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      InícioOpiniãoA insustentável leveza da pulsão europeia para a colonização  

      A insustentável leveza da pulsão europeia para a colonização  

      A presidente da Comissão Europeia expressou o seu desejo de assumir mais responsabilidade e um “papel mais ativo” da Europa na região Ásia-Pacífico durante uma recente visita oficial ao Japão, no dia 12 de maio do corrente ano. Ursula von der Leyen qualificou a região do Indo-Pacífico como “uma região próspera”, mas igualmente “um teatro de tensões”.

      Tais declarações da alemã Ursula von der Leyen fizeram-me recordar certas premonições políticas da poeta Natália Correia, falecida em 1993, sobre o futuro da Europa, selecionadas no livro Botequim da Liberdade, de Fernando Dacosta (2013) designadamente a seguinte: “A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista“.

      E naturalmente que tais declarações me fizeram recordar também a China de ontem, a comunidade internacional e o Século da Humilhação na China. Na historiografia chinesa, entende-se por Século de Humilhação o período que vai de 1839 (isto é, desde o início da Primeira Guerra do Ópio) até 1949, ano da criação da República Popular da China.

      E ao falarmos do Século da Humilhação é incontornável relembrar, antes do mais, como foi criada a antiga colónia britânica de Hong Kong e a responsabilidade histórica que a Inglaterra teve num dos capítulos mais dramáticos da história chinesa. Mas não apenas da Inglaterra. É importante recordar também como a Europa no seu conjunto foi co-responsável na invasão da China e no apoio declarado ao tráfico de ópio para a China que, como refere Florek (2018), levou à devastação social; em algumas áreas costeiras até 90% das pessoas sofreram de dependência e miséria incalculável. As guerras do ópio submeteram a China à exploração imperial estrangeira e minaram a sua capacidade de se governar efetivamente e defender a sua independência. Tal resultou num longo período de agitação pontuado por fomes, revoltas e conflitos armados. O número de mortes, destruição e sofrimento humano é difícil de quantificar. E o tráfico forçado de ópio para a China abriu o caminho para o atual e insolúvel crime do tráfico de droga em todo o mundo, um problema de saúde pública e fonte de enorme desperdício de recursos, para além de ter implicado variados crimes de guerra, assim como saque de obras de arte que hoje se encontram nos principais museus da Europa.

      O historiador americano William Travis Hanes e o jornalista e escritor dedicado ao chamado historical revisionism, Frank Sanello, imaginam no seu livro The Opium Wars (2002). o cenário seguinte: o cartel de cocaína de Medellín, na Colômbia, monta uma ofensiva militar bem-sucedida contra os EUA, forçando-os a legalizar a cocaína, permitindo ao cartel importar a droga de cinco principais cidades americanas no valor de 100 mil milhões de dólares, sem vigilância e sem pagar impostos. É claro que tal cenário é absurdo e está para além da imaginação dos melhores escritores de ficção do mundo. No entanto, uma situação semelhante ocorreu não uma, mas duas vezes na China, durante o século XIX, respectivamente entre 1839 e 1842 e entre 1856 e 1860. Em ambos os casos, no entanto, em vez de bandidos colombianos traficantes de droga, foi a nação tecnologicamente mais avançada de então, a Inglaterra, o traficante de ópio que forçou a China soberana a tais condições.

      Na verdade, a Inglaterra impôs uma guerra e uma ocupação estrangeira à China por dois períodos de 4 anos cada porque entendeu, unilateralmente, pela força das armas, abrir o mercado chinês aos seus produtos, principalmente ao comércio do ópio, ocupando militarmente a área do rio Chángjiāng, vulgarmente conhecido por Yangtze, e a cidade de Shanghai, obrigando a dinastia dos Qing a assinar, em 29 de Agosto de 1842, o Tratado de Nanjing e a ceder a ilha de Hong Kong à coroa britânica e ainda um tratado complementar, o Tratado de Humen, em 1843. No fim da Segunda Guerra do Ópio, em 1860, a Inglaterra obrigou de novo a China a ceder também à coroa britânica o território de Kowloon, adjacente àquela colónia. Estes tratados foram, de resto, o início e o incentivo para que outras potências ocidentais e o Japão ocupassem parcelas do território chinês e obrigassem a China a assinar um conjunto de tratados desiguais com condições humilhantes para o país (Wang, 2008: 9):

      enjoying “unequal“ treaty relations with China were Britain (1842), the US (1844), France (1844),  Sweden / Norway (1847), Russia (1851), Prussia (1861), Portugal (1862), Denmark (1863), The Netherlands (1863), Spain (1864), Belgium (1865), Italy (1866), Austria (1869), Japan (1871), Brazil (1881), Mexico (1899) and Switzerland (1918). The most important features of the treaty rights ceded to foreign interests in China were low fixed tariffs, extraterritoriality, concessions and settlements (zujie), lease territories, and the non-reciprocal most-favored-nation clause (pianmuan zuihuiguo daiyil) found in many instruments.

