Incomodidade europeia com a política chinesa

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A Europa vive dividida entre a vontade de uma unidade política com inúmeras fissuras e os desafios geopolíticos colocados por uma ordem internacional em reconfiguração. No que respeita à relação com a China três eventos marcaram essa desorientação: a cimeira UE-China de 24 de Julho de 2025, a reunião da Organização de Cooperação de Xangai em 31 de Agosto e a parada militar em Pequim no chamado dia de Vitória.

Titubeante quanto à posição relativa à guerra na Ucrânia, a Europa encontra enorme dificuldades em encontrar a postura mais ajustada aos reajustamentos na política externa chinesa.

Durante décadas a Europa olhou para a China como o “bom aluno” da economia de mercado, canalizando biliões de euros para o seu mercado interno, em ajudas ao investimento, à investigação e desenvolvimento, à promoção do estado de direito. Não percebeu que essa ajuda não teria retribuição e que Pequim olha para os seus interesses do ponto de vista da real-politik e não por pulsões solidárias.

Este país mudou significativamente com o relacionamento bilateral. Veja-se a assimetria na abertura dos mercados respectivos, o défice comercial para com a Europa favorável a Pequim. Em 2024 o défice comercial era de 305.8 mil milhões de euros, em 2025 de 320 mil milhões de euros  pronunciando uma clara tendência para o crescimento.

Procurando acautelar os interesses europeus a Comissão Van Der Leyen abandonou a postura de convergência com a China e em 2023 adoptou o que designou por uma estratégia de “descrisco”. Esta visava minimizar fragilidades económicas e dependências críticas em sectores como semicondutores, inteligência artificial e biotecnologia. Ao mesmo tempo tem tentado criar mecanismos de avaliação do risco e protecção de tecnologias europeias sensíveis, designadamente com potencial uso militar as chamadas tecnologias de uso dual.

Na cimeira de Julho de 2025, a divergência entre os dois parceiros foi notória.

Desagrada com o défice comercial a disparar e com práticas comerciais que designou por “desleais”, a União Europeia exigiu a tomada de medidas por Pequim para corrigir os desequilíbrios persistentes. Oito meses depois está para se ver se essas exigências têm um eco efectivo nos decisores.

Na Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai de Agosto de 2025, em Tianjin, foi notária a subserviência de Vladimir Putin, Narenda Mondi e os outros líderes do mundo não-ocidental a Xi Jinping.

A posição de apoio expresso de Pequim à política externa russa constitui um reajustamento, de enorme significado, na tradicional política de neutralidade face às grandes potências e aos conflitos em que estas estão envolvidas. Recordo a guerra na Ucrânia, o conflito com a Venezuela e mais recentemente as operações americano-israelitas contra o Irão, um tradicional aliado de Pequim e grande fornecedor de crude e outras matérias-primas essenciais ao sector energético chinês.

A China é já o maior comprador de energia da Rússia, o comércio sino-russo disparou e Pequim exporta para a Rússia semicondutores, drones e componentes electrónicos de uso “dual” que Moscovo usa na guerra. A “Parceria Estratégica Abrangente de Coordenação para uma Nova Era” concertada em Maio de 2025 entre os dois poderes pouco difere das alianças tradicionais do século XX, embora Pequim se apresse a dizer que não é uma aliança contra ninguém mas uma parceria de cooperação reforçada.

No desfile militar de 3 de Setembro, em Tiananmen, foi notória a proximidade a afabilidade entre os dois líderes russo e chinês e nalgumas capitais mundiais essa sintonia e a solenidade da parada militar fez lembrar outros eventos que ensombram a memória da Europa do século XX.