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      Camões na literatura de Macau: o poeta e a gruta

      Na IX Reunião Internacional de Camonistas, Sara Augusto, professora da Universidade Cidade de Macau, explorou as representações do autor de “Os Lusíadas” na literatura do território em língua portuguesa, enquanto José Carlos Canoa, professor do IPOR, abordou as diferentes imagens da gruta de Camões, ao longo dos tempos.

       

       

      “É Luís de Camões, que o mundo espanta”, começa por citar Sara Augusto, no início da sua apresentação, referindo-se ao verso de Francisco Lopes, um dos poucos, que foi escrito enquanto o poeta português ainda era vivo, e que o elogiava. Mas quem é este “que fala e pinta tudo”?. Estava dado o mote para esta incursão da professora da Universidade Cidade de Macau, que acabou de lançar “Vasto Império do Coração”, uma antologia de escritos sobre o maior poeta da língua portuguesa, a partir da sua representação na literatura de Macau. A investigadora falou, na IX Reunião Internacional de Camonistas, um encontro que juntou estudiosos internacionais do poeta português, entre os dias 2 e 3 de Junho, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e na Biblioteca Nacional de Lisboa.

      Sara Augusto começou a sua apresentação por referir o “Delta Literário de Macau”, da autoria de José Carlos Seabra Pereira, onde é abordado o tema da presença de Camões no território. “Na verdade, já não há muitas dúvidas em relação a isto”, diz a académica, deslocando a questão para a presença literária. “Camões e Fernão Mendes Pinto [autor de “Peregrinação”] são referências míticas para a cultura literária de Macau.

      A passagem do poeta português pelo Oriente, nomeado para o cargo de provedor-mor dos defuntos e ausentes do território, “ganhou contornos míticos enquanto narrativa simbólica”. Na verdade, não se trata apenas do espaço físico, de que a actual gruta de Camões, local de romagem no dia 10 de Junho, Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, em Macau, é o “exemplo por excelência”, mas do poeta “como objecto de visitação literária”. No território, diz a investigadora, o poeta tornou-se um arauto literário e ganhou contornos míticos enquanto narrativa simbólica.

      Todas estas “memórias e símbolos” encontram-se nos textos, que Sara Augusto menciona. Por exemplo, o poeta António Couto Viana, que viveu largos anos do território e adaptou “Os Lusíadas” ao público juvenil, refere que, nos tempos que o autor “residiu naquelas regiões”, o poeta “passava muitas horas a trabalhar nesta composição [“Os Lusíadas”]”, numa gruta. “Que vigor, empenho e carácter devia ter Luís de Camões para não se deixar abater, nem pela adversidade nem pelos ardores de um clima ardente”, diz Sara Augusto, citando uma das passagens de “Os Lusíadas”.

       

      O mito da gruta?

       

      Pela história, muitos foram apontando Camões, aqui e ali. Por exemplo, viajantes, como Lord Macartney e José Inácio de Andrade, no século XIX, deram conta da famosa gruta, mas a investigadora destaca o escritor Almeida Garrett, no poema “Camões”, obra que é considerada a fundadora do romantismo em Portugal. “Faz a síntese da construção romântica” do poeta português, “longe das regras do poder e por elas atingido”, além de “infeliz no amor e morto na miséria”. A gruta é “o cenário das memórias invocadas pelo poeta e a identificação com o destino do poeta exilado”.

      No canto IV de “Camões”, Almeida Garrett, que nunca esteve no território, descreve “o pouso plácido solitário”, com uma gruta à entrada, em que “ali o poeta passou horas ditosas”.

      Acentua-se, assim, diz Sara Augusto, o mito camoniano, que se refere à idealização da figura e da obra de Luís de Camões, consagrando-se a concepção romântica do artista como “génio capaz de humanidade”, que “cantou em versos épicos”, homenageado como “grande homem das letras portuguesas”.

