Roleta-russa em Macau: Dobrar a aposta no mesmo número

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Participei recentemente num estudo sobre o perfil futuro dos jogadores de casino. As conclusões são claras: as novas gerações já não jogam como os seus pais ou avós. Há décadas que Macau assenta a sua economia no jogo de casino físico, com resultados que estão à vista. Mas os tempos mudam, e com eles mudam os comportamentos das novas gerações. Estou certo de que estas mudanças não passaram despercebidas a quem tem a responsabilidade de pensar o futuro de Macau. É precisamente por acreditar que sim que me atrevo a partilhar algumas reflexões.

Estudos recentes – como o US Q3 2025 Gaming Report, divulgado pela TransUnion em Setembro de 2025 – mostram que a Geração Millennial (nascidos entre 1981 e 1996) e a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) se comportam de forma radicalmente diferente das anteriores. Nos Estados Unidos, os Millennialsaumentaram a actividade de jogo em todas as modalidades, com crescimentos homólogos de 9% em casinos físicos, 7% em casinos online e 11% em lotarias online. Estes números, embora circunscritos à realidade americana, funcionam como um barómetro: as tendências que revelam chegam, mais cedo ou mais tarde, a outras geografias – incluindo Macau. E o padrão dos Millennials é peculiar: preferem sessões mais curtas e apostas mais altas em jogos de mesa, revelando uma mentalidade de “especuladores” que também investem em criptomoedas e procuram retornos rápidos.

A Geração Z, pelo contrário, tem um perfil marcadamente digital: o envolvimento em casinos físicos caiu 6% num só ano, enquanto as apostas desportivas online cresceram 7%. Para estes jovens, o ecrã do smartphone é a nova porta de entrada para o jogo. Há, no entanto, uma nota de cautela: a dívida mensal desta geração aumentou 27% em termos homólogos, superando largamente a inflação (6%) e o crescimento salarial (8%). Ainda assim, emerge um dado contra-intuitivo: embora a Geração Z esteja a abandonar os casinos físicos, a sua participação global no jogo mantém-se forte (34%), ainda que estritamente concentrada nas apostas desportivas online. Por outras palavras, não é que os jovens estejam a abandonar o jogo. Estão é a abandonar o modelo de jogo de Macau. O problema não é o produto, mas o canal.

Não se trata apenas de números abstractos. Em Las Vegas, o número de visitantes caiu 7,5% em 2025 – a maior quebra anual desde 1970 – ainda que a receita do jogo tenha atingido um novo recorde histórico de 15,8 mil milhões de dólares americanos (cerca de 127 mil milhões de patacas). A chamada “crise de identidade” perante a indiferença das gerações mais jovens é apontada como uma das causas. Em Macau, o próprio governo reconhece que os turistas mais jovens gastam menos e procuram experiências diferentes. Académicos locais – como Patrick Lo e Eve Ren, da Universidade de Turismo de Macau – têm vindo a sublinhar que as atracções não relacionadas com jogo são hoje cruciais para estabilizar o fluxo de visitantes.

Noutras paragens, os governos vão aprendendo da forma mais dura. A Suécia aumentou o imposto sobre o jogo online (que incide sobre a receita bruta) de 18% para 22%. E viu a chamada “taxa de canalização” – a percentagem de jogadores que optam por operadores licenciados – fixar-se entre 72% e 82% nos casinos online, muito abaixo da meta oficial de 90%. Isto significa que cerca de um quarto dos jogadores suecos está hoje em plataformas não licenciadas, fora de qualquer controlo regulatório ou fiscal.

E a China continental? Enquanto Macau se concentra naturalmente no seu negócio principal, a China tem vindo a construir, discretamente, um ecossistema impressionante em torno dos e-sports – competições profissionais de videojogos que enchem estádios e atraem milhões de espectadores online. O mercado chinês de e-sports deverá ultrapassar os 300 mil milhões de renminbi (cerca de 351 mil milhões de patacas) em 2026, com um efeito de arrastamento sobre o turismo e o comércio local estimado em cinco a oito vezes o investimento inicial. Mas a China não está sozinha. Os Estados Unidos, o maior mercado mundial de e-sports, contam já com mais de 72 milhões de espectadores regulares. Ou seja, as duas maiores economias do planeta estão a investir maciçamente na economia digital do entretenimento. Também Hong Kong já percebeu o potencial: em Novembro de 2025, acolheu o BLAST Premier Hong Kong Rivals, um grande evento de e-sports que atraiu 30 mil espectadores ao longo de três dias e gerou 26 milhões de visualizações globais – um sinal claro de que se está a posicionar activamente neste mercado em crescimento.

