Edição do dia

Sábado, 25 de Maio, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva moderada
27.8 ° C
31 °
26.9 °
89 %
4.1kmh
40 %
Sáb
28 °
Dom
26 °
Seg
27 °
Ter
29 °
Qua
25 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioOpiniãoLinhas no horizonte

      Linhas no horizonte

      Temos a percepção que o futuro esconde linhas de projecção que dificilmente antecipamos. Porque ele não se deixa captar no presente. E assim surpreendemo-nos. Talvez isso resida nos limites da razão e da compreensibilidade humana que os arautos do apocalipse dizem coincidir com a afirmação da Inteligência Artificial, a bête noir dos nossos dias.

      Não somos seres dotados de instintos divinos embora alguns de nós acreditamos que o Génesis não é um conto fantástico para convencer leitores do Antigo Testamento a seguir um determinado caminho religioso. Terá porventura uma explicação encoberta sobre o papel do primeiro homem que o esoterismo judaico designa por Adam Kadmon e que o Criador (Hashem) terá criado a partir do pó da terra soprando nas suas narinas o sopor da vida. Tornando-o um ser humano.

      Por qualquer razão somos a única raça animal dotada de inteligência racional e de livre-arbítrio o que leva a que possamos contrariar os nossos próprios instintos. Aplicando o código moral que recebemos da educação dos nossos pais podemos fazer escolhas mais ponderadas e acertadas. Somos seres sociais por génese e temos que compaginar os nossos objectivos de vida com as escolhas dos outros.

      Não somos naturalmente seres perfeitos, longe disso. E essa imperfeição convida-nos a procurar, descobrir, alimentar a nossa curiosidade. Não porque ambicionemos tornar-nos divinos mas porque escolhemos ser diferentes e importar para os outros que nos rodeiam ou para a satisfação de nós próprios. É absolutamente inatural tomar por adquirido que estamos aqui a cumprir a pena de alguém que a narrativa religiosa diz se ter sacrificado para que possamos aqui estar quando a escolha foi dele. A acreditar na cristologia narrativa.

      Como seres sociais contribuímos na medida das nossas possibilidades e engenho para que o mundo mais circunjacente seja mais vivível, comodo e prospero. Inquietamo-nos com a pobreza, com o sofrimento, com as dependências. Isso é manifestação do nosso humanismo como seres providos de sentimentos e empatia. Mas é a razão e não a crença que determina a evolução do género humano e o seu destino na terra.

      Lembro as palavras de Salman Rushdie num livro que apreciei “a batalha entre a razão e a superstição pode ser vista como a longa adolescência da humanidade e o triunfo da razão será a sua maioridade. Não que Deus não exista, mas como qualquer pai orgulhoso aguarda o dia em que o seu filho conseguir segurar-se de pé sozinho, fazer o seu caminho no mundo e ser livre da dependência dele”. Ainda nos falta algum tempo para ascender a essa maioridade de estatuto até porque as religiões insistem em nos causticar como seres impreparados para a maioridade e imerecedores da autodeterminação.

      Se a linha do tempo não anda para trás pelo menos é parabólica na sua evolução. Por isso permite captar instantes do passado no seu traçado. Estamos de certa maneira a reviver a possibilidade de quebrarmos as grilhetas da tradição que estabelece balizas aos processos da ciência, como se nós humanos fossemos crianças incapazes de arriscar novos passos com medo de cairmos ou de nos aleijarmos.

      Não parece que devamos estar ainda receosos do juízo dos clérigos e das escrituras dos profetas transmitidas de boca a boca há vários milhares de anos. Nunca saberemos quanto de verdade e certeza elas conformam. Ou se são – muito provavelmente – testemunhos da vivência de grupos humanos que viveram em condições de escassez e enormes dificuldades para sobreviverem.

      Hoje temos tecnologias que nos podem conduzir a uma vida melhor e mais bem vivida, com mais conforto e realização. O problema candente continua a ser o acesso e a distribuição dos seus resultados e descobertas. Só por tentativa, por erro e correcção do erro, poderemos emendar o que há a emendar e a superar. Esse é o sentido da nossa humanidade, da nossa redescoberta.

      Ignora-se quantos milénios sobreviverá a raça humana nem o que lhe sucederá. Mas não se pode impedir o futuro. Até porque não existe um ser presciente que controle ou supervisione a evolução humana. Estamos por mais algum tempo sozinhos no cosmos e entregues a nós próprios. Bem vindos à aventura.

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e antigo professor de Ciência Política e Relações Internacionais