      A visita à gruta, entretanto, ganhou força, entre 1815 e 1835, quando Lourenço Caetano Marques recebeu a mansão, adjacente à gruta, como herança. Em 1849, financiou a colocação de um busto do poeta no interior da gruta, substituído em 1866 por uma nova versão em bronze encomendada a Manuel Bordalo Pinheiro. Em 1923, a célebre romagem [que costuma haver à gruta de Camões na celebração do 10 de Junho] foi oficializada pelo governador Rodrigo Rodrigues.

      A gruta é também referida em textos de Venceslau de Morais e Camilo Pessanha, em Macau, mas há outros. Por exemplo, a biografia do poeta, escrita por Teófilo Braga, em 1880, publicada na edição comemorativa de “Os Lusíadas”, no capítulo XIII, desenvolve a presença do poeta no território, optando por “uma imagem simbólica”, considerando que os poemas originais “não registam sequer uma alusão a Macau”.

      No livro da sua autoria, “Vasto Império do Coração”, Sara Augusto seleccionou ainda os textos poéticos de Bento Teixeira, com “reverenda comunicação que desperta tudo quanto se associa à memória do grande Camões e suave melancolia”.

      Outra fonte mencionada pela investigadora foi o trabalho de João Reis, que reuniu nas “Trovas Macaenses” a poesia publicada na imprensa de Macau desde a fundação do periódico Abelha da China até à década de 60 do século XX, com a revelação de alguns autores de Macau, como José e Francisco de Carvalho e Rego, além do padre Benjamim Videira Pires.

      Mas Sara Augusto interessa-se em particular pelo padre Manuel Teixeira, envolvido nas questões mais importantes relacionadas com Camões, em 10 de Junho de 1972, no quarto centenário da publicação de “Os Lusíadas”. Publicou um conjunto de poemas, entre os quais se destacam dois: “Glória a Camões” e “A Voz da Gruta”.

       

      Local e fonte de produção literária

       

      Dos lugares camonianos nasce ainda uma produção literária, refere a investigadora, com muitos escritores, conhecidos e desconhecidos, a tomarem o tema de Camões e da gruta para a sua escrita. É o caso, por exemplo, de Miguel Torga, que esteve pontualmente no território, para participar nas comemorações do 10 de Junho, assim como Sophia de Mello Breyner Andresen ou Alexandre Pinheiro Torres.

      Mas há vários que a investigadora menciona, como José Jorge Letria e Eugénio de Andrade. Um caso diferente é António Manuel Couto de Viana, que viveu apenas dois anos no território, mas envolveu-se verdadeiramente com a cidade. “Terá sido o poeta que mais estudou a matéria camoniana como tema poético em duas obras”, refere a académica. Entre os autores mais recentes mencionados pela professora, destaque para Carlos Morais José. “A poesia dele ocupa um lugar importante no diálogo com Camões”, diz.

       

      As representações iconográficas da gruta

       

      Depois da apresentação de Sara Augusto, seguiu-se José Carlos Canoa, professor do IPOR, que explorou as representações iconográficas da gruta, ao longo dos tempos, procurando o levantamento mais exaustivo possível de aguarelas, pinturas e gravuras a propósito do tema.

      O investigador fez uma espécie de roteiro iconográfico, referindo que muito do material existente, nestes anos iniciais, são dos desenhadores que acompanhavam as explorações, as missões diplomáticas e semi-científicas que se faziam na altura para o Oriente. Uma das primeiras imagens mencionadas pelo investigador foi retirada do trabalho de Luís Gonzaga Gomes e não tem data. “Vê-se aqui no centro um minarete no topo da gruta”, diz, referindo-se a “algo criado pelo homem adicionado à natureza”. Entre as imagens que se seguem, inclui-se ainda, de 1793, uma da autoria de William Alexander, artista britânico, em que se vê uma figura humana em cima de um banco de pedra.

      Começando com as representações mais antigas, José Carlos Canoa, no fim da sua apresentação, chega aos tempos de hoje, mostrando algumas imagens de artistas locais, como Victor Marreiros, responsável há mais de 30 anos pelos cartazes comemorativos, em Macau, para assinalar o 10 de Junho.

      A IX Reunião Internacional de Camonistas integrou-se nas comemorações do V centenário do nascimento de Luís de Camões.