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      Virginia Woolf e o feminismo em destaque no último fim-de-semana do Rota das Letras

      A consciência revolucionária no feminismo da escritora inglesa Virginia Woolf, em foco no seu romance “A Room of One’s Own”, foi o tema que dominou as sessões do passado fim-de-semana do Rota das Letras – Festival Literário de Macau. Três figuras femininas, Agnes Lam e Zhu Ying, académicas, e a psicanalista Natalie Si, examinaram numa mesa-redonda o conceito da autora sobre a necessidade de um espaço livre e independente por parte das mulheres, bem como a procura da satisfação psicológica. Esta edição do Festival Literário encerrou no domingo, após dois fins-de-semana consecutivos com uma série de apresentações, lançamentos de livros, seminários, concertos e workshops, com participação de artistas e autores locais e de vários pontos do mundo.

      Foi com o projecto especial baseado na obra de Virginia Woolf, “A Room of One’s Own”, que encerrou a edição deste ano do Rota das Letras – Festival Literário de Macau. No passado fim-de-semana, realizaram-se sessões de debate, workshops e um concerto, em comemoração do 140.º aniversário da escritora inglesa, levantando também a discussão sobre a sua visão do mundo através da literatura feminina.

      Descrita como “pioneira da sua época”, Virginia Woolf fala nesta obra publicada em 1929 sobre a questão da desigualdade entre géneros e a necessidade de as mulheres serem independentes. Esta é uma ideia que, no entender de três académicas – Agnes Lam, Natalie Si e Zhu Ying – convidadas da mesa-redonda, é uma muito inovadora e corajosa, tendo em conta o seu contexto histórico.

      “A ideia é revolucionária. No início do século XX, numa sociedade patriarcal e com pressão colocada sobre as mulheres, Virginia Woolf tornou-se num ícone do feminismo”, começou por comentar Agnes Lam, professora actualmente a leccionar na Universidade de Macau.

      Nesta primeira sessão do projecto relacionado com Virginia Woolf, que decorreu na passada sexta-feira no Art Garden, a académica salientou também que o feminismo que está em discussão não é sobre a aversão ao sexo masculino, mas sim no sublinhar da ideia de que todas as pessoas conseguem ter “o seu quarto/ espaço/ lugar”, com a sua autonomia e espaço para se desenvolverem.

      O romance “A Room of One’s Own” é baseado numa série de palestras ministradas pela escritora nas instituições universitárias no Reino Unido, onde defendeu que “uma mulher deve ter dinheiro e um quarto só seu se quiser dedicar-se à escrita”.

      Agnes Lam disse que foi “impressionante” a leitura do ensaio, onde se conta ainda uma narrativa em que uma mulher universitária foi proibida de entrar na biblioteca sem a companhia de um homem.

      A académica frisou ainda a importância do pensamento crítico e autónomo e não “conviver como sendo apenas uma parte de outrem”. Já Natalie Si, psicanalista analítica, falou no evento sobre as implicações psicológicas nas obras literárias de Virginia Woolf, observando que “o quarto próprio” a que a escritora se refere é semelhante ao útero, onde os seres humanos absorvem nutrientes para crescer. “Precisamos de um espaço assim para a nossa vida. Durante o meu trabalho, encontrei muitas pessoas, particularmente mulheres, que se esquecem disso, de reservar um espaço para si mesmas, para pensar e enriquecer”, sublinhou. s

      A outra académica, Zhu Ying, professora da literatura e tradução na Universidade Politécnica de Macau, assumiu que a necessidade de um quarto só seu já não é apenas física, mas “do nível psicológico e espiritual”.

      “O romance foi concluído após a Segunda Guerra Mundial quando desmoronaram as velhas tradições e estruturas. A obra de Virginia Woolf inspirou a consideração sobre a posição e o estudo social das mulheres, estando a abraçar a modernidade”, asseverou.

      Ademais, Zhu Ying deu ênfase na ocasião à “fluidez de género”, conceitos encarados nas suas muitas obras, como também no romance semi-biográfico “Orlando”. A coexistência de dois sexos nos seres humanos corresponde ao estudo do psiquiatra suíço, Carl Jung, que classificou quatro elementos do espírito feminina nos homens e vice-versa.

      A psicanalista Natalie Si assinalou que o completo desenvolvimento pessoal precisa de uma ligação com os seus elementos femininos e masculinos. “Este é um processo pessoal e íntimo, não podemos procurar o que falta na parte de outrem, nem projectar a nossa exigência nos outros. Apenas o auto-desenvolvimento pode completar a nossa alma”, concluiu.

      O Festival Literário deste ano encerrou no domingo. Ao longo do último dia do festival recordou-se o II Raid Macau-Lisboa, que é agora tema de um livro de banda desenhada; Shee Va fez a apresentação de “Uma Breve História Cultural do Chá da China”, de Rui Rocha; João Rato e vários outros fotógrafos amadores do território mostraram o trabalho conjunto recentemente lançado, intitulado “Macau: My Story”; e a revista Halftone deu a conhecer a sua 4.ª edição, que inclui trabalhos de João Nuno Ribeirinha, David Lopo, Dinamene, Sofia Mota, Alina Bong e Barry Tsang.