“Tudo o que não nos destrói, torna-nos mais fortes.”
Friedrich Nietzsche
A relação pessoal e política entre Donald Trump e Xi Jinping não pode ser vista numa dimensão unívoca, pois apresenta uma complexidade que escapa ao primeiro olhar. Trump tem uma profunda admiração por líderes autoritários e isso explica a sintonia com Putin. A relação com Xi oscila ao longo do acidentado nas relações políticas e comerciais entre os países. Trump tem grande admiração por Xi e não desdenharia ter os poderes que este último concentra em razão do modelo hierarquizado do poder chinês e do monolitismo do sistema centrado no partido comunista. Trump exaspera-se com o facto de ter uma oposição que questiona a sua liderança e de ter de negociar no Congresso para as suas políticas poderem passar. Como se exaspera com os juízes que disputam as suas decisões. O processo de decisão chinês faz-se dentro do Politburo e não está aberto ao contraditório político.
Trump tem, no entanto, uma visão da função presidencial que é ditada pela sua experiência empresarial e pela prioridade dos resultados nas relações internacionais. Durante o seu primeiro mandato como presidente (2017–2021), Donald Trump adotou uma postura confrontacional em relação à China. Essa política reflectiu uma mudança significativa comparativamente à visão tradicional dos presidentes dos Estados, que priorizavam o compromisso diplomático e económico.
Um dos principais pilares da política de Trump em relação à China foi a guerra comercial iniciada em 2018. Alegando práticas comerciais desleais, como o roubo de propriedade intelectual e subsídios estatais, os EUA impuseram tarifas de muitas dezenas de milhões de dólares sobre importações chinesas. A China respondeu com tarifas próprias, o que desencadeou uma escalada de tensões económicas.
Além da dimensão económica, Trump também adotou uma retórica agressiva em temas relacionados com a segurança nacional. A sua administração impôs restrições a empresas chinesas como a Huawei, alegando riscos à segurança de dados e intromissão do governo chinês no mercado americano. Essas medidas fizeram parte de um esforço mais amplo para conter o avanço tecnológico da China e proteger a infraestrutura crítica dos Estados Unidos.
No campo militar e estratégico, o governo Trump fortaleceu alianças na região do Indo-Pacífico como forma de conter a crescente influência chinesa no Mar do Sul da China. Os EUA intensificaram exercícios militares com aliados como o Japão, a Austrália e a Índia, e reafirmaram o seu apoio a Taiwan, o que gerou fortes reações de Pequim.
Apesar da retórica agressiva, o governo Trump assinou a “Fase Um” de um acordo comercial com a China em 2020, que previa o compromisso chinês da compra de mais produtos americanos e garantir uma melhor protecção de propriedade intelectual. No entanto, o acordo teve um impacto limitado e não resolveu as questões estruturais que motivaram o conflito.
O segundo mandato
Desde o início de seu segundo mandato, em Janeiro de 2025, Donald Trump continuou a postura assertiva em relação à China, marcada por declarações e acções inspiradas nas tensões comerciais e estratégicas entre as duas potências. Logo após a sua posse, Trump impôs tarifas de 10% sobre todos os produtos chineses, justificando a medida como resposta ao suposto papel da China no tráfico de fentanil para os EUA. Em Fevereiro, essas tarifas foram agravadas até 145% sobre produtos chineses. Em retaliação, a China anunciou tarifas de até 15% sobre produtos norte-americanos, incluindo carvão, gás natural liquefeito, petróleo bruto, equipamentos agrícolas e veículos de grande porte.
Além das tarifas, Trump assinou uma directiva em Fevereiro que impõe restrições mais severas aos investimentos chineses em sectores estratégicos dos EUA, como tecnologia e infraestrutura crítica. A medida intenta proteger os interesses de segurança nacional, acusando-se a China de extrair informações industriais para desenvolver as suas capacidades militares e de inteligência. Em resposta, o Ministério do Comércio chinês criticou a decisão, afirmando que ela amplia indevidamente o conceito de segurança nacional e prejudica a confiança das empresas chinesas que desejam investir nos Estados Unidos.
Apesar das tensões, Trump tem sinalizado o interesse na abertura directa de negociações com Pequim. Em Janeiro, afirmou acreditar na possibilidade de um acordo comercial com a China e referiu uma conversa “amigável” com Xi Jinping, na qual discutiram questões como TikTok, comércio e Taiwan. Em Março, anunciou que Xi visitaria os EUA “num futuro não muito distante”, sugerindo esforços para aliviar as tensões. A visita de Xi Jinping a Moscovo em Maio poderá ser seguida de uma visita a Washington. Donald Trump favorece uma política externa baseada na lógica dos grandes poderes nas relações internacionais, o que é conhecido como realismo político ou realismo de poder.
A mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (United States’ National Security Strategy), divulgada em Outubro de 2022, identifica a China como o desafio geopolítico mais significativo para os EUA. O documento destaca que a China possui a intenção e, cada vez mais, a capacidade de refazer a ordem internacional em benefício próprio, utilizando o seu poder económico, diplomático, militar e tecnológico para esse fim.
Além disso, a estratégia reconhece que, embora a China represente um desafio significativo, é possível coexistir pacificamente e colaborar em questões globais, como mudanças climáticas e saúde pública. O documento ressalta que os EUA não buscam um confronto ou uma nova Guerra Fria, mas sim uma competição estratégica que evite conflitos diretos.
Dado o curto espaço de tempo decorrido desde a sua reeleição, a segunda administração Trump ainda não emitiu um documento oficial de revisão da USNSN. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, tem sido uma voz proeminente na implementação de uma política externa assertiva em relação à China. Durante a sua audiência de confirmação no Senado, Rubio descreveu a China como “o adversário mais poderoso e mais perigoso” que os Estados Unidos já enfrentaram, acusando o Partido Comunista Chinês de explorar os benefícios da ordem mundial sem cumprir suas obrigações, utilizando práticas como espionagem cibernética e roubo de propriedade intelectual para alcançar o seu estatuto de superpotência global à custa dos EUA.
Rubio enfatizou a necessidade de fortalecer as defesas de Taiwan para evitar uma “catastrófica intervenção militar” por parte da China, que reivindica a ilha como parte do seu território. Rubio argumentou que Washington deve demonstrar que qualquer ofensiva chinesa contra Taiwan teria um custo elevado, reforçando o compromisso dos EUA com a segurança da região.
É difícil antecipar em que direcção evoluirá a relação bilateral Estados Unidos-China, mas o desligamento do apoio americano à Ucrânia e a cordialidade de relações com Moscovo poderá facilitar uma relação mais racional e menos emotiva. A geografia pode facilitar essa tolerância mútua. China e Estados Unidos são considerados nações do Pacífico, porque ambos têm costas voltadas para o Oceano Pacífico e a geografia não se contorna ou afasta.
Arnaldo Gonçalves
Jurista e antigo professor de Ciência Política e Relações Internacionais











