquanto bens de comércio. Os holandeses queriam assumir o controlo do comércio da noz-moscada e chegaram em números maiores do que os portugueses, além de serem os mais violentos. Quando chegaram às Ilhas Banda, no século XVI, tentaram impor um tratado aos bandaneses, que resultaria na entrega total do comércio de noz-moscada aos holandeses. Naturalmente, os bandaneses resistiram. Mas não eram muitos, eram apenas 15.000. Em 1621, o governador-geral da Companhia Holandesa das Índias Orientais, Jan Pieterszoon Coen, decidiu implementar uma solução final. Levou uma frota para as Ilhas Banda e, no espaço de dez semanas, exterminou por completo a população. Matou um terço da população, outro terço fugiu para as montanhas e morreu lá de fome e doença. Outro terço foi escravizado. Umas poucas centenas de bandaneses conseguiram fugir para outras ilhas. Mudaram por completo o ambiente da ilha, porque criaram estas plantações, que, depois, passaram para donos de plantações holandeses. Este é o início da escassez de recursos, um modelo que também explica o que se está a passar hoje no Golfo Pérsico. Há uma relação directa, porque os portugueses começaram por montar os seus fortes no Estreito de Ormuz. Foram pioneiros na criação deste modelo de controlo dos pontos de estrangulamento, que depois o império americano veio a herdar. O objectivo disto era a extracção. Antes eram as especiarias, depois foram outros bens de diferentes tipos e agora é petróleo. O que se vê, pelos bandaneses, é que tinham esta árvore miraculosa, a árvore da noz-moscada, que os enriqueceu. Eram pessoas prósperas e depois transformou-se na árvore da morte. É o que se passa com o petróleo. Em qualquer lado onde se veja petróleo, vêem-se também as dificuldades que surgem. Por um tempo, enriquece as pessoas, mas depois resulta numa violência incrível, porque as potências coloniais querem controlá-lo. Vemos que esta luta continua a acontecer, de uma forma fundamental. Estas lutas são determinadas por factores históricos. Até 1510, os portugueses tinham estabelecido o modelo de controlo do Oceano Índico. Isto tem sido transferido, ao longo dos séculos, de um império europeu para outro.

Considerando o estado do mundo de hoje, a história nunca ensina nada?
O mundo está à beira de crises múltiplas. Há tantas crises, que estão interligadas, mas todas estão a revelar-se ao mesmo tempo. O mundo está hoje, num lugar de tanto perigo, que não tem qualquer precedente histórico. Estamos à beira de uma guerra nuclear. Ao mesmo tempo, a crise climática está a acelerar à nossa volta, há perdas de biodiversidade a acelerar, há espécies em extinção ao ritmo de 10 por dia, as populações de insectos estão a cair, o nosso sistema alimentar tornou-se completamente dependente dos combustíveis fósseis, enxofre e outros químicos ligados a estes. O impacto do que se está a passar no Golfo agora vai ser nos sistemas de alimentação. A estação da Primavera está a chegar e os agricultores não terão os fertilizantes que precisam para plantar. Tornar os nossos sistemas alimentares tão dependentes dos combustíveis fósseis tem sido uma das grandes catástrofes, porque degrada a terra. Passei um ano a viver e a estudar no Egipto, numa aldeia pequena, há 50 anos. Sempre que havia uma colheita, se os agricultores deixassem a terra em pousio, mesmo que por apenas dois ou três dias, toda a terra ficava branca, porque todos os químicos vinham à tona. É como a dependência da heroína: o viciado só precisa de mais e mais. É como temos estado a compensar pela degradação da qualidade do terreno, por adicionar mais fertilizantes e insecticidas. É um modelo insustentável e agora vai colapsar.
Qual pode ser o papel da literatura, também na defesa de assuntos e temas importantes?
A literatura costumava estar no centro da cultura contemporânea, há 50/60 anos. Agora não é tão central. O cinema e a televisão tomaram esse lugar, apesar de a literatura também os influenciar. Para mim, alegar que a literatura pode mudar ou ter um impacto massivo em tudo, seria sobrestimar a potencial influência. Seria presunçoso da minha parte fazer afirmações grandiosas. Ao mesmo tempo, a literatura também ajuda a que tomem consciência das coisas. Já conheci centenas, se não milhares, de jovens, em diferentes lugares do mundo, que me dizem que o meu trabalho já os inspirou a fazer algo. É uma das recompensas de ser um escritor.

Tem algum projecto novo em mãos?
Tenho vários projectos em mãos, um dos quais é o ‘Future Library Project’ [Biblioteca do Futuro]. E tenho outros projectos ao mesmo tempo. Tenho dois ou três ensaios que tenho estado a tentar estender para se tornarem um trabalho mais longo de não ficção e estes estão muito ligados à minha leitura de como a crise ambiental está a desenvolver-se. Também estou a trabalhar num romance.
Como funciona o ‘Future Library Project’?
Duas artistas — uma mulher escocesa [Katie Paterson] e uma mulher norueguesa [Anne Beate Hovind] — criaram um projecto, em que um escritor contribui com um texto, que é fechado, a cadeado, por 100 anos, e só será divulgado em 2114. Nenhum de nós estará cá para ver. Até agora, há mais 14 que já o fizeram, como a Margaret Atwood e muitos outros. Eu sou o 14.º. Não posso divulgar nada sobre isso.
Tem alguma ideia pensada para escrever algo mais, no futuro, sobre Macau?
Quando vou a um sítio, não tenho logo uma ideia. Geralmente, uma ideia chega-me dois ou três anos depois e é assim que junto tudo. É perfeitamente possível que esta visita a Macau plante uma semente na minha cabeça e que esta leve a algo, mas, de momento, não tenho planos para isso.












