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      APOMAC: Um balcão de serviços que também é um ponto de encontro entre amigos

      A Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC) já é uma instituição com duas décadas de histórias para contar. O PONTO FINAL foi à cantina da associação tentar perceber junto dos associados o que é que os motiva a irem quase diariamente àquele espaço. Ajuda nas burocracias e confraternização foram as respostas em comum.

      Fotografia de Gonçalo Lobo Pinheiro

      É meio-dia e meia de uma quarta-feira feriado, Dia do Buda. A cantina da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC) está quase cheia. Há clientes habituais que ficaram em casa, foram substituídos pelos esporádicos que procuram a gastronomia macaense para celebrar o feriado.

      “A minha vida está aqui. A minha vida deixou de ser complicada desde que vim para esta associação” – Zélia Ribeiro

      Sentada sozinha numa mesa está Zélia Ribeiro, que abre a conversa exclamando com orgulho ser a única mulher portuguesa sócia da APOMAC. É-o desde 2001, quando foi fundada a associação. Zélia Ribeiro, “transmontana de gema”, nascida em Mirandela, veio para Macau há 27 anos para dar aulas de português como língua estrangeira.

      Em 2001 reformou-se. Antes de pensar associar-se à APOMAC, Zélia pensou em regressar a Portugal. Mas não o fez, uma e outra vez. “Reformei-me em 2001 e pensei em ir embora, mas até hoje não tive coragem de marcar a viagem. Digo sempre ‘para o ano vou, para o ano marco a viagem’. Há quase 21 anos que estou reformada e não consigo marcar o dia, o meu subconsciente foge sem eu dar conta”, afirma.

      Mas “qualquer dia vou mesmo embora”. É o sistema de saúde que a faz querer voltar a Portugal. Em Macau, a comunicação com os médicos chineses não flui. “Estou mesmo a pensar ir embora, mas não prometo que vá nos próximos 15 ou 20 anos”, atira Zélia numa gargalhada que ecoa pela cantina da APOMAC.

       

      “A MINHA VIDA ESTÁ AQUI”

      Até porque na APOMAC se sente em casa. “As pessoas parece que são minha família”, nota. O apoio dado pela associação vai desde as burocracias do dia-a-dia até às questões relacionadas com a reforma. “A minha vida está aqui. A minha vida deixou de ser complicada desde que vim para esta associação”, elogia Zélia.

      Tal como Zélia, há outros cerca de 870 associados da APOMAC, a maioria deles de nacionalidade chinesa, são poucos os de nacionalidade portuguesa. A maior parte são aposentados da Função Pública dos tempos anteriores à transferência de soberania de Macau.

      Os estatutos da associação, fundada em 2001 por Jorge Fão, são a representação e a defesa dos interesses dos reformados e aposentados de Macau, bem como o estudo das questões que interessem aos associados. A APOMAC também tem como objectivo a promoção e organização de acções e iniciativas de natureza social e cultural, por exemplo. Ultimamente, uma parte dos trabalhos da APOMAC tem a ver com o auxílio no envio das provas de vida dos associados que são aposentados da Caixa Geral de Aposentações (CGA).

      João Brito da Silva está noutra mesa, rodeado dos amigos com quem se costuma encontrar na associação. Enquanto come um amargoso de minchi, conta ao PONTO FINAL que é aposentado da Polícia Marítima de Macau. Também ele se orgulha de dizer que é o sócio número 19 da APOMAC, um dos mais antigos.

      Brito é cliente habitual da cantina da APOMAC e tem “mais regalias” que os outros, conta. Isto porque mora na Avenida de Sidónio Pais, mesmo em frente às instalações da associação. Quando não está na cantina, são os amigos que o chamam: “Às vezes eu ainda estou em casa e eles estão a chamar-me: ‘Brito, vem para baixo!’”. Todos os dias vai à APOMAC e brinca: “Não tenho onde cair morto…”.

      Tal como Zélia, Brito recorre à APOMAC sempre que tem burocracias por resolver. “Se não tivesse APOMAC nem sabia como tratar dessas coisas. Como ia fazer? Não sabia”, diz, lembrando o “tempo dos portugueses”. “Nessa altura ainda me orientava”. O aposentado deixa até uma sugestão ao Governo de Macau: mais um subsídio de mil patacas para cada residente com mais de 70 anos.

      “ACABOU ‘LAI SI’, ACABOU A FESTA”

      Mas são os dias de festa que alegram Brito. “No aniversário da APOMAC temos um jantar e se não me engano há mais uma festa onde há comezaina”, lembra o aposentado da Polícia Marítima. No topo da mesa está Francisco Manhão, o presidente da direcção da APOMAC, que o contrapõe: “Agora passou a ser só para o jantar de Natal”. Ao lado, um outro aposentado atira: “Acabou ‘lai si’, acabou a festa”.

