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      Palestra apresenta a riqueza das “Macau Trade Paintings” como nova categoria nas artes

      Um conjunto único de cerca de trezentas pinturas, criadas entre o final do século XVIII e meados do século XIX, está a ser estudado como uma categoria artística distinta: “On Macau Trade Paintings”. Numa palestra organizada na Fundação Rui Cunha, a Professora Cristina Osswald vai explorar esta produção transcultural, que combina influências, artistas e clientelas ocidentais e chinesas para retratar a vida e a paisagem de Macau numa era de intercâmbio global.

      Há cerca de 300 anos, enquanto Macau se afirmava como um entreposto vital no comércio entre a China e o mundo, um conjunto notável de quase trezentas obras de arte começou a documentar a sua transformação. Estes trabalhos, agora categorizados academicamente como “On Macau Trade Paintings”, constituem o foco de uma investigação profunda que será partilhada numa palestra aberta na Fundação Rui Cunha no dia 28 de Janeiro, pelas 17h30.

      A investigação, conduzida pela Professora Doutora Cristina Osswald, especialista em História da Arte Global com enfoque na Ásia, debruça-se sobre um corpus de aproximadamente trezentas obras produzidas num intervalo temporal relativamente curto, entre o final do século XVIII e meados do século XIX. Ao contrário das mais abrangentes “China Trade Paintings”, esta produção centra-se especificamente em Macau e na região do Delta do Rio das Pérolas.

      Os suportes e técnicas são diversos, incluindo óleo sobre tela, aguarela, guache e, em menor escala, pinturas em vidro reverso e as tradicionais pinturas chinesas em arroz. Os temas capturados são um testemunho visual único da época. Vistas dos portos e da baía, paisagens rurais, rituais religiosos, o quotidiano da população multiétnica e os primeiros indícios de Macau como destino turístico internacional.

      A singularidade destas obras, segundo a Professora Osswald, reside no seu carácter intrinsecamente transcultural. Emergiram de encomendas de patronos ocidentais (raramente portugueses) e, posteriormente, também de clientes chineses e de outras origens asiáticas. A sua criação envolveu pintores ocidentais, maioritariamente amadores residentes ou de passagem por Macau, que por vezes trabalharam em conjunto com pintores profissionais chineses e suas oficinas.

      Esta colaboração resultou numa fusão de técnicas, materiais e perspectivas. As pinturas reflectem a administração portuguesa de Macau, a presença de ocidentais no contexto do Sistema Comercial de Cantão e o panorama cultural chinês mais amplo. Compreender esta produção exige, portanto, uma estratégia de investigação multidisciplinar que integre ferramentas da literatura, sociologia e história económica.

      A palestra, que será conduzida em inglês, oferece uma perspectiva de como esta produção artística periférica, nascida numa zona de contacto entre Oriente e Ocidente, rapidamente entrou em circuitos artísticos internacionais. As obras foram expostas publicamente, coleccionadas de forma privada e leiloadas nas principais casas de leilões desde a sua criação, constituindo um caso de estudo específico no campo das artes globais.

      A Professora Cristina Osswald, actualmente a leccionar na Universidade Politécnica de Macau, é investigadora principal de um projecto trianual sobre “Artes e Arquitectura Globais durante a Dinastia Qing”. A sua vasta investigação sobre arte jesuíta na Ásia inclui ter sido consultora histórica para o filme “Silence”, de Martin Scorsese, sobre jesuítas no Japão.