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      Arrancou a 15.ª edição do Rota das Letras, ponto de encontro entre línguas, culturas e expressões artísticas

      Foi inaugurada ontem a 15.ª edição do Festival Literário – Rota das Letras. Ao longo das próximas duas semanas, o evento traz a Macau escritores, poetas, cineastas, músicos, actores e artistas visuais para um diálogo entre diferentes línguas, culturas e expressões artísticas.

      Arrancou ontem a 15.ª edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Até ao dia 15 de Março, a Casa Garden recebe este “ponto de encontro entre línguas, sensibilidades e expressões artísticas do Oriente e do Ocidente”, como descreveu o director do Festival, Ricardo Pinto. São 15 anos “de persistência, de partilha e de construção colectiva”.

      O Rota das Letras volta a trazer este ano “convidados de excepção”, “cuja qualidade e diversidade enriquecem cada sessão e nos recordam por que razão a literatura e as artes continuam a ser indispensáveis”. Entre eles, escritores, poetas, cineastas, músicos, actores e artistas visuais.

      Esta edição do Rota das Letras volta a ter uma natureza multidisciplinar, “com debates que provocam o pensamento, sessões de poesia que tocam a alma, filmes que nos transportam a outros mundos, concertos que nos fazem vibrar, exposições que desafiam o olhar e peças de teatro que nos confrontam com a nossa humanidade”, disse Ricardo Pinto no discurso proferido na cerimónia de abertura, aproveitando também para destacar a Casa Garden, cenário da edição deste ano, um “cenário histórico e belíssimo da Casa Garden, um lugar carregado de memória e de significado, que tão bem acolhe este cruzamento de vozes e de olhares”.

      Yao Feng, subdirector do Festival Literário, discursou em mandarim para assinalar a “longa e significativa jornada” que foram estes 15 anos de Rota das Letras. “Desde a sua criação, o Festival Literário de Macau tem-se mantido enraizado nesta cidade de rica herança cultural, crescendo gradualmente até se tornar um evento literário ímpar, reconhecido tanto em Macau como além-fronteiras”, afirmou o poeta e tradutor, acrescentando ainda que o Festival tem funcionado como “uma ponte sólida que liga os escritores locais de Macau aos talentos literários de todo o mundo”.

      “Macau, cruzamento histórico das civilizações chinesa e ocidental há séculos, testemunhou o intercâmbio e a fusão destas duas culturas, forjando um património cultural singular”, referiu Yao, conferindo ao evento um legado que usa a “literatura como língua universal para aproximar culturas diversas e realçar o papel único de Macau como uma plataforma fundamental para o intercâmbio cultural sino-ocidental”.

      O subdirector do festival observou também que, apesar de vivermos nesta “época varrida pela onda da inteligência artificial, que coloca novos desafios à criação literária”, a tecnologia “nunca consegue capturar a autenticidade da vida humana, penetrar nas profundezas da alma, transmitir o calor da humanidade ou o peso das vivências humanas”.

      “A imortalidade da literatura reside no facto de ser o ‘estudo do humano’, cujo cerne será sempre o coração humano que palpita. As alegrias e tristezas tecidas em palavras, as reflexões sobre a natureza humana que enchem cada página, comovem a alma apenas quando escritas por mãos humanas. Por mais rápida que seja a evolução tecnológica, o esplendor da literatura nunca se apagará”, comentou Yao Feng, deixando votos para que esta 15.ª edição do Festival Literário de Macau seja “uma jornada de ideias e inspiração para todos nós”. “Que nos conectemos através das palavras, troquemos experiências através do diálogo e reafirmemos a nossa fé na beleza e na verdade pela leitura”, concluiu.

      Carlos Morais José, também ele subdirector do Festival, igualmente assinalou as mudanças “vertiginosas” de hoje. “A tecnologia cresce geometricamente, ocupa espaços novos nas nossas existências e esvazia-as de sentido, desafiando-nos a encontrar soluções para um problema ainda não apresentado à humanidade durante toda a sua História conhecida: a nossa irrelevância”, disse na sua intervenção, notando que as palavras têm hoje “sentidos breves, efémeros, demasiado leves” e que “vivemos já longe do tempo em que recriavam o mundo, tinham peso e dignidade”.

      Para o poeta e editor, “é nas palavras e pelas palavras que a humanidade encontra ainda uma das suas especificidades: a capacidade de relatar o mundo e a nós próprios”. “Fazemo-lo, de forma irreal, mas por um momento certeira” e “de modo imperfeito, mas por vezes belo”.

      “A sua beleza não está apenas no modo como se faz, mas no mero facto de se fazer, na mera atitude de pretender traduzir em palavras o intraduzível e através delas explicar o inexplicável, quer se refiram ao cosmos quer se debrucem sobre o nosso mundo interior”, disse, sublinhando que “a literatura é o repositório desse acto desesperado de um animal capaz de relatar o mundo, mas ao mesmo tempo consciente da permanência do mistério”.

      Carlos Morais José afirmou, no seu discurso, que celebrar a literatura é “celebrar a nossa imperfeição, inconsistência e vacuidade, ou seja, o que nos faz ousar a criação de novos mundos nos interstícios de milhões de existências e nos dota de alguns laivos de beleza trágica”. “Celebremos então a literatura como se de apenas um imenso texto se tratasse e cuja escrita pretende estender-se ao infinito, espelhando nesse acto as grandezas e misérias da condição humana. É o que há para fazer”, terminou.

      À inauguração, seguiu-se uma visita guiada à exposição fotográfica de algumas obras mais emblemáticas do arquitecto José Maneiras, falecido em Novembro do ano passado.

      O Festival conta mais uma vez com o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura, Fundação Oriente, IPOR, Galaxy, Melco, MGM, Sands, SJM, Grupo Artyzen, Hotel Central e BNU, por exemplo. Na inauguração, estiveram ainda presentes, entre outros, Alexandre Leitão, cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kon, Amélia António, presidente da Casa de Portugal em Macau, e representantes do Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China em Macau e do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM.