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      InícioOpiniãoCidade poente

      Cidade poente

      A referência é breve e feita de passagem, mas é também reveladora. Nas primeiras páginas do livro “The Lone Flag”, as memórias do cônsul britânico em Macau durante a Segunda Guerra Mundial, a propósito das escassas representações diplomáticas no território (eram quatro: as famosamente vizinhas do Reino Unido e do Japão, mais duas honorárias, da Holanda e da Tailândia), John Pownall Reeves observa que tal presença poderia parecer “razoavelmente forte” se considerarmos que se tratava de “uma colónia tão pequena”. No entanto, contrapunha o cônsul, “não se deve esquecer que, até ao século XIX, praticamente todo o comércio com a China tinha passado por Macau”.

      É este lembrete que se apresenta revelador. Não pela informação que contém – não era segredo, nem desconhecida dos residentes de Macau contemporâneos de Reeves ou dos leitores destas linhas, presume-se –, mas sim pela necessidade que o diplomata, talvez consciente de que, provavelmente, se dirigia a um público alheado até da própria existência de semelhante sítio, sentiu de recordar aquela que era, afinal, a grande razão de ser de Macau. E que, tão importante quanto ignorada, se acomodava perfeitamente numa curta frase adversativa, podendo ficar-se por ali. Dava que pensar, mas seguia-se adiante, sem problemas.

      A referência é ainda mais reveladora se tivermos em conta que Reeves escrevia num tempo – mais um, mas dos últimos – em que Macau tinha, verdadeiramente, dimensão universal. Importância, papel estratégico. História, naturalmente, mas que não se julgava esquecida ou diminuída. Tudo isso, no entanto, tinha os dias contados. Começava a perceber-se.

      A tendência vinha de trás. Tornara-se irreversível a partir da fundação de Hong Kong (o momento a que Reeves aludiu). Foi até então, a esse século XIX, que “praticamente todo o comércio com a China” passou por Macau, conferindo ao território um valor e uma grandeza internacionais.

      Como a cidade já estava no mapa, andava também nas bocas do mundo. Nos livros dos viajantes, nas notícias, nos roteiros, nos guias que começavam a publicar-se. Mais do que a história, havia uma narrativa. Que era, pois, a história convertida noutras histórias que falavam de um encontro entre culturas, civilizações, Ocidente e Oriente. Fazia sentido. Suscitava-se interesse nessa circunstância extraordinário de um mundo e um país imenso que passavam pela porta aberta da pequena península, olhando-se, descobrindo-se.

      O simbolismo que sobrou dessas histórias, dessas discursividades, resistiu com fulgor em Macau até ao final do século XX, à força de campanhas de propaganda que serviam o interesse de uma (ex-)potência colonial obviamente fora de tempo. Apesar do muito que se fez, quase tudo chegou demasiado tarde, e não assentaram, por exemplo, as bases de uma cidade de cultura e conhecimento, o que facilmente seria justificável. Assim, Macau não é casa de uma universidade de reputação internacional, de um centro de estudos dedicado ao intercâmbio entre o Oriente e o Ocidente, um foco de sinologia, do património, da arquitectura, da arte, do diálogo inter-religioso. O mesmo se pode lamentar relativamente a Portugal, completamente esquecido e desinteressado neste seu lado, já sem pergaminhos que possa ostentar a não ser os de antanho.

      Não há dúvida: Macau reinventou-se. Em muitas medidas, superou-se. Transcendeu-se. O novo capítulo da sua vida, da sua história, agora como Região Administrativa Especial, nasceu sob o signo da globalização – actualizando e desenvolvendo um movimento de que Macau fazia parte há séculos, tendo mesmo sido sua pioneira.

      Desta feita, confluíram ao histórico porto franco do Extremo-Oriente todos os fluxos das praças financeiras mundiais. A liberalização do jogo catapultou Macau para níveis globais e estratosféricos, levou-a à hipermodernidade, sem que as marcas do passado se tenham apagado. Pelo contrário, até lhes puxaram o lustro. Só que também nem o património vive exclusivamente de aparências.

      Por algum tempo, afigurava-se que mesmo as heranças mais sólidas, físicas, do passado iriam ter graves dificuldades a resistir à onda do futuro. Que iriam deixar-se soterrar. Perder de vista. Na verdade, a silhueta da cidade recortava-se com outros volumes de proporções desajustadas e ameaçadoras.

      Mas antes de esse temor se instalar, houve também um futuro em aberto. Não foi assim há tanto tempo, mas parece cada vez mais longínquo. Então, a cidade discutia-se. Formulavam-se hipóteses. Até para o outro lado da fronteira, na altura um descampado que se pensava poder, realmente, servir Macau, ter vida, população (até havia números, estimativas), e não apenas edifícios vazios.

      Mas o mundo era outro; sobretudo, a China era outra. E não se pensava que Macau pudesse ser outra. Pelo menos, uma tão diferente da que sempre foi, até porque as possibilidades que se expunham não esqueciam as narrativas, os discursos e o simbolismo de outros tempos.

      Todavia, a cidade foi perdendo estatuto, dimensão, reputação, cingindo-se à recusa do mundo e ficando cada vez mais fechada, não sobre si própria, mas sobre um país que não sabe aceitá-la na sua diferença, na sua identidade.

      Por mais pequena que fosse, a porta aberta de Macau de outros tempos valia-lhe (e a grandes potências e impérios) uma relevância que se tem vindo a apagar.

      A partir de determinado ponto, Macau começou a definir-se mais pelo que não é do que pelo que é, pelo que não se faz do que pelo que se faz. O que não se vê, o que não se diz. O que não se deixa de pensar. Até sobrar o quê?

       

      Hugo Pinto

      Jornalista