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      InícioOpiniãoGoa, rainha decadente do Oriente

      Goa, rainha decadente do Oriente

      O historiador Paulo Varela Gomes (“As igrejas dos católicos de Goa”, 2010) chamou-lhe “o descalabro da cidade de Velha Goa”, fenómeno que, a partir dos primeiros anos do século XVIII, ocorreu “como que de repente”. Foi “a demolição de Velha Goa, um dos mais extraordinários processos de desfazimento urbano da história, durante o qual uma cidade que fora uma das grandes metrópoles da Ásia foi deliberadamente desmantelada pedra a pedra pelos seus habitantes no decurso de dois séculos, o XVIII e o XIX, até não restar nada dela a não ser a dúzia de igrejas e conventos que lá vemos hoje”.

      O que ainda existe na Velha Goa, com efeito, não esconde esse desvanecimento. Pelo contrário. Até precisamente pela sua imponência, vetusta e algo obsoleta, aqueles edifícios que sobram apenas sublinham o seu desfasamento perante aquele abandono e o vazio que cresceu à sua volta.

      Como realça Varela Gomes, “um dos aspectos mais interessantes e significativos deste processo é que a destruição de Velha Goa se explica em grande medida pelo abandono da cidade pelos seus habitantes”. Foram os naturais da terra que saíram da cidade e “foram eles que nunca mais quiseram regressar, foram eles que desmontaram Velha Goa pedra a pedra, casa a casa”.

      Goa fixa-se, assim, como um símbolo por excelência da ascensão e do declínio do império português. Também por isso, a sua história é fascinante. E não faltam ironias, como quando, em 1960, um ano antes do (prenunciado) fim do Estado Português da Índia, foi publicado em Portugal, nas comemorações do V Centenário da morte do Infante D. Henrique, o livro “Goa – Rainha do Oriente”, uma resenha histórica, em português e inglês, assinada por Boies Penrose, autor dos Estados Unidos com gosto pelos livros e mapas antigos.

      Apesar da natureza apologética da obra e do contexto em que foi editada, há um capítulo sobre as “causas da decadência de Goa”. Não havia por que (ou como) evitar um tema que tinha séculos.

      O livro atribui “a decadência relativamente rápida e completa da outrora grande cidade” a um facto em especial: “a progressiva insalubridade do local, manifestada em epidemias cada vez mais frequentes e virulentas”. Cólera, disenteria, doenças venéreas, tifo, malária. “Durante o século XVII há notícias de repetidas epidemias, tendo havido em 1625 uma gravíssima peste, que quinze anos mais tarde reapareceu com virulência nunca vista. Durante estes anos, por conseguinte, a decadência e o despovoamento da cidade tornaram-se em calamidade”, observa Penrose.

      Como se não bastasse, “este lamentável estado de coisas foi agravado pela hostilidade dos holandeses que, tendo-se estabelecido no Oriente como antagonistas do monopólio português, agora bloqueavam Goa todos os anos a fim de cercear o comércio do porto e reduzir as forças da sua guarnição”. Sem forças para contrariar o cerco, a “capital ultramarina depressa se foi tornando numa cidade morta”. Literalmente, porque as epidemias não cessaram.

      A gravidade da situação levou os Vice-reis a mudarem a residência para Pangim, que viria a chamar-se Nova Goa, para onde se transferiram também governo e habitantes. “Assim desapareceu o espírito vital da própria Goa que a bem dizer se tornou numa cidade-fantasma, habitada quase exclusivamente pelas suas ordens religiosas”.

      O quadro era de tal maneira negro que Penrose sente a necessidade de lhe apor, no fôlego imediato, o relato dos “dias florescentes” da “outrora gloriosa” Goa, por James Talboys Wheeler, “burocrata-historiador” que trabalhava para o governo britânico da Índia: “O sol erguia-se todas as manhãs em Goa sobre cenas facilmente imagináveis. Os marinheiros e culis carregando e descarregando no rio; os lojistas atarefados expondo os seus artigos; os escravos trazendo água e as provisões do dia; o palácio do Vice-rei, rodeado de majestosos fidalgos fazendo e retribuindo rasgadas vénias”.

      Mas não eram raras – muito longe disso – as descrições menos abonatórias feitas por visitantes estrangeiros (uma das particularidades que Penrose destaca é que “não tenhamos descrição alguma de Goa feita por visitantes portugueses”).

      Talvez mais do que Macau, sobre a cidade da Índia não faltam escritos detalhados dos séculos XVI e XVII. Chegavam a Goa mercadores de todo o lado: Arábia, Arménia, Pérsia, Ceilão, Sião, Malaca, Java, China. O tráfico dominava a vida. Havia cavalos árabes (Goa era capital deste comércio), todo o tipo de especiarias e drogas, porcelanas, tecidos.

      Havia também, claro, escravos. “Tanto homens como mulheres, jovens e velhos, comercializados diariamente, como bestas”, escreve Jan Huygen von Linschoten (“Itinerário, viagem ou navegação para as Índias Orientais ou Portuguesas”, 1595), célebre geógrafo holandês que viveu em Goa entre 1583 e 1589, onde esteve ao serviço do arcebispo. Segundo Penrose, Linschoten deixou “o primeiro em data e possivelmente também em importância, dos relatos sobre Goa por testemunhas oculares”.

      Um dos retratos mais negativos de Goa e dos portugueses pertence a Jean Mocquet, francês, protestante, que chegou ao território em 1609 e serviu como boticário do Vice-rei. Os seus escritos fizeram dele um cronista dos “comportamentos cruéis e estranhos dos portugueses”, expostos como impiedosos e trapaceiros.

      “Assim que chegam às Índias”, denuncia Mocquet, os portugueses “chamam-se a si próprios fidalgos, ainda que não passem de camponeses e mercadores”. Além de adicionarem aos nomes as três letras de “Dom”, ainda os mudavam “para outros mais ilustres”. Havia quem o fizesse várias vezes.

      Na Índia, os escravos eram também encarregues de guardar as mulheres e as filhas dos fidalgos portugueses, cuja ciumeira era desmedida. As mulheres de Goa, garante Jan Huygen von Linschoten, eram “muito luxuriosas e nada castas”. Algumas, apesar de casadas, tinham “além dos maridos um ou dois soldados com quem se entregam aos prazeres”.

      Para a zelosa moralidade católica da época, as indianas eram a grande perdição. Em 1606, um Concílio Provincial considerou que “não há coisa que mais incite a sensualidade, que cantos, e bailes lascivos, e desonestos”, decretando, por isso, a proibição das escolas que “ensinem a cantar, a bailar, ou tanger moças”. Nas indianas, os prelados viam “a causa de se destruírem estes moradores e soldados em seus cabedais e na saúde”, também com graves prejuízos para o Estado.

      Em 1725, D. Inácio de Santa Tereza, Arcebispo Primaz do Estado da Índia, haveria mesmo de culpar a derrota das forças portugueses num combate devido à “inacção e frouxidão”, consequências de os soldados terem passado “toda a noite antes do embarque para aquela empresa” na companhia das “torpes bailadeiras gentias, serventes dos Pagodes, e escravas do Diabo”.

      Nesta história, para as mentes como a do Arcebispo, foram as forças do mal que venceram e provocaram toda aquela decadência. Outros talvez discordassem. E suspirassem: que vida boa era a de Goa.

       

      Hugo Pinto

      Jornalista