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      Associação recorre à música ‘soul’ para “animar a cidade num tempo difícil”

      A música ‘soul’ é um género musical popular que surgiu na comunidade afro-americana dos Estados Unidos nos anos 1950 e no início dos anos 1960, combinando elementos da música ‘gospel’ afro-americana, ‘rhythm and blues’ (R&B) e ‘jazz’. Uma associação recém-criada pretende utilizar este género de música para “suavizar” a inquietação e a frustração que sentimos nos tempos que correm.

      “O género pode originar a partir do século XVII, quando os escravos negros da região sul dos Estados Unidos faziam canções durante o trabalho nas plantações de algodão e outra música relacionada à sua fé religiosa ou espiritual”, começa por dizer ao PONTO FINAL Addison Wong, fundador e presidente da Macau Soul Music Association, para contextualizar a origem deste género musical.

      Olhando para os tempos correntes, Addison Wong refere que há um sentido de estarmos “presos num beco sem saída”, numa atmosfera “desanimadora, cheia de notícias tristes”. “Pandemia, conflito militar, é tudo triste. Queremos trazer a essência da música ‘soul’ a Macau com uma vibração positiva para encorajar e animar a cidade num tempo difícil”, diz o chefe da banda, defendendo que, para além da música, vão trazer também um “estado de espírito” para os presentes.

      A Macau Soul Music Association (MSMA) foi fundada no início de 2022. Tudo começou da sequência de um concerto de Natal intitulado “Winter Wishes”, realizado pela Macau Jazz Promotion Association em Dezembro do ano passado, onde Addison Wong foi convidado a fazer parte da equipa de organização. O músico revelou que, nessa altura, precisava de formar um grupo para interpretar canções ‘gospel’ no evento, e acabou por conseguir reunir um coro misto de amantes da música com 11 pessoas, designado por “Ocean Walker”.

      Marco Ng, vice-presidente e co-fundador da MSMA, fazia parte deste grupo de música evangélica e agora constitui a associação junto de Addison, considerando que “a música é algo contagioso”. “Nessa altura, ninguém estava familiarizado com este tipo de música, talvez apenas de ouvido, mas foi quase a primeira vez para todos nós. É uma espécie de música simplesmente inspiradora. Após esse concerto, decidimos criar uma associação no início deste ano, na esperança de podermos realmente promover este tipo de música e fazer mais concertos em Macau. Com isto em mente temos convidado mais pessoas à nossa volta para se juntarem a nós,” diz o cantor.

      Tendo vivido e tralhado nos EUA há mais de 16 anos, Addison, após a conclusão do seu curso de mestrado na Universidade de Oregon, dedicou-se à composição, arranjo, orquestração, instrumentação e educação musical no ensino superior. Para o compositor, existe uma grande diferença entre os EUA e Macau no âmbito da indústria musical, sobretudo no que diz respeito aos quadros técnico-profissionais. “Nos EUA, o desenvolvimento da tecnologia de música é mais maduro e avançado. Há muitos músicos de ‘jazz’ de qualidade, porque os norte-americanos são expostos a um bom ambiente musical desde pequenos. Quando voltei a Macau observei que era raro ver essa tecnologia de música adoptada, ou não era muito popularizado,” referiu o músico.

      Porém, Addison salientou que o território tem outras vantagens: “Também há muitas oportunidades em Macau, especialmente no período pós-epidemia, já que agora é mais difícil convidar músicos exteriores para visitarem o território, e os espectadores podem ser apanhados de surpresa com os talentos de Macau no campo da música”. “É nos desafios que nascem as oportunidades,” destacou com afinco.

      Para Marco, tradutor nos serviços públicos durante o dia e tenor no coro depois do horário de expediente, e após ter assumido o cargo de administração na associação, admitiu que não é fácil arranjar um equilíbrio entre a sua paixão e a vida quotidiana. “Em Macau, fazer o que se ama requer um grande esforço”, sendo necessário “sacrificar o tempo de descanso”. No entanto, considera que, no final, “tudo vale a pena”.

      Depois de vários meses de esforço, a associação já está equipada com 21 membros, já com alguma experiência, e irá organizar os seus primeiros concertos nos dias 9 e 10 de Abril no Centro de Arte Contemporânea de Macau – Oficinas Navais n.º 2, intitulado “Soul Concert 2022”, com o tema “Paz”, como resposta à guerra geopolítica que estamos a enfrentar e o apelo para um cessar-fogo humanitário.

      Addison, como director e teclista da banda musical, admitiu algumas dificuldades na organização do evento devido às questões de saúde pública. “O número de lugares nas salas de espectáculo foi efectivamente reduzido para metade. Também temos tido dificuldades em termos de patrocínios, provavelmente devido à epidemia, e muitas entidades públicas e privadas não são capazes de nos financiar”, lamentou.

      Não obstante das circunstâncias desfavoráveis, o músico mostrou uma atitude optimista, afirmando ter registado um resultado bastante positivo nas bilheteiras. “A falta de financiamento por parte das autoridades impulsiona agora os grupos artísticos a se esforçarem para exigir uma receita merecida através da comercialização de bilhetes”, apontou o dirigente, reiterando que “desafios e oportunidades coexistem”.