      O Tratado Xinchou, de 7 de Setembro de 1901, como é conhecido na China, ou The Boxer Protocol como é designado na historiografia ocidental, poderá incluir-se no conjunto de tratados desiguais, sendo considerado por muitos autores como tal (Volodzko 2020 , Welsh 2016 e outros), isto é, um tratado igualmente desigual assinado entre a China e a Aliança das Oito Nações (Áustria-Hungria, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Japão, Rússia e Estados Unidos), com o apoio da Bélgica, Espanha e Holanda, após a tentativa mal sucedida da dinastia Qing de expulsar todos os estrangeiros dos citados países da Aliança do país durante a Rebelião dos Boxers (1900). A consequência da sua derrota militar frente aos exércitos estrangeiros resultou na continuidade da ocupação ilegal estrangeira de territórios ou concessões dentro da nação chinesa.

      Tivemos, pois, o superior magistério “moral” do império britânico subjugando uma nação inteira à custa do abominável comércio do ópio, que passou a circular e a ser consumido por todo o chamado País do Meio, cuja empresa Jardines, criada em Hong Kong por dois comerciantes escoceses em 1 Julho de 1832 e ainda activa na ex-colónia de Hong Kong, foi uma das mais importantes casas comerciais do negócio do ópio em Hong Kong. Este magistério “moral” foi designado por Fairbanks, o pai da sinologia americana, como “The most long-continued and systematic international crime of modern times, it provided the life-blood of the early British invasion of China” (Fairbanks 2008, 213).

      E, como escreveu Schiavenza (2013): “Since history is written by its winners, China’s ‘century of humiliation’ is self-serving to the Chinese Communist Party, and the country’s troubles did not end in 1949”. Contudo, a designação ‘humilhação’ da nação chinesa, como ainda afirma Schiavenza, não é inteiramente uma criação chinesa. De facto, num episódio relatado por Orville Schell e John Delury (2013) e também por Ringmar (2013), Scott (2008) e outros autores, durante a Segunda Guerra do Ópio, em 1860, o exército britânico apoiado pelo exército francês decidiu humilhar a pátria cultural chinesa e o seu povo, atacando o Palácio de Verão de Pequim, e saqueando também a cidade-capital, designadamente a Cidade Proíbida, acto designado por Ringmar (2013, op. cit.) “the liberal barbarism”.

      A experiência ocidental no Oriente parece não ser aquela dos valores que hoje em dia a Europa tanto repete à exaustão. A experiência foi sempre “miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação foi ser colonialista” (Natália Correia).

      Obviamente que para Ursula von der Leyen o que está em causa é uma colaboração ativa com os EUA e seus aliados na contenção da ascenção política, económica, comercial, tecnológica, cultural, etc. da China enquanto potência regional e internacional que, dentro de duas, três décadas será a grande potência mundial em todos os domínios do científico ao social, sem ter participado numa guerra desde 1953 (fim da guerra da Coreia). E a visita de Ursula von der Leyen vem inequivocamente afirmar isso mesmo: que a Europa é uma região política, económica e militar tributária dos EUA e da sua geoestratégia unipolar no Mar do Sul da China. Geoestratégia que, de resto, vem já de 1945, como referiu Tkacik (2007), quando o presidente americano Harry Truman inequivocamente também disse ao que vinha ao declarar que “uma China forte, unida e democrática” estava “nos interesses mais vitais dos Estados Unidos”. E acrescenta Tkacik que dois sem três não é o ideal para os EUA. Ou seja, até a China ser democrática, na conceção ocidental americana, o interesse mais vital dos EUA será manter e fortalecer a posição estratégica dos EUA no Pacífico Ocidental e Taiwan é essencial para essa estratégia.

      Com esta Journey to the East não há dúvida que a história parece querer repetir-se.

       

      Rui Rocha

      Investigador