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      InícioOpiniãoUm mal que deixa de ser necessário

      Um mal que deixa de ser necessário

      É um privilégio que nada custa obter, que nada se faz por merecer. Basta apenas existir num tempo posterior. É daí que vem um prazer bem simples. Consiste em ler o que se escrevia, por exemplo, há uns cem anos, e constatar uma de duas coisas: como tudo mudou, como nada mudou. Num caso ou noutro, imaginar, depois, como seria a reacção dos antepassados autores se transplantados para o seu futuro, nosso presente, e verificassem como estavam redondamente enganados. Ou extraordinariamente certos. Há ainda que contar com os caprichos da infinitude e saber que, às vezes, basta esperar um pouco para o tempo dar a razão que antes tinha tirado, trocar ainda mais estas voltas. Fazer e desfazer prescientes. Na Macau de 2021, onde se desafia o que não há muito estava estabelecido de pedra e cal, é o que acontece.

      Lendo o documento da consulta pública sobre a alteração à lei do jogo, parece que ouvimos, lá no fundo, um rumor de contentamento vindo do além onde repousam os outrora estrénuos defensores das campanhas moralizadoras contra jogatinas e vícios quejandos, para quem a história de Macau reservou um lugar bem afastado do palco. Até ver.

      “É preciso extirpar o jogo, e não desenvolvê-lo”, escrevia, numa espécie de estribilho, o jornal A Pátria, em Janeiro de 1925. “É preciso sanear a atmosfera em que vivemos. É preciso dignificar este bocado de terra portuguesa, que os estrangeiros apontam como o Monte Carlo do Extremo-Oriente”.

      Até no apodo estes patriotas de então estavam longe de imaginar o que viria décadas e décadas depois. Não podia ser de outro modo: Las Vegas ainda nem sequer existia, tal como o jogo nos modos que haviam de fazer Macau a sua capital. Mundial.

      Isso mesmo mostram as estatísticas que o documento da consulta nos recorda, antes de chamar a atenção para uma verdade insofismável: “uma moeda tem duas faces”. Nem nos rios de dinheiro que correm pelos casinos se encontra uma só que prove o contrário.

      Os números, já se sabe, não dizem tudo, mas alguns contam histórias que nunca deixam de espantar. Depois da liberalização do jogo, o Produto Interno Bruto (PIB) de Macau aumentou de 58,8 mil milhões de patacas, em 2002, para 434,7 mil milhões, em 2019. Sete vezes mais, ainda assim menos duas do que cresceu o PIB ‘per capita’ no mesmo período, atingindo 660.903 patacas. “[Q]uanto às receitas totais do Governo, estas situaram-se apenas em 11,08 mil milhões de patacas em 2002, mas aumentaram para 133,5 mil milhões de patacas quando chegou ao ano de 2019. Nota-se que, ao longo dos últimos anos, os impostos de jogo representaram 70% a 80% do total das receitas arrecadas pelo Governo, enquanto as receitas de jogo ocuparam um peso de 55,5% no PIB”.

      Para a economia do território e das famílias, o jogo tornou-se mais do que “um pilar importante”. Fez-se centro absoluto.

      Não era difícil, mesmo no início do século XX, antever este desfecho. Já então a dependência do jogo era real. As contas públicas, ao fim de anos desavindas com a saúde financeira, era nas mesas de apostas que se equilibravam. Era (também) contra isso, todavia, que os opositores do jogo se insurgiam – contra a crescente impossibilidade de se encarar o futuro sem o jogo, sem monopólios, de criar “outras fontes de receitas livres de contingências”, como defendia, em 1909, o semanário Vida Nova. Mas nem as contingências nem os problemas, muito menos o jogo, desapareceram.

      Nos relatórios que enviavam para Lisboa, as autoridades de Macau peroravam sobre “um mal necessário”. Tornou-se comum, em diferentes épocas, ouvir-se dizer que a economia do território deveria assentar mais na indústria e no comércio. Com o passar dos anos, só foram mudando os exemplos do que fabricar ou vender. Até se esgotar a imaginação.

      Mesmo sem nunca ter deixado de ser “indesejável”, o jogo não se foi embora. “Como viveria, pois, Macau?”, perguntava um oficial da burocracia do Estado Novo, em 1965, sustentando que “a par do jogo, há a indústria hoteleira, de turismo, de transportes, o comércio e mil e uma outras pequenas actividades que definhariam sem o impulso do jogo”.

      Com as reticências que o puritano decoro pedia, aqui e ali fazia-se a vontade aos operadores e permitiam-se modernices nas salas de jogo. Quase sempre a custo e ao fim de muitos “requerimentos”, como foi o caso da aprovação da roleta. Mas, em geral, conscientes das dificuldades que os concessionários enfrentavam devido às sucessivas crises que afastavam os jogadores (Guerra Sino-Japonesa, II Guerra Mundial, conflitos nas fronteiras com comunistas, etc.), as autoridades revelavam-se sensíveis aos argumentos que reivindicavam maiores facilidades. Ficavam, assim, a zurzir sozinhos os difamadores da “cidade de vícios”, sempre fitos na denúncia do mal maior, e que levavam o Notícias de Macau a defender, em 1948, que se lhe pusesse um ponto final: “o jogo tem constituído, desde longa data, um dos alvos preferidos pelos nossos inimigos para os seus ataques contra a nossa cidade e, consequentemente, a sua eliminação era uma das medidas mais instantes do Governo da Colónia”.

      Quando se respondia aos moralistas — de fora e de dentro –, era com o dinheiro do jogo, como quando as suas receitas passaram, em 1952, a ser atribuídas à Assistência Pública. Mas ao mesmo tempo que se desviavam atenções, podiam anotar os mais cínicos, alargava-se a rede de dependências, do vício.

      A estratégia, todavia, não se alterou e o jogo foi servindo para tudo e mais alguma coisa, permitindo, como reconhece agora o Governo, “obter recursos financeiros suficientes para dar continuidade ao desenvolvimento de diversos empreendimentos de infra-estruturas, aperfeiçoando os regimes de acção social, implementando políticas sobre o jogo responsável e criando condições propícias para levar em diante o progresso das indústrias antigas e emergentes”.

      Dir-se-ia que o jogo se tornou “too big to fail”, mas já não será bem assim. Com a crescente integração, vai-se tornando difícil justificar a especialidade da Região Administrativa e uma sua determinada “maneira de viver”.

      De súbito, na Macau de 2021, em tempos de deveres supremos de “prosperidade comum” – necessariamente “moderada” –, alguém se apercebeu que “a desigualdade do desenvolvimento económico fez crescer, no seio da sociedade, valores utilitários, dependência excessiva da economia e do emprego no sector do jogo, entre outros problemas sociais que implicam o acompanhamento contínuo e a tomada de medidas de resposta por parte do Governo da RAEM, de forma atempada e proactiva”.

      Os das campanhas de há um século não podiam estar mais de acordo.

       

      Hugo Pinto
      Jornalista