A guerra e a política: os meios e os fins

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Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a ordem internacional foi construída com base nos princípios de paz, da cooperação entre Estados e do respeito pelo direito internacional. A criação da ONU, os acordos de Bretton Woods e a Declaração Universal dos Direitos Humanos foram tentativas para dar uma estrutura a um mundo mais estável e previsível. No entanto, a lógica da evolução global e a natureza do homem seguiram caminhos que desafiam esses princípios, reflectindo os interesses nacionais, as disputas geopolíticas e dinâmicas económicas que fizeram ruir a estabilidade antecipada no pós-guerra.

A competição entre grandes potências, como a Guerra Fria demonstrou, pôs em destaque que a lógica dominante na vida internacional não é a da paz, mas sim a disputa pelo poder e por vezes o periclitante equilíbrio de poder. A rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética gerou conflitos por procuração, corrida armamentista e o desenvolvimento de estratégias militares que procuraram garantir vantagens sobre o adversário. Mesmo após o colapso do mundo soviético, a unipolaridade dos EUA não resultou numa era de paz global como anunciaram os seus teorizadores, pois novas ameaças, como o terrorismo e conflitos regionais, continuaram a desafiar o sistema internacional.

Os principais proponentes da unipolaridade norte-americana incluíram intelectuais e estrategistas como Charles Krauthammer, que inventou o termo “moment unipolar” nos anos 1990 e figuras como Robert Kagan ou William Kristol que defendiam o intervencionismo dos EUA no mundo para garantir uma ordem global liberal. A sua base argumenticia fundava-se na ideia de que, após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos eram a única superpotência capaz de manter a estabilidade internacional, promover a democracia e conter ameaças à segurança global. Sustentavam esses intelectuais que a manutenção da hegemonia norte-americana é essencial para evitar o caos multipolar e a ascensão de potências revisionistas como a China e Rússia, que intentam desafiar a ordem baseada em regras liberais.

A teoria da unipolaridade defendida por Robert Kagan e William Kristol fracassou devido a uma série de factores geopolíticos, económicos e militares que desafiaram a hegemonia absoluta dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, a crença que os EUA poderiam impor a sua ordem liberal-democrática, globalmente, encontrou resistências significativas, especialmente no Médio Oriente, onde intervenções como a Guerra do Iraque (2003) geraram instabilidade, desgaste militar e perda de credibilidade internacional.

Por outro lado, a ascensão de grandes potências, como a China e a Rússia, desafiou directamente a ideia de um mundo unipolar, promovendo uma ordem mais anárquica, com países de grande e média dimensão a competir pela influência. O fracasso da globalização nos planos americano e global, resultou no crescendo das desigualdades, na desindustrialização e enfraqueceu o consenso interno sobre o papel intervencionista dos EUA. Por outro lado, crises como a Guerra do Afeganistão, a crise financeira de 2008 e a polarização política interna entre democratas e republicanos mostraram os limites da capacidade dos EUA de sustentar uma posição hegemónica incontestável.

Além disso, as instituições internacionais, concebidas para garantir a paz e a estabilidade falharam sistematicamente em conter conflitos e assegurar a paz. O Conselho de Segurança da ONU, paralisado por interesses divergentes entre os seus membros permanentes e pela frágil liderança do seu secretário-geral raramente consegue minorar de forma eficaz as crises mais graves.

A aliança estratégica entre Donald Trump e Vladimir Putin que dá os primeiros passos trará profundas consequências na evolução da Europa, especialmente quanto à sorte da Ucrânia e à crise na NATO. Trump demonstrou repetidamente cepticismo em relação à Aliança Atlântica, ameaçando reduzir o compromisso dos EUA na defesa europeia e exigindo que os seus aliados aumentem os seus gastos militares. É previsível que Trump enfraqueça o apoio ocidental à Ucrânia, reduzindo o envio de armas e a assistência financeira e pressionando Kiev a aceitar um acordo absolutamente desfavorável com perdas territoriais significativas.

Tudo isto irá fortalecer a posição russa subvertendo a soberania ucraniana e criando condições para o rearmamento nuclear e convencional da Rússia com maior pressão sobre as nações, hoje parte da União Europeia, que são suas vizinhas. Além disso, a NATO enfrenta um dilema existencial, pois países europeus como Alemanha, França a Polónia, os Estados Bálticos e o Reino Unido terão de assumir maiores responsabilidades pela segurança regional, o que implica o rearmamento significativo de vários desses países, a criação de uma estrutura de coordenação da defesa comum dentro da NATO ou eventualmente fora. No longo prazo, o afastamento dos EUA da Europa poderá incentivar a Rússia a intensificar as suas ambições territoriais, explorando divisões dentro da União Europeia e da Aliança Atlântica.

Um cenário de insegurança crescente, poderá acelerar uma corrida armamentista na Europa e caso um país da NATO seja diretamente atacado, o princípio de defesa colectiva poderá ser testado, arriscando-se uma escalada que irá envolver vários países e transformar o conflito numa guerra regional de grandes proporções. Aparentemente fora deste dilema estratégico a China verá reduzida a sua capacidade de se apresentar como um terceiro polo do reequilíbrio de grandes poderes.

Desta forma, a evolução do mundo não segue um caminho regido exclusivamente pela lógica da paz, do direito e da cooperação. Em vez disso, é moldada por uma complexa interação entre poder, tecnologia e interesses nacionais, frequentemente resultando em instabilidade e novas formas de conflito. A ordem estabelecida no pós-guerra está prestes a ruir, exigindo adaptações constantes para lidar com um cenário internacional que se transforma de maneira imprevisível.

 

Arnaldo Gonçalves

Jurista e antigo professor de Ciência Política e Relações Internacionais

 

 

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“A ascensão de grandes potências, como a China e a Rússia, desafiou directamente a ideia de um mundo unipolar, promovendo uma ordem mais anárquica, com países de grande e média dimensão a competir pela influência”