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      Início Opinião Life is Life!

      Life is Life!

      Como vos contei numa das minhas crónicas anteriores, o século XXI é, garantidamente, o século da Biologia. O estudo da vida, em todas a suas vertentes, está ligado a áreas muito distantes desde a saúde, passando pela biotecnologia, ambiente, e até pela exploração espacial. Esta última área é uma das últimas fronteiras da Ciência, assistindo-se já a uma corrida espacial pelo estudo do nosso Sistema Solar e procura de eventuais sinais de existência de Vida passada ou presente em locais como Marte ou as luas geladas Encélado e Europa.

       

       

      O que é a Vida?

       

      Os seres humanos desde muito cedo iniciaram o estudo e classificação dos seres vivos que os rodeiam. As primeiras classificações certamente que se prenderiam com discussões sobre caça, e a separação entre animais ou plantas úteis e perigosas. A primeira classificação sistematizada do mundo natural dever-se-á a Aristóteles com 3 reinos: Animais, Plantas, e… Minerais! O trabalho posterior de pioneiros como Lineu, Haeckel, ou Woese foi essencial para a nossa visão actual do mundo que nos rodeia e organização e classificação de todos os seres vivos.

       

      Apesar de todo este historial, a Biologia foi até agora incapaz de formular uma definição definitiva para o que é a Vida! Se é verdade que todos nós temos alguma capacidade inata para distinguir algo vivo e não-vivo, ou até sermos capazes de rapidamente indicar várias características associadas com a Vida, a separação é menos clara do que aquilo que parece. Este problema por solucionar, torna qualquer procura de Vida extra-terrestre ainda mais complicada. Se não temos uma definição clara de Vida, como conseguir distingui-la de algo não-vivo?

       

      Quando peço a qualquer pessoa que indique algumas características especificamente ligadas à Vida, as respostas que recebo são geralmente uma combinação das seguintes: complexidade, crescimento, consumo de energia para as suas actividades, ou reprodução. No entanto, para todas estas características temos exemplos não-vivos onde estas também se manifestam.

       

      Em relação à complexidade quer os cristais, quer os flocos de neve, são contra-exemplos clássicos da dificuldade de aplicar este critério em exclusivo. Vale a pena notar que o nível de complexidade destes dois contra-exemplos apenas ocorre a um nível macroscópico, visto que ambos consistem na repetição regular de estruturas relativamente simples. Os seres vivos têm complexidade presente a todos os níveis desde o nível molecular, celular, estendendo-se em seres vivos mais complexos também para os níveis de tecidos, órgãos e sistemas.

       

      A capacidade crescer também tem os seus problemas. A precipitação de sais ou minerais de uma solução química, ou até a formação de estalactites ou estalagmites em grutas, levanta-nos problemas para o uso deste critério. Algumas destas estruturas apresentam inclusivamente morfologias que nos fazem lembrar estruturas biológicas. Esta fronteira ténue esteve na base da discussão de estruturas microscópicas no célebre meteorito ALH84001, de origem marciana e descoberto na Antárctida. Os resultados do estudo de alguns dos seus fragmentos tiveram direito a uma conferência de imprensa de Bill Clinton em 1996, onde foi anunciada uma possível descoberta de sinais de Vida em Marte. Estudos mais detalhados acabaram por apontar para uma origem não-biológica destas estruturas que, apesar de serem minerais, se assemelhavam a pequenos micróbios fossilizados.

       

      O consumo ou conversão de energia, para realização e manutenção dos seus componentes e funções, não é necessariamente uma opção melhor. Como contra-exemplos temos os automóveis e os computadores (ou qualquer dispositivo electrónico) que encaixam facilmente nesta característica.

       

      Mesmo a reprodução, é uma opção menos definitiva do que aparenta ser à primeira vista. Se for vista como uma característica essencial, o que podemos dizer sobre as mulas? Estes mamíferos são híbridos estéreis que resultam do cruzamento entre burros e éguas. Como atestam as numerosas histórias que envolvem coices de mulas, ninguém duvida que estes animais estejam bem vivos! Por outro lado, também temos o fogo como objecto não-vivo com capacidade de se reproduzir. Temos ainda o caso de entidades biológicas que não são consideradas seres vivos… Este é o caso dos vírus e dos priões, por exemplo.

       

      A NASA propôs uma definição que assenta na capacidade de auto-replicação e de evolução, mas a discussão continua em aberto. A complexidade da Vida dificulta, pelo menos para já, que alcancemos qualquer resposta definitiva sobre este assunto. Inspirados na célebre música da década de 80, talvez a resposta mais acertada para uma definição da Vida seja um simples, mas complexo, “Life is Life”!

       

      Cientista