Quando um grande torneio se realiza numa cidade chinesa, não é apenas um evento desportivo que acontece. É uma ponte entre o entusiasmo digital e a presença física. A final da King Pro League de 2025, realizada no Bird’s Nest em Pequim, esgotou 60 mil bilhetes em apenas 12 segundos. O caso do jogo Black Myth: Wukong é paradigmático: com 20 milhões de cópias vendidas, a recriação digital que faz de 27 locais históricos da província de Shanxi aumentou o turismo jovem na região em 27%, gerando 166 milhões de renminbi (cerca de 194 milhões de patacas) em receitas de bilheteira dos monumentos. As pesquisas online por “turismo em Shanxi” aumentaram 3.178% após o lançamento do jogo. É exactamente este o tipo de entusiasmo jovem que Macau deveria aprender a captar.

Xangai é considerada a “capital chinesa dos e-sports”, mas outras metrópoles – Pequim, Chengdu, Guangzhou e Hangzhou – disputam activamente esse título, traduzindo essa ambição em políticas públicas concretas: fundos de apoio, infraestruturas, isenções fiscais. O sector já emprega centenas de milhares de pessoas em novas profissões – organizadores de eventos, analistas de dados, gestores de comunidades online – e mais de uma centena de universidades chinesas oferecem já cursos superiores na área dos e-sports e dos videojogos.

Em Macau, há quem defenda que o caminho é outro. Zeng Zhonglu, da Associação para os Estudos sobre o Jogo da Ásia Pacífico, escreveu recentemente no Macau Daily que o futuro da RAEM passa por atrair “high rollers” e jogadores do segmento “premium mass”, não o turista jovem de baixo consumo. É uma visão legítima. Talvez os dois caminhos se cruzem: quem sabe se os jovens de hoje, cativados por experiências positivas em Macau, não virão a ser os high rollers de amanhã? Ou talvez não.

O que talvez valha a pena pensar não é um plano completo e fechado, mas algumas direcções possíveis. Umas mais simples, outras mais ambiciosas.

A curto prazo, podia aproveitar-se a infraestrutura hoteleira e de espectáculos de Macau para acolher torneios de e-sports, construindo uma indústria local que fale a linguagem das novas gerações. Ou explorar eventos híbridos – torneios online com finais nos casinos – que respondam à procura dos jovens por experiências imersivas e partilháveis.

A médio prazo, e reconhecendo as dificuldades políticas, talvez se pudesse iniciar uma discussão serena sobre se um regime de jogo online licenciado, associado aos casinos físicos, não seria preferível ao actual mercado paralelo, sem controlo nem tributação. A ideia esbarra na posição restritiva da China continental sobre o jogo online, que Macau não pode ignorar. Mas a questão mantém-se: será o modelo actual – que proíbe oficialmente o jogo online mas tolera um florescente mercado paralelo – verdadeiramente mais virtuoso?

Macau tem, reconhecidamente, uma vantagem única: a marca “Macau” é, em si mesma, sinónimo de jogo a nível global. A questão é como rentabilizá-la junto das novas gerações, que a conhecem de nome mas não sentem qualquer atracção natural por visitá-la.

Durante décadas, Macau foi um ovo de Colombo: uma proeza de equilíbrio que transformou um pequeno território na capital mundial do jogo. Esse equilíbrio, porém, assenta num modelo – o jogo presencial – que a nova geração vê com indiferença. Na roleta da economia global, Macau tem apostado sempre no mesmo número: o casino físico. Até agora, a banca tem pago. Mas a roleta-russa não perdoa apostas repetidas – mais cedo ou mais tarde, a bala encontra o seu alvo. Depois de ter sido ovo de Colombo, arrisca-se Macau a tornar-se apenas memória? Ou terá a capacidade de se reinventar?

Não tenho a resposta. Mas creio que a pergunta merece ser feita. E, já agora, discutida. Por todos nós.