Vietname tenta contrariar crescente protecionismo e afirmar-se como novo ‘tigre asiático’

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O Vietname está a crescer ao ritmo da deslocalização industrial da China, mas a permanência das empresas estrangeiras não está garantida, à medida que o aumento de custos e tensões comerciais ameaça economias intermédias.

“Daqui a 15 anos, esta fábrica estará no Camboja, Bangladesh ou Paquistão”, afirmou à agência Lusa Denis Almeida, gerente de vendas da brasileira JBS na Ásia, referindo-se à unidade de produção da empresa em Bien Hoa, a uma hora de Ho Chi Minh, a metrópole de quase 10 milhões de habitantes, situada junto ao delta do Mekong, um dos mais longos rios do planeta.

A advertência ilustra um dilema crescente enfrentado por economias intermédias como a vietnamita, cuja margem de manobra se estreita num contexto de rivalidade geopolítica, guerra comercial e novas barreiras ao comércio global. “Quando búfalos e bois lutam, quem sofre são os mosquitos”, diz um provérbio local citado pelo analista Nguyen Khac Giang, num artigo na revista The Diplomat. “O Vietname já não pode simplesmente ligar-se ao circuito com maior retorno”, explicou.

A nova vaga de protecionismo iniciada após o regresso de Donald Trump à Casa Branca, no início deste ano, ameaça o modelo económico que transformou o Vietname num dos maiores beneficiários da primeira fase da guerra comercial entre Estados Unidos e China, durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021).

A 2 de abril, o Presidente norte-americano anunciou tarifas de até 46% sobre produtos vietnamitas, acusando o país de servir como entreposto para a reexportação de bens chineses. Após negociações com Washington, Hanói aceitou um sistema de tarifas duplas: 20% sobre bens produzidos localmente e 40% sobre produtos de origem chinesa transformados no Vietname.

O impacto foi imediato: o índice de gestores de compras (PMI) caiu para 45,6 pontos em abril – o valor mais baixo desde a pandemia. Em setembro, voltou a ultrapassar a linha dos 50 pontos, sinalizando uma ligeira expansão das condições de negócio.

A resposta de Hanói passou por uma ofensiva diplomática liderada por To Lam, novo secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, incluindo encontros com o Presidente chinês, Xi Jinping, visitas à Rússia e à Ásia Central, e novos acordos comerciais com países como França e Tailândia. O Vietname está também prestes a inaugurar uma embaixada em Lisboa, sinalizando uma política externa mais ativa.

Em 2024, o excedente comercial com os EUA atingiu 104 mil milhões de dólares (89 mil milhões de euros), quase três vezes mais do que em 2017. A economia cresceu 7,09% em 2024, e o Governo traçou uma meta ambiciosa de crescimento anual de 10% entre 2026 e 2030, com forte aposta na indústria transformadora e energias renováveis.

No horizonte da cidade de Ho Chi Minh, os esqueletos de aço de arranha-céus em construção e torres de escritório envidraçadas anunciam o nascimento de um possível novo “Tigre Asiático” – termo utilizado para Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan, que registaram um acelerado crescimento económico na segunda metade do século passado.

Ao fim da tarde, milhares de motoretas entopem as ruas da cidade outrora designada Saigão, a capital do Vietname do Sul, aliado dos EUA durante a guerra. Tudo se serve ou se faz na rua – café, refeições ou barbearia – em cadeiras e mesas descartáveis, dispostas pelos becos, vielas e avenidas.

Com cerca de 110 milhões de habitantes e 70% da população em idade ativa, o Vietname continua a atrair setores de mão-de-obra intensiva, como têxtil, calçado ou mobiliário. O salário médio industrial duplicou na última década, mas mantém-se baixo: cerca de 350 dólares mensais (300 euros). Segundo os mais recentes dados do PISA, o Vietname ficou em 34.º lugar entre 81 países, com o segundo melhor resultado do sudeste asiático, atrás apenas de Singapura. “O Vietname tem um dos sistemas de ensino mais avançados entre os países em desenvolvimento e vai migrar rapidamente para setores de maior valor agregado”, previu Denis Almeida.

A fábrica da JBS em Bien Hoa é um exemplo da expansão industrial do país. Vestidos com uniformes azuis, os 750 operários da unidade da JBS Couros distribuem-se por 11 linhas de produção, numa área de 35 mil metros quadrados. Desde que foi adquirida pela multinacional brasileira, há dez anos, a produção multiplicou-se por onze, para mais de meio milhão de metros quadrados de couro por mês. “Vamos montar mais uma linha e acrescentar 90 mil metros quadrados à produção ainda este ano”, indicou Almeida. “Estamos a crescer no Vietname ao ritmo da migração da produção de calçado e mobiliário da China”.