“Há muita gente velha a ilustrada, em Macau, que nunca viu aquela ilha, conhecendo-a apenas de tradição pelo facto de, conjuntamente com a ilha da Taipa, formar um concelho e um comando militar que faz parte da província de Macau”. A ilha que “muita gente”, mesmo a antiga e educada, nunca vira – está bom de ver – é Coloane, que hoje já nem é ilha nem é desconhecida para quase ninguém em Macau. Em 1910, no entanto, a história era outra.
“Todos falam de Coloane, mas poucos são os que conhecem esta ilha”, verberava o jornal “Vida Nova” na sua primeira página da edição de 24 de Julho de 1910. O destaque não era por acaso.
Dias antes, as tropas portuguesas haviam lançado uma campanha contra os piratas que ocupavam Coloane já lá iam dezenas de anos. A comoção tomava conta de um território acostumado à sua meridiana tranquilidade. Até a presença dos bandidos se entranhara nos hábitos. “É claro que não se apresentaram lá como piratas, mas como pacíficos cidadãos”, explica o Padre Manuel Teixeira no seu livro sobre esta operação militar, “Os Piratas em Coloane em 1910” (1960). “Iludindo as autoridades, foram-se ali infiltrando no decorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns trabalhavam nas pedreiras, outros entregavam-se à agricultura; por isso tinham de ter casas para as suas famílias. É de crer que os seus vizinhos soubessem que espécie de gente eram eles, mas não os denunciavam por duas razões: eles não os incomodavam, pois a quadrilha fazia as suas operações em terra chinesa e para ali traziam os seus roubos e as suas armas; se os denunciassem, sujeitavam-se a terríveis represálias. O melhor era deixá-los em paz”.
A convivência prosseguia na medida da distância. Coloane era terra algo inacessível. Um mundo rural afastado, esquecido, que desinteressava à vida urbana da península. As notícias não corriam com grande pressa entre uma parte e outra.
Naquele ano de 1910, no entanto, começaram a aparecer publicadas na imprensa cartas dos piratas de Coloane a exigir resgates de crianças sequestradas. Foi o pretexto para lançar as investidas que agitaram Macau durante aquele Verão. Perto de 200 soldados de infantaria desembarcaram em Coloane. Os combates foram violentos e o rescaldo é confuso. Treze soldados portugueses terão morrido; desconhece-se o número de baixas entre os piratas. Nesta barricada, todavia, acreditava-se que não havia inocentes. “Como se cria que tudo aquilo era pirataria”, escreve Manuel Teixeira, “bombardearam a vila de Coloane e até os barcos e juncos da baía. Ora muitos pescadores nada tinham que ver com o caso e foram vítimas inocentes dos bombardeamentos”.
O “Vida Nova” de 1910 fazia menos contemporizações: “a povoação de Coloane é, por assim dizer, toda composta por piratas. Se não são piratas efectivos, são-no reformados ou em inactividade, ou finalmente seus receptadores e cúmplices. O comércio da povoação vive dos piratas, o fantan explora os piratas, a indústria do peixe salgado é exercida para fornecimento dos piratas”. Era assim nas vilas de Coloane e era assim também nas partes montanhosas da ilha, por onde se estendiam “furnas ou cavernas dos piratas, para onde se entra por uns buracos muito estreitos, onde mal cabem duas pessoas juntas ou uma gorda. Nelas e em algumas casas da povoação é que os piratas conservam os seus reféns”.
No fim das operações militares, seriam levadas para Macau 11 crianças libertadas (três morreram em cativeiro), bem como nove homens e seis mulheres. Presos ou suspeitos havia 54 piratas, sendo que 15 foram julgados em conselho de guerra no Quartel de S. Francisco – sete seriam absolvidos por falta de provas e oito acabariam condenados a 28 anos de degredo em Moçambique.
Virada esta página, declarava o “Vida Nova”, “depois de tantos sacrifícios”, era tempo de “mudar-se de rumo, dando à ilha de Coloane um outro uso e destino que não o que consta da tradição”. Podia-se aproveitar os terrenos que havia para a agricultura e a pecuária.
No seu relatório de 1911, o governador Álvaro de Melo Machado deixaria explícita a ideia de que, “tendo-se voltado para Coloane, depois das operações contra os piratas, em Julho de 1910, as atenções do governo de Macau, reconheceu-se que seria possível desenvolver esses terrenos, até há pouco tempo praticamente abandonados”. E desconhecidos.
Foi só nesta altura que foi feito um levantamento topográfico de Coloane. “A carta [da ilha]”, admitia Melo Machado, “vem preencher uma grande lacuna porque, vergonha é dizê-lo, não havia ao cabo de tantos anos de administração portuguesa uma carta em que ao menos estivesse exacto o contorno da ilha”. Só agora, arregaçava Melo Machado as suas mangas, “vou começar a trabalhar para valorizar esses 700 hectares que nos pertencem”.
O ambicioso plano incluía o envio para Coloane de “alguns chinas dos que a justiça costuma pôr à disposição do governo, para este lhes dar trabalho, e a quem serão fornecidos uma porção de terrenos e as ferramentas indispensáveis para os agricultarem”. Melo Machado mostrava-se convencido de que seria “este certamente o princípio de uma colónia penal que na ilha se pode estabelecer sob a vigilância e na proximidade dos postos militares”. Nesse sentido, previa-se, ainda, o envio de condenados de Timor para ali.
Por outro lado, defendia o governador, fazia também sentido “aquartelar em Coloane o grosso das forças militares”, pois “Macau é uma localidade má para os soldados, onde a livre prática de todos os vícios os corrompe e inutiliza”.
Apesar da vontade, apesar dos projectos, Coloane teria de aguardar mais um pouco. Até que o seu contorno esbatido contra o fio do horizonte que se avistava da Praia Grande voltasse a surgir entre actualizadas ânsias e esperanças de uma outra, nova, vida. (continua)
Hugo Pinto
Jornalista











