Macau foi sempre território de uma literal conflitualidade simbólica. Basta atentar no óbvio, como as placas com os nomes das ruas, ostentando designações em português e chinês. São sínteses – rua a rua, capítulo a capítulo – das diferentes versões da história de Macau, história essa que é reclamada através de outros símbolos, outras representações, avultando, entre as mais evidentes, a arquitectura ou o urbanismo. A dimensão de conflito também lá está, óbvia: basta atentar na discórdia que é a justaposição típica do crescimento de Macau, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, e nos contrastes que daí advêm, nas contradições, desarmonias – absurdos, mesmo.
Essa dimensão de conflitualidade foi em tempos literal, mais do que simbólica – como acontecia quando a cidade estava muralhada e dividida entre a parte “ocidental” (geográfica e figurativamente), cristã, e o bazar chinês, distinções que sobreviveram à queda dos muros –, e tendeu a diluir-se na passagem das eras, dela resistindo apenas vestígios: sinais, representações. No fundo, marcas históricas que foram também, sucessivamente, sendo reclamadas e reapropriadas no presente, de algum modo prolongando e adquirindo novos sentidos no processo da tal literal conflitualidade simbólica.
Não houve, todavia, uma linear progressão que apontasse inexoravelmente o caminho do conflito para a sublimação do símbolo numa constante pacificação. Como toda a evolução, sobretudo a social, ela foi sinuosa e até feita de inversões.
Mas falar somente nas versões portuguesa e chinesa da história é redutor. Na realidade, há outros contributos, mais ou menos duradouros, mais ou menos devedores dessas duas matrizes principais.
Alguns, como os britânicos, por exemplo, deixaram marcas notórias na paisagem, edifícios que traduzem, simbolicamente, uma cultura e uma maneira de ser (a Casa Garden, o Cemitério Protestante). Para que esses sinais sobrevivessem, foi necessário um poderio económico dominador e sustentado. Outros negociantes que no seu tempo foram bem-sucedidos, como os arménios ou os parses, deixaram rastos menos resistentes – apagados para uns, esquecidos para outros. De certo modo, pode-se dizer que perderam na luta pela sobrevivência simbólica.
Os portugueses viram-se sempre como essencialmente diferentes dos outros ocidentais que andaram à cata dos “negócios da China”. Havia (há) razões para tal. Além de terem sido os primeiros europeus a lá chegar, por exemplo, também não fizeram guerra ao Império do Meio.
Essa distinção também significou que, como um todo, a comunidade portuguesa de Macau vivesse sempre acantonada, demarcada – por vontade alheia, a dos mandarins que mandaram erigir muralhas bem cedo na história do estabelecimento, mas também própria, como se se tivesse acostumado a esse confinamento, à segurança de uma guarda.
A essa circunscrição correspondia uma divisão territorial que se tornou, primeiro, a visão de dois mundos diferentes (materializada na linha de separação da cidade consoante a origem étnica e cultural), que chocavam um com o outro e implicavam proibições e castigos para a transgressão; num segundo e tardio momento, quando as barreiras começaram a ruir e a “cidade chinesa” alastrava imparável, imaginou-se uma convivência secular de amizade, quando o que havia era, sobretudo, uma utilidade de vantagens mútuas.
Como comentava, em 1997, o então deputado nomeado Joaquim Morais Alves, numa altura em que os nacionalismos e patriotismos despontavam em Macau (uma vez mais) de forma exacerbada, quase todos os que referiam essa amizade luso-chinesa eram portugueses, já que “os chineses raramente falam nisso”. Então, a história escrevia-se na pedra e os símbolos tornavam-se, novamente, literais – de uma existência palpável, física, compreendendo-se, deste modo, porque se entenderia que não havia espaço para uma estátua de Ferreira do Amaral em Macau.
Mas, tal como os símbolos, também o que se diz importa, de facto, e, por isso, são de sublinhar expressões como aquela que vai designando Macau como uma genérica “cidade latina”, ou que a caracteriza por uma “cultura predominantemente chinesa”, ou o tradicionalmente magro e vago parágrafo nas Linhas de Acção Governativa sobre o contributo da comunidade portuguesa e macaense.
Já não há – vai tão longe esse tempo – qualquer poderio económico. Em português, restam símbolos. Mas para que possam ser lidos e entendidos, é preciso mais do que saber uma língua; é preciso ter a consciência de que uma língua sem cultura de pouco vale; por outro lado, uma cultura sem história, sem passado, também pouco ou nada adianta. Nem simbolicamente.
Jornalista











