A invasão da Ucrânia pela Rússia veio focar a atenção do mundo na Europa, numa reminiscência dos picos da Guerra Fria. Quatro décadas de tensão no seio do continente europeu, não esqueçamos, esvaneceram-se quase com a mesma rapidez com que caiu o Muro, em novembro de 1989, e se anunciou o “fim da História”. Os olhos da superpotência restante voltaram-se subitamente para outros cantos e os equilíbrios globais adaptaram-se a esta reorientação. Novas prioridades passaram à ordem do dia: Médio Oriente, terrorismo, China. Com o “Pivot to Asia” formulado pela Administração Obama, parecia estar consumado o afastamento da Europa do principal palco do xadrez mundial.
Se, como escrevi, a bárbara invasão russa veio reforçar a atenção dos EUA e de todo o mundo na Europa, revalidando velhas máximas e protocolos do século XX, não se espera, contudo, que esta situação seja perene. No concerto das nações, a China é o grande desafio (em todos os aspetos que este termo acarreta) dos Estados Unidos, e o Indo-Pacífico o palco último desta contenda. O que importa ressalvar é que este status não invalida, como poderia parecer, a importância crucial da Europa neste novo mundo. O afastamento que se antevia, abrupta e temporariamente suspenso pelas ações do Kremlin, não é senão um erro de cálculo e de perspetiva. Vejamos:
A União Europeia conta, entre os seus Estados Membros, 27 países com as mais variadas geografias, histórias e laços culturais. Destes, meia dúzia terá interesses, capacidades e mais-valias com que contribuir para qualquer estratégia para o Indo-Pacífico. A França tem 93% da sua Zona Económica Exclusiva – a maior do mundo – nos oceanos Índico e Pacífico, por via dos seus territórios ultramarinos. A região conta 1.5 milhões de cidadãos franceses e 8.000 dos seus soldados.
Outros, como os Países Baixos e, especialmente, Portugal, têm uma longa história na região, que nos dota de singular influência, conhecimentos e diplomacia. Por isso, ditam os nossos interesses que a Índia, a China e o Japão figurem proeminentemente na estratégia e política externa nacional. Com estes países entrámos em contacto há cinco séculos e partilhamos uma história comum; não é mais-valia despicienda na diplomacia do século XXI.
Donde, se nos quisermos preparar para o futuro, devemos olhar para esta região com a atenção e a dedicação que ela merece. Os próprios efeitos da guerra na Ucrânia e da pandemia mostram o quão dependentes estamos de cantos do globo que podemos, por descuido, ignorar.
O Indo-Pacífico torna-se, a cada dia, a realidade geopolítica e geoeconómica do momento. Dizem-me os dignitários que encontro e mostram-me os factos da situação que o centro de gravidade económico do planeta para aqui se desloca inexoravelmente. Seis membros do G20 estão no Indo-Pacífico e as rotas marítimas que ligam a Europa e o Golfo Pérsico ao Pacífico, através do Oceano Índico, do Sudeste Asiático e dos seus estreitos, são hoje pontos-chave do comércio internacional.
Desenha-se, aqui, a vanguarda da globalização, com os seus profícuos laços de cooperação, mas também a nefasta competição pelo poder. Não podemos, por isso, ignorar, também nós, uma região que, tendo-se por longínqua, é de facto muito próxima, especialmente de países como Portugal ou a França. Distanciarmo-nos desta zona é remetermo-nos à irrelevância global e esquecer as obrigações e os interesses que a nossa própria História nos incute.
Não me compete, aqui, delinear uma grande estratégia para a região. Mas os tempos urgem uma diplomacia nacional ativa, atenta, moderna e capacitada, em concerto com os nossos parceiros. Para começar, julgo necessário que essa diplomacia invista os necessários recursos e pensamento estratégico a uma zona do planeta onde se joga, hoje, o futuro.
Vítor Sereno
Diplomata
Texto originalmente publicado no Diário As Beiras











