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      InícioOpiniãoFukushima e o telefone do vento

      Fukushima e o telefone do vento

      A minha jornada a Fukushima, no passado dia 11 de março, no seio de uma delegação de Embaixadores da UE, revelou-se uma experiência que transcende a mera visita protocolar. Ao chegar de comboio-bala (shinkansen) a essa região do Japão, marcada pelo triplo desastre de 11 de março de 2011 – terramoto, tsunami e desastre nuclear -, não pude deixar de sentir o peso da história e a magnitude da tragédia que ali se abateu.

      Fomos recebidos pelo Governador Uchibori Masao, que nos guiou através do mercado central abastecedor da cidade, onde o pulsar da recuperação e o esforço contínuo para revitalizar a economia local são palpáveis. O almoço, partilhado em torno de pratos estritamente confecionados com peixe local, foi mais do que uma refeição. Representou um gesto de solidariedade, um reconhecimento da segurança alimentar e da qualidade dos produtos de Fukushima, numa altura em que a Europa já levantou as restrições ao pescado da região, em contraste com as que outros países ainda mantém, sem qualquer corroboração por dados científicos.

      A tarde foi reservada para uma visita ao memorial das vítimas. A presença do PM Kishida, vários outros altos dignitários, mas principalmente do belíssimo coro da Escola Secundária de Koriyama, conferiu ao momento uma solenidade que reforçou o compromisso coletivo para com a memória dos que partiram e a recuperação da região.

      Este dia, caros leitores, deixou-me num turbilhão de reflexões. Ao pensar na devastação causada – mais de 15.000 pessoas perderam a vida, a maioria das quais devido ao tsunami, 2.500 foram declaradas desaparecidas, e centenas de milhares foram deslocadas devido aos danos ou à radiação – a dimensão humana da tragédia tornou-se mais real. Lembrei-me do “telefone do vento”, uma cabine telefónica descomissionada, na cidade de Otsuchi (prefeitura de Iwate, nordeste do Japão e também severamente afetada pela tragédia), transformada num santuário de comunicação para aqueles que perderam entes queridos. Não é uma ligação literal, mas um meio para as palavras e saudades serem levadas pelo vento, alcançando aqueles que já se foram, oferecendo um espaço de conexão íntima no processo de luto

      Esta visita não foi apenas sobre solidariedade internacional; foi um encontro com a essência da humanidade, desde a nossa vulnerabilidade até à capacidade extraordinária de recuperação. Na aceitação dessa fragilidade compartilhada, e na nossa determinação por um futuro melhor, reside o verdadeiro fundamento para um amanhã esperançoso.

       

      Vítor Sereno

      Diplomata

      Texto originalmente publicado no Diário As Beiras