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      Que o céu não nos caia em cima da cabeça!

      Na minha última crónica desta coluna, falei-vos do enorme aumento de actividades desenvolvidas na órbita da Terra, do aumento impressionante no número de lançamentos espaciais, bem como dos benefícios que estes nos trazem do ponto de vista de avanço da Ciência e Tecnologia. A discussão ficou pela metade, visto que faltou falar-vos do reverso da medalha. Infelizmente, este aumento de lançamentos e de objectos em órbita também acarreta efeitos menos positivos…

       

      Lixo espacial: Um problema crescente 

      O lixo espacial é um problema crescente e inclui desde pedaços de tinta, parafusos, até satélites inactivos ou mesmo módulos de foguetões. Em Janeiro de 2021 tínhamos aproximadamente 7400 satélites em órbita do nosso planeta, estando cerca de metade deles inactivos. Estimativas recentes apontam para a existência de cerca de 500 000 objectos com dimensões equivalentes a berlindes na órbita do nosso planeta. Este número aumenta para os 100 milhões se considerarmos objectos com dimensões de 1 mm ou menos.

      Visto que se podem deslocar a velocidades elevadas, todos estes objectos, mesmo os mais pequenos, são um potencial risco para satélites em actividade, missões tripuladas, ou até mesmo para novos lançamentos. Qualquer colisão poderá acarretar efeitos catastróficos, com potencial perda de vidas, arruinar dispendiosas missões, destruir equipamentos, para além de gerar ainda mais detritos espaciais (como demonstrado de maneira espectacular na inesquecível sequência de colisão no thriller espacial Gravity, de 2013, justamente galardoado com o Óscar para melhores efeitos visuais). Por outro lado, e apesar de pouco provável, a reentrada descontrolada na atmosfera de detritos de maiores dimensões é um risco para todos nós.

      Entre o aumento de objectos activos e inactivos das dimensões mais variadas, estamos rapidamente a caminhar para um cenário de falta de espaço nalgumas posições orbitais mais procuradas. Operadores de satélites precisam de ajustar regularmente as suas órbitas para evitar colisões, com mais de 3 200 incidentes de encontros próximos reportados por semana! Se não for resolvido, o cenário de aumento de colisões incontroladas, geradoras de ainda mais detritos, poderá tornar impraticável qualquer tipo de missões espaciais num futuro próximo. Os primeiros alertas vêm-nos desde a década de 1970, mas parece que só agora se começa a pensar em soluções concretas.

       

      Soluções à vista?

      Uma das melhores estratégias para reduzir o lixo espacial é claramente apostar na diminuição do número de detritos que geramos. O descontinuar do uso do vaivém espacial pela NASA foi um grande retrocesso nesse aspecto. Este veículo revolucionário era parcialmente reutilizável, mas foi definitivamente abandonado em 2011, após 135 missões. A falta de substituto contribuiu para um aumento de detritos espaciais. No entanto, os últimos tempos têm trazido novos desenvolvimentos de sistemas de lançamento reutilizáveis.

      Nesta nova vaga, o grande destaque vai para os pioneiros foguetões Falcon 9 da Space X que têm tido particular visibilidade mediática, apesar de alguns voos de teste sem sucesso. A reutilização de elementos, que incluem alguns dos componentes mais caros de qualquer lançamento espacial, está a baixar os custos de envio de cargas para o espaço e a impulsionar a entrada do sector privado. Também os lançamentos das rivais Virgin Galactic e Blue Origin têm alguns componentes reutilizáveis, estando ambas as companhias actualmente empenhadas a tentar reforçar esta faceta. Mais próximo de nós, a Agência Espacial Chinesa tem avançado também com os primeiros lançamentos experimentais de sistemas de lançamento reutilizáveis.

      Outro destaque vai para a grande prioridade actual no desenvolvimento de futuras missões espaciais é a implementação do conceito de utilização de recursos in situ (ISRU na sigla em inglês). Como o próprio nome indica, esta abordagem aposta no uso de recursos disponíveis no local, com redução do envio de materiais da superfície do nosso planeta. Esta aposta na sustentabilidade está ancorada numa tentativa de diminuir custos, visto que poderá reduzir o volume e peso de materiais incluídos em lançamentos ou até diminuir o número total de lançamentos necessários para assegurar a mesma missão. Os principais alvos para esta nova abordagem são missões mais complexas, tais como o pré-anunciado regresso humano à Lua com o estabelecimento de uma eventual base lunar, ou missões que envolvam uma viagem de regresso de Marte (quer se trate de retorno de amostras ou de uma eventual missão tripulada num futuro cada vez menos distante).

      Parte da dificuldade em resolver este problema deve-se às enormes diferenças entre os vários tipos de lixo espacial, o que implica que uma estratégia única não será viável para lidar com este problema. Temos actualmente vários sistemas de detecção e gestão de detritos em órbita, que permitem evitar danos maiores. Para remoção activa de detritos temos assistido a várias propostas alternativas, desde o uso de redes, lasers, esponjas, braços robóticos, ou até arpões. O sistema aparentemente mais promissor é o satélite japonês ELSA-D, lançado em Março deste ano. Este sistema piloto recorre ao uso de magnetismo para conseguir capturar e acumular detritos metálicos e parece ser um importante passo em frente.

      Sem descurar a enorme gravidade da situação actual, a aparente aposta em finalmente encontrar soluções para o lixo espacial é uma boa notícia. Esperemos evitar assim o cenário tão temido pelos simpáticos gauleses das histórias de Astérix e Obélix de que o céu nos caia em cima da cabeça…

       

      André Antunes
      Cientista

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