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      InícioOpiniãoManifesto sobre Putin e a Ucrânia

      Manifesto sobre Putin e a Ucrânia

      Agora que se aproximam os trinta dias de guerra na Ucrânia dou publico testemunho da afeição que me desperta esse povo, da sua capacidade de sofrimento e resistência perante um inimigo implacável e militarmente superior.

      Num tempo em que o mundo se divide entre os poucos que apoiam a invasão e os muitos que a rejeitam é importante registar algumas coisas essenciais. Que na vida é importante traçarmos uma clara linha divisória entre nós e os adversários. Entre quem se rege por princípios de ética e moral e quem entende que a força bruta deve prevalecer e ser a lei. Que não há essa coisa das guerras justas como não há guerras patrióticas. Há guerras ponto final.

      No caso da Ucrânia há uma invasão em que um país soberano reconhecido pelas Nações Unidas como tal é invadido por outro país porque o seu presidente Vladimir Putin entende que não deve existir. Apesar de licenciado em direito pela universidade de São Petersburgo, Putin nunca percebeu a lei e acha que a lei e é a vontade prepotente de um czar e a comunidade internacional um verbo de encher.

      Mas não é. Aliás quando a União Soviética resistiu ao avanço dos batalhões e tanques nazis e se bateu ao lado do Ocidente, Vladimir Putin não existia, era uma ideia de cromossoma. Mas muitos milhares de russos caíram nas trincheiras para que os valores da liberdade, da decência, do respeito pelo outro pudessem ser defendidos e o nacional-socialismo vencido.

      Apesar de ter vivido na Alemanha, à frente da delegação do KGB em Dresden, Putin nada aprendeu e não percebeu que nós europeus não toleramos, que detestamos o jugo da opressão, da tirania e do mando de quem exercita por prazer a força bruta. Aliás nunca percebeu porque os alemães orientais se bateram pelo derrube do regime de Erick Honecker.

      Do alto da sua pequeníssima estatura, Putin entende que todos se devem vergar ao seu mando porque tem saudades da União Soviética e da sua ordem. E subverte todos os países que não se submetem a essa utopia. Mas a história não se deve repetir porque ninguém abandona a liberdade por anúncios de glória imperial. A história mostra que eles pavimentam o caminho para os ditadores.

      Na Europa nós gostamos da Ucrânia e do seu povo. Desde há quatro semanas recebemos os que fogem dessa guerra e damos-lhe guarida e sentamo-los à nossa mesa. Deste pequeno país chamado Portugal organizam-se grupos de cidadãos que levam medicamentos, roupa e alimentos aos campos de refugiados na Polonia, na Hungria e na Roménia e trazem para o nosso país famílias de refugiados e os acolhemos.

      Nós portugueses gostamos de gente decente e corajosa e não toleramos rufiões, como Vladimir Putin, que gostam de bater em gente mais pequena e indefesa. E sabemos que nem todos os russos aceitam o que se está a passar e que muitos se juntam em manifestações contra a guerra e são reprimidos pela polícia, apesar da censura instalada. Não confundimos o generoso povo russo, a sua extraordinária cultura, de Gorky a Dostoevsky, passando por Tchaikovsky ou Prokofiev, com as aventuras megalómanas de um tirano.

      Não sei se na Europa podemos fazer mais do que estamos a fazer para ajudar o povo ucraniano e o valoroso presidente Zelenskyy. Não é possível uma intervenção militar no país porque a Ucrânia não faz parte da NATO. E não estão reunidas as condições para ele aderir à NATO. Mas se Putin se tentar a invadir o território de países vizinhos da Ucrânia, como a Roménia, a Polónia, a Eslováquia, a Hungria, terá uma resposta ao nível da sua agressão.

      Esta semana reúnem-se os líderes dos países que formam a NATO incluindo os Estados Unidos. É tempo de reflectir no projecto inicial de 1949, de uma união do Ocidente já não contra a União Soviética mas contra a sua tentativa de refundação em curso. Nessa data três objectivos afiguravam-se essenciais: dissuadir o expansionismo soviético, parar o nacionalismo militarista na Europa através de uma forte presença militar americana, encorajar a integração politica da Europa. Esses três objectivos provam-se hoje mais actuais do que nunca.

      Precisamos de consolidar uma Europa das liberdades e das democracias que seja porto seguro para países como a Ucrânia que querem fazer parte da nossa comunidade plural de identidades e culturas. E de nos defendermos de inimigos externos se esse vier a ser o caso.  Como disse Winston Churchill “lutaremos nas praias, lutaremos nos lugares de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos.”

      Não o fizemos face a Hitler; seguramente não o faremos quanto a Putin.

       

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais