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      Verdes anos

      São cenas que evocam imagens e recordações (para quem as tenha) de outros tempos. Por estes dias de fronteiras fechadas e circulação restrita, as praias de Coloane voltam a encher-se. Não apenas de crianças, que essas são devotas e assíduas presenças, com ou sem pandemia; eis também o “kwai lo” estendido ao sol sem receio de conspurcar a toalha na areia preta. Provavelmente a sonhar com a areia branca da Tailândia e águas mais cristalinas. Mas leva livrinho e tudo. Tarda nada e lá está o pôr-do-sol, que, desde que nasce, é realmente para todos. E assim se volta atrás no tempo. A outros, mais verdes, anos.

      Rebanhos passeavam pela cidade, jogava-se à bola naquilo que é hoje a Avenida de Horta e Costa, e apanhava-se barco para as praias de Coloane.

      Os horários dependiam das marés. Devido à baixa-mar, as lanchas chegavam a ficar oito horas à espera de desencalharem. Mas era tempo bem passado, conta Leonel Barros numa das suas muitas crónicas sobre tempos idos e, hoje, praticamente sem memória.

      Nesses anos 1930 e 1940, as viagens entre Macau e as ilhas eram feitas entre cantorias à viola, jogos de cartas e histórias de pescadores. Sem esquecer o farnel: das indispensáveis conservas às mais trabalhosas costeletas panadas com arroz “chau chau”. No regresso, bolinhos típicos da Taipa ou peixe de Coloane.

      Mas quem não se queria meter em aventuras podia também ficar-se pela península e veranear a dois passos do centro da cidade, nas praias do Porto Exterior.

      Hoje só é possível imaginá-las ali desde o local onde ainda existe o Hotel President (que costumava ter um “e” final) até à zona daquela que é a última curva do circuito da Guia, em tempos conhecida como curva “Rothman’s”.

      Em bambu, as barracas de banho eram montadas ao longo da marginal. Algumas tinham dois andares, vestiários, salinhas e quartos onde famílias passavam o fim-de-semana.

      Chegavam a ser mais de meia centena. Parecia aldeias de palafitas. Começavam a ser construídas nos finais de Abril, princípios de Maio, e só eram desmontadas (retiradas as coberturas e paredes de esteira) nos inícios de Outubro, isto se um tufão não tratasse antes do caso.

      Entre as barracas havia também os inevitáveis estabelecimentos de comida e de clubes desportivos, que organizam provas de natação e de polo aquático.

      Tinha havido, no entanto, uma vida anterior destas “barracas de banho”, noutra área hoje improvável para servir de zona balnear de excelência: a Areia Preta, antes dos aterros e da urbanização.

      A cidade foi-se transformando e as barracas foram resistindo, a custo, ao progresso, como contava Cecília Jorge, já em 1990, nas páginas de “O Clarim”.

      O assoreamento das águas do Porto Exterior e, depois, as obras para a construção do terminal marítimo “engoliram a marginal empedrada, o muro em declive, onde carros e bicicletas estacionavam, simplesmente para se apanhar um pouco de ar fresco da noite e ver as estrelas, ouvir o ‘hit parade’ e o ‘request’ da Rádio Vila Verde, num exercício de acalmia antes de recolher a casa”, recorda a jornalista macaense. “Era o ‘t’au leong’ (descanso-frescura) de inspiração chinesa que os macaenses absorveram”.

      A modernização trouxe novos passatempos, modos de diversão (lanchas, skis aquáticos), e novos hábitos. Com o início das carreiras marítimas regulares para as ilhas, e, depois, com a abertura da primeira ponte entre Macau e a Taipa, as praias de Cheoc Van e de Hac-Sa começaram a atrair cada vez mais pessoas.

      Hoje, quando Macau volta a ser uma cidade limitada à sua pequenez, como outrora acontecia, redescobre-se o evidente anseio pela natureza que vai faltando.

      Os jardins, os parques, os trilhos, as praias, as piscinas, tudo parece cada vez mais escasso perante a população que cresce e a mobilidade que diminui.

      Basta visitar, na península, o Jardim da Flora e subir à Colina da Guia. Lá andam, desde manhã cedo, os amantes da corrida e os fotógrafos de mira apontada às flores que despontam entre o chilrear dos pássaros e o coaxar das rãs.

      Para muitos, a carência de espaços verdes e de um interior, um escape à cidade, vai sendo obviamente compensada pelo Continente. Com o progressivo alargamento dos horários nas fronteiras, uma crescente fatia da população ganhou o hábito de se mudar para o outro lado da fronteira por temporadas cada vez maiores.

      Mas com a circulação a ser uma das grandes vítimas da pandemia, ficaram, ainda, impossibilitadas as viagens até ao Japão ou Taiwan, dois dos destinos favoritos dos residentes de Macau que procuram a natureza que Coloane simplesmente não pode oferecer.

      Na prática, todavia, não há concorrência possível. Não há alternativa. Nem conta Lantau, a grande ilha de Hong Kong, ali ao lado. Interdita.

      Sobra o contentamento das memórias. Já não é pouco.

       

      Hugo Pinto
      Jornalista

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