       

      Daniel Mendonça também está sentado à mesa. É sócio da APOMAC há tantos anos que já nem se lembra quantos. “Há mais de 15 anos, pelo menos”, recorda.

      Tem 72 anos, nasceu em Macau e trabalhava na Direcção dos Serviços de Finanças, e também ele vem todos os dias à APOMAC para confraternizar com os amigos. “É um local de encontro entre os sócios e amigos. Conversamos, passamos tardes agradáveis”, aponta.

      Daniel Mendonça foca-se na ajuda burocrática que a APOMAC dá. “A APOMAC dá-nos uma grande ajuda porque nós somos aposentados de Portugal, e muitas vezes é preciso tratar de uma série de papeladas, prova de vida, isenção de imposto de IRS”, afirma, sublinhando a importância da APOMAC no tratamento “da papelada”.

      O aposentado indica que “muitas vezes as pessoas de etnia chinesa cada vez que recebem uma carta de Portugal, escrita em português, ficam desesperadas”. E dá um exemplo: “Eu conheço uma senhora idosa de etnia chinesa que, cada vez que recebe uma carta de Portugal em português, começa a chorar, toda enervada. A APOMAC ajuda-a a tratar dessas papeladas e ela fica mais calma”.

       

      ELOGIOS PARA A CLÍNICA

      Outro antigo funcionário da Direcção dos Serviços de Finanças é Alberto da Luz. Começou a frequentar a APOMAC não há muito tempo, chegou quando os filhos se emanciparam. Tal como Daniel Mendonça, também é nas “papeladas para a CGA” que a APOMAC mais o apoia. No entanto, refere uma valência que ainda não tinha sido destacada pelos outros convivas: a policlínica.

      “Na APOMAC também há aquela clínica para as pessoas da nossa idade. Eu tenho 66, mas outros já têm 70 e tal, por isso…”, deixa no ar. Para este macaense, a clínica da APOMAC “não é só medir a tensão ou medir os níveis de açúcar, faz mais que isso”.

      A clínica da APOMAC abriu em 2002 e, segundo dados da associação, atende cerca de oito mil pessoas por ano. Neste momento, a clínica tem uma médica, uma enfermeira e uma fisioterapeuta em part-time.

      Alberto da Luz faz, então, eco dos pedidos da direcção da APOMAC, que ao longo dos anos tem pedido ao Governo de Macau que conceda mais espaço para que a associação possa alargar os seus serviços. “Isto é o que os dirigentes já têm dito, mas eu também esperava isso”, aponta, sublinhando que “dava uma grande ajuda se nos dessem mais espaço; é sempre bom para os aposentados, os chamados velhos”. Porém, ressalva que “não podemos exigir muito do Governo, porque o Governo também tem de tratar das outras associações”.

      No próximo ano há eleições para a direcção da APOMAC. Em entrevista ao PONTO FINAL, Jorge Fão, presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação, disse que gostaria de sair, caso houvesse alguém interessado em assumir o cargo. Questionado sobre se a actual direcção devia continuar ou não, Alberto da Luz responde que “apesar de os dirigentes já terem uma idade avançada, até agora não vejo ninguém que os possa substituir”. “Eu não conseguia, não sou capaz desse trabalho, que exige esforço, sacrifício e muito tempo”.

       

      A IMPORTÂNCIA DE FALAR PORTUGUÊS

      Manuel da Cunha reformou-se há 18 anos da Polícia Judiciária, mas só recentemente é que se fez sócio da APOMAC. Ao longo do tempo “tenho visto que a associação tem ajudado os reformados, os velhinhos e os doentes”. O aposentado é um dos clientes habituais, vem mais pelo convívio, confessa. Apesar de dar pouco uso à clínica, nota que esta valência “tem favorecido muito os idosos”, porque “há muitos que lhes custa ir ao hospital e, para pequenas coisas, podem vir cá”. “A APOMAC ajuda sempre no possível. Nunca desprezou um associado, tem sempre bons modos nos tratamentos”, conclui.

      Agora, no topo da mesa corrida, já está Joaquim dos Santos, que substituiu Manhão naquele lugar. Depois de ter trabalhado em vários serviços, como a Polícia Judiciária, nos tribunais, no sector privado e até em Hong Kong, associou-se à APOMAC.

      Tal como os amigos, destaca o apoio que a associação dá “naqueles problemas que surgem”, no que toca às pensões, por exemplo. Joaquim dos Santos repete também o apelo para que o Governo ceda mais terrenos à APOMAC, explicando que é preciso, por exemplo, um dentista e uma especialidade de medicina tradicional chinesa. Em jeito de conclusão, deixa um outro factor que faz com que habitualmente frequente aquele espaço: a língua portuguesa. “Este é um sítio onde a gente consegue falar um bocado de português, bem ou mal, fala-se português. Lá fora não. Toda a gente fala chinês”.

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