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      InícioOpiniãoA estrangeira

      A estrangeira

      Foi uma “polémica” daquelas em que o Twitter é generoso: breve e limitada no alcance, programada para se esfumar antes da próxima, rastilhando pelo respectivo nicho, desta feita de “China watchers” na versão com ligações a Hong Kong.

      No centro da controvérsia, um texto assinado pela correspondente cessante do Financial Times na antiga colónia britânica, Tabby Kinder, uma “reflexão sobre as ‘vertiginosas contradições’ do seu tempo na cidade durante convulsões políticas e a Covid”, como descreve o jornal.

      O problema, até antes de se avançar para o corpo do texto, parecia começar logo no título: “A festa dos expatriados de Hong Kong continua – mas por quanto tempo?” (“Hong Kong’s expat party continues — but for how long?”, conforme a edição “online” publicada no dia 30 de Setembro; a versão em papel, talvez por motivos de espaço, era mais lacónica: “Leaving Hong Kong”).

      A protagonista desta história começa por contar como chegou a Hong Kong “no pico da pandemia”, passando “três longas semanas” de quarentena num hotel, antes sequer de pôr um pé nas ruas da cidade. Em pouco tempo, percebe que “muitos dos amigos, colegas e contactos” saíram de Hong Kong ou planeiam fazê-lo em breve, escolhendo como destinos Singapura, Reino Unido, Austrália, Canadá ou Estados Unidos. “Houve tantas festas de despedida este ano, que as livrarias de Hong Kong têm agora secções só com cartões para oferecer aos amigos a dizer ‘bye, bye HKG’”.

      Todavia, “apesar do momento infeliz”, Kinder diz-se simultaneamente abençoada e amaldiçoada por não ter conhecido Hong Kong antes da pandemia, pois não se sente “nostálgica por uma cidade que, indubitavelmente, mudou”.

      Em conclusão (que chega muito antes do final do texto), segundo a autora, “a vida para um expatriado em Hong Kong durante a Covid foi feita de estonteantes contradições: onde as fronteiras fechadas e a ameaça de centros de quarentena pairam sobre a vida quotidiana, mas também onde cada fim-de-semana é uma confusão de festas em barcos, passeios de cortar a respiração pela natureza, e champanhe em terraços ao pôr-do-sol”. Sem contar com “jantares ou ‘cocktails’ quatro noites por semana com amigos”, nos quais se “trocam histórias de horror” sobre (outros, presume-se) amigos separados das suas crianças por causa das quarentenas forçadas.

      Kinder admite: se o relato parece alheado (“tone deaf”) perante o que está a acontecer em Hong Kong, é porque é isso mesmo. Na cidade, argumenta a jornalista, é assim a vida de um “expatriado”, estatuto que Kinder distancia de “imigrante” devido ao sentido que os próprios “expats” lhe dão – o de que estão ali temporariamente, mesmo que ao fim de décadas. É que, explica, “o privilégio de poder partir é usado de forma casual”. Uma opção. “A vida de um expatriado ocidental em Hong Kong tem sido até agora inteiramente protegida da convulsão política. (…) As experiências com as quarentenas apimentam todas as conversas, mas a opressão política nunca faz o mesmo”.

      Reconhecendo que há motivos para um sentimento de falta de esperança (novos confinamentos no continente decretados antes do congresso do Partido Comunista da China; o julgamento de dezenas de activistas pró-democracia), “para a maioria da população”, todavia, a vida vai retomando a normalidade. Por agora, escreve Kinder a fechar o texto, “é Outono em Hong Kong” (no que parece a deixa para se começar a ouvir “Another Spring Will Rise”, de Burt Bacharach).

      No Twitter, que a cada segundo rasgas as vestes e se indigna, seja com as mais residuais questiúnculas, seja com as mais superiores questões do nosso tempo, o artigo foi criticado como “uma desilusão” e um “reflexo de como alguns expatriados ricos pensam sobre Hong Kong – como um pano de fundo pitoresco para as suas vidas de luxo” (@tom_kellogg).

      A avaliação é reforçada pelas fotografias que acompanham o artigo, exibindo  uma mulher jovem (a própria Tabby Kinder), de pele e cabelos claros, que ora passeia, ora posa sozinha com a leveza da brisa, indiferente ao ar pesado, quente e húmido de Hong Kong, transformada num cenário que remete instantaneamente para o universo estilizado à moda das “influencers” do Instagram, uma espécie de “Pleasantville” por onde circulam umas histórias terríveis, mais para entreter “happy hours” do que para estremecer a despreocupação geral.

      Ainda de acordo com Tom Kellogg (que é director do Georgetown Center for Asian Law), se a realidade entre os expatriados de Hong Kong é a de que não se importam com a repressão política, talvez mais valesse que o jornal pegasse nesse contraste e tentasse compreendê-lo, ou “implicitamente criticá-lo”, tendo em conta “o impacto” da Lei de Segurança Nacional “nas mudanças na vida política” e no êxodo entre os residentes de Hong Kong. Afinal, questiona, “não será tarefa dos correspondentes estrangeiros compreender o lugar para onde são enviados, e reflectir/explicar nas suas próprias reportagens? Receio que esta peça falhe bastante a esse respeito”.

      Mas se o artigo tem algum mérito, ele é, sem dúvida – inadvertidamente ou não –, o de expor uma realidade bem presente e talvez acentuada em tempos de crise como aqueles que Hong Kong tem passado: as bolhas existem. Sempre existiram. Elas são numerosas e, em muitos casos, subsistem como resquícios coloniais e de segregações nunca assumidas que também são classistas – e que começam logo na distinção entre “expatriados” e “imigrantes”.

      Por razões históricas, territórios como Hong Kong e Macau (mas também Singapura e outros) atraíram ao longo do tempo um tipo de imigração que tinha origem nas respectivas “metrópoles” e por isso transportava uma qualquer “ascendência”; era normalmente composto por “quadros” destacados em missões de serviço, aliciados pelas regalias que se esperava compensarem a distância.

      Com a larga maioria, por mais tempo que passasse, a integração no território de destino nunca era de inteira assimilação ou aculturação, o que se explica e simultaneamente estranha, em Macau e Hong Kong, pelo facto de a quase totalidade da população ser chinesa.

      Esse sentimento, com as transições para a mãe-pátria, foi ainda mais reforçado nas duas regiões. Os estrangeiros só ficaram ainda mais “estrangeiros”.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista