20 anos depois do 11 de Setembro; e agora?

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 As duas décadas decorridas sobre os ataques a Nova Iorque e ao Pentágono despertam algumas reflexões oportunas. Os ataques foram perpetrados por um grupo de comandos associados a Bin Laden e à Al Qaeda, uma organização até aí desconhecida da grande maioria dos observadores.

Os comandos puderam penetrar em solo americano e preparar-se logisticamente para os atentados com o aparente desconhecimento ou desvalorização das agências de espionagem norte-americanas. E fizeram-no sem recurso a armamento pesado o que possibilitou fugir aos radares de segurança dos aeroportos.

Fico claro com a morte de cerca de 3000 civis que a América, a sociedade ocidental, os nossos valores e as nossas democracias são adversárias esconjuradas desses grupos que se reivindicam de uma leitura e obediência ao que pretextam estar no Alcorão, aplicando-se na derrotam dos que se reclamam cristãos ou judeus.

Na guerra que liderou no Afeganistão e no Iraque os Estados Unidos e os seus aliados lançaram-se na perseguição do líder da organização e da sua estrutura de comando. A caça e execução de Bin Laden por uma operação militar cirúrgica trouxe contudo a falsa segurança que  a ameaça terrorista-islamista estava eliminada e as potências ocidentais poderiam regressar à doce modorra da vida burguesa, sem grandes dificuldades. A multiplicação de atentados terroristas em vários locais mostrou quão errada era essa suposição.

Num país vizinho do Afeganistão, uma outra organização, o DAESH, igualmente jihadista e sunita lançar-se-ia à captura e execução de vítimas civis, tendo como objectivo a constituição de um califado internacional imposto à Jordânia, Iraque e Síria e afirmando-se como única autoridade religiosa do mundo muçulmano. As operações aéreas lançadas pelos Estados Unidos sobre as bases militares do DAESH possibilitaram a eliminação de lideres mas não é claro que a estrutura de comando e o peso da ameaça tenha sido desmantelada e minorada.

O impacto destes acontecimentos tem sido brutal. Por um lado, revelou que o combate ao terrorismo sunita não acabou e que o mesmo constitui uma ameaça séria para a segurança dos países ocidentais mas também para os países árabes dirigidos por monarquias oligárquicas ávidas de riqueza mas desinteressadas da sorte dos seus povos. E se a ameaça terrorista tinha há vinte anos um alvo privilegiado – o Ocidente– hoje os alvos multiplicam-se consoante os planos e a dispersão geográfica das células das organizações terroristas.

Por outro lado, devolveu a chave de interpretação do que ocorre na vida internacional aos realistas, autores como Morgenthau, Kennan, Waltz e outros, na vigilância das capacidades militares dos actores, na estratégia, no uso da “intelligence” e da propaganda, na sofisticação do equipamento militar e na introdução das valências da ciberguerra. Para trás, ficaram ideias simpáticas como a primazia das organizações internacionais e da Carta das Nações Unidas, o G7, o uso do soft-power nas relações entre os países e regiões. Balança de poderes, tanto mundial como regional, voltou a ser o instrumento certo para fazer o mundo funcionar, escolher amigos (de ocasião) e condicionar adversários. Medir, desconfiar e estar vigilante tornaram-se as posturas necessárias para um mundo anárquico e perigoso.

Ainda por outro lado, os vinte anos passados colocaram-nos perante o regresso da religião e da fé às preocupações dos “policy-makers”. A mobilidade internacional, a facilidade das comunicações, a atração do bem-estar do Ocidente lançou para dentro das nossas fronteiras comunidades de centenas de pessoas que fugiram dos seus países em guerra e procuram melhores vidas para si e os seus filhos. São comunidades muçulmanas do Norte de Africa, do Iraque, Síria ou Afeganistão que aqui continuam a maneira de viver. Não é fácil a sua integração como ocorreu noutros séculos. Será ingénuo pensar-se que serão cristianizáveis. Nunca o serão.

O que coloca aos decisores políticos mas também aos agentes sociais e académicos, a urgência de se conhecerem os seus hábitos, tradições e vinculações religiosas. São comunidades que não separam a vida profana e os deveres de cidadão das suas obrigações religiosas resultantes da sua fé. Para elas os dois aspectos, essa dupla legitimidade, faz parte integrante da sua identidade de crentes e bons cidadãos. Temos 25 milhões de muçulmanos na Europa com as maiores comunidades em França, Alemanha, Reino Unido e em Itália. Temos quatro milhões nos Estados Unidos.  Temos 275 milhões no Sudeste Asiático, com os maiores grupos na Malásia, Filipinas e Sul da Tailândia.

O mundo já não o que era e temos de aprender a viver com as novas realidades. Com inteligência mas sem pânico ou preconceitos descabidos.

 

Arnaldo Gonçalves
Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais