Perspectivas sobre os acontecimentos na Ucrânia

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O arco completo dos acontecimentos na Ucrânia pode ser visto tanto do ponto de vista racional como emocional. De uma perspectiva racional, estes acontecimentos estão mais relacionados com o confronto entre grandes potências sob a influência da mentalidade da Guerra Fria, conflitos geopolíticos, preocupações de segurança e potenciais alterações à actual ordem internacional. De uma perspectiva emocional, os acontecimentos na Ucrânia trouxeram um sofrimento incalculável e irreversível aos indivíduos, famílias, sociedade e humanidade em geral em termos de direitos humanos, segurança, saúde mental, emoções e bem-estar social. Tanto os eventos directos do conflito Russo-Ucraniano como os eventos paralelos influenciaram a nossa forma de pensar, e não só nos permitiram compreender e analisar de forma mais abrangente a situação actual e potenciais tendências futuras, como também geraram sentimentos humanistas crescentes e sensibilidade aos valores socioculturais actuais em estudos comparativos posteriores.

Embora a crise possa ser aliviada, isto exigirá muitos esforços para satisfazer múltiplos aspectos de condições complexas. Os acontecimentos na Ucrânia não estão apenas relacionados com o confronto militar directo entre a Rússia e a Ucrânia, mas também com os membros da NATO (principalmente os EUA e alguns membros da UE) e outros países com interesses geopolíticos e geoeconómicos conexos.

Os acontecimentos na Ucrânia podem ser considerados como o culminar do contínuo conflito de grandes potências sob a mentalidade da Guerra Fria na política internacional, que envolve segurança geopolítica, segurança energética, e a colisão de valores sociais divergentes. À medida que a NATO se expande em resposta ao surto da crise na Ucrânia, os EUA e a UE têm manifestado apoio à Ucrânia, oferecido assistência a vários níveis e promovido uma série de sanções económicas contra a Rússia, catalisando os aspectos políticos e militares deste conflito geopolítico regional.

Para a Ucrânia, o conflito afectou grandemente muitos aspectos do Estado, incluindo a política interna, a defesa militar, a estabilidade económica, a política social e os meios de subsistência individuais. A Ucrânia tem recebido apoio e reconhecimento de muitos Estados democráticos por fazerem frente à Rússia e perseguirem os valores sociais da democracia praticados e promovidos pelo Ocidente. A UE também saudou um plano a longo prazo para a adesão da Ucrânia à UE, e vários Estados árticos limítrofes da Rússia anunciaram o seu desejo urgente de aderir à NATO. No entanto, é a própria Ucrânia que tem de enfrentar as dificuldades trazidas pela guerra. A série de acontecimentos que conduziram a este conflito forçaram gradualmente a Ucrânia a ser vítima de uma grande luta pelo poder em vez de ser apenas um lado importante no conflito étnico eslavo interno. Subsequentemente, é provável que a Ucrânia esteja ainda mais dividida em política, valores sociais e questões étnicas, o que terá um grande impacto negativo no desenvolvimento do Estado. Apesar dos esforços da Ucrânia para lutar pela liberdade e democracia, os direitos civis básicos e o desejo de sobrevivência das pessoas na Ucrânia não estão garantidos e as suas condições de vida são susceptíveis de se deteriorarem. Além disso, são as pessoas inocentes de ambos os lados que mais sofrem com a guerra, particularmente as que vivem no leste da Ucrânia. A confusão de identidade e a pressão emocional e psicológica trazida pela guerra devem ser aliviadas, mas mesmo que os conflitos militares e políticos terminem, o processo de recuperação nacional exigirá um longo período e um financiamento maciço.

Embora a Rússia tenha anteriormente enfatizado a importância dos laços étnicos entre os povos eslavos, bem como as suas preocupações de segurança geopolítica, a atitude positiva da Ucrânia em relação ao Ocidente forçou a Rússia a antecipar as ameaças potenciais e iminentes aos seus interesses regionais. Se a Rússia não agir, as ameaças ocultas de segurança nacional aumentarão, a sua antiga esfera de influência será reduzida e o país enfrentará novos problemas internos e externos. A acção militar da Rússia contra a Ucrânia em 2022 é amplamente considerada como uma invasão militar agressiva de um Estado soberano contra outro, e embora a Rússia tenha adoptado o que acredita ser uma estratégia viável, deve ser responsabilizada pela sua invasão militar agressiva. Devido à crescente intensificação das sanções do Ocidente, a Rússia enfrenta tanto uma crise interna (principalmente económica) como uma crise externa resultante da deterioração da sua reputação internacional, como o seu direito de falar na ONU e as suas estratégias estrangeiras, como a Grande Parceria Euro-asiática (GEP). Num curto período, embora a Rússia tenha procurado reforçar as questões de segurança nacional na direcção da Ucrânia, que se situa na antiga esfera de influência soviética, em vez disso catalisou a expansão da NATO aos vizinhos do Ártico. Ao contrário dos objectivos pretendidos, isto criou uma questão de segurança adicional e levou a uma maior perda de influência internacional. Além disso, ocorreram recentemente tragédias sociais na Rússia, como a morte de Darya Dugina, filha de Alexander Dugin. Acontecimentos deste tipo têm o efeito de perturbar nações e sociedades, causando desconfiança e esquemas internos.

Para a China, embora o país não seja membro ou aliado de nenhum dos blocos, a sua posição e opinião oficial é, no entanto, de grande interesse para a comunidade internacional. A China, como Estado emergente com um compromisso de coexistência pacífica e respeito mútuo pela soberania, vê tanto a Rússia como a Ucrânia como parceiros importantes em termos de política, economia, energia e alimentação. Por conseguinte, a China mantém o respeito por ambos os países e continuará a cooperar com base na premissa de um desenvolvimento pacífico. Como o conflito não está directamente relacionado com a China, pode abster-se de tomar partido em questões diplomáticas, continuando a aderir aos seus princípios de longa data sobre questões internacionais e a promover o desenvolvimento pacífico. Embora a NATO tenha ignorado e distorcido as considerações de segurança nacional da Rússia, exige-se à China que aborde e assuma a responsabilidade pelas acções militares da Rússia, devido à sua parceria mútua estável com a Rússia. A China não está directamente envolvida neste conflito, não está localizada na esfera de influência de qualquer das grandes potências neste confronto bilateral sob a mentalidade da Guerra Fria, e não faz parte da disputa étnica eslava; em vez disso, é meramente um parceiro não estável da Rússia com uma política externa independente. Dada esta identidade, a declaração de posições políticas e a escolha de um lado não são nem necessárias nem razoáveis. Além disso, a China tem as suas próprias preocupações sobre os acontecimentos na Ucrânia, que são o resultado de uma combinação de legados históricos, riscos geopolíticos, e integração étnica. Sendo um país multiétnico com uma história de conflito com a NATO, não é do interesse da China expressar as suas opiniões políticas em nome da Rússia, Ucrânia, ou NATO. Em vez de se concentrar no conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a China atribui mais importância à unidade étnica interna e ao desenvolvimento interno estável, bem como à resolução da questão de Taiwan. Independentemente das perspectivas da Ucrânia, Rússia, ou países ocidentais, a China tem os seus próprios interesses nacionais indirectos no que diz respeito ao conflito. Por conseguinte, como Estado fora da disputa directa, a China mantém naturalmente e compreensivelmente uma atitude neutra em relação aos acontecimentos na Ucrânia. Emocionalmente, a China tem uma forte empatia para com as pessoas que sofrem na guerra. Como um Estado que já passou por uma guerra severa, a China é solidária com aqueles que sofrem com ela, e preza a paz e o desenvolvimento.

No que diz respeito à posição da China relativamente à tendência dos acontecimentos na Ucrânia, o país deve também considerar o futuro da iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ (BRI, na sigla inglesa) e as possibilidades de desenvolvimento da combinação contemporânea da BRI e da GEP. Além de manter e consolidar a sua esfera de influência nas preocupações geopolíticas e de segurança nacional, a Rússia tem sido mais agressiva na expansão estrangeira, nas questões de segurança e na reunião étnica desde a escalada dos acontecimentos na Ucrânia. Além disso, a GEP baseada na ideia do Neo-Eurasianismo salientou originalmente o objectivo de enfraquecer o domínio da China na Eurásia no processo de cooperação entre a GEP e a BRI. Embora Alexander Dugin tenha reinterpretado as estratégias geopolíticas e diplomáticas da Rússia na China em 2018 sob a influência do Neo-Eurasianismo, a China continua a desconfiar da possibilidade de a Rússia tentar conter e limitar a continuação da extensão da BRI e a expansão da influência geopolítica da China na Eurásia. No entanto, devido à nova série de sanções unilaterais ocidentais contra a Rússia, a Rússia foi claramente enfraquecida e ligou-se subsequentemente mais estreitamente à China do ponto de vista económico, o que afecta a GEP e a sua influência regional na Eurásia. Quando a GEP for suficientemente desfavorecida na cooperação bilateral com a BRI liderada pela China, o risco de concorrência e ameaça ao domínio da BRI será reduzido. Isto proporcionará à China mais espaço para gerir e controlar a cooperação sino-russa e beneficiar a BRI a curto prazo. Contudo, no que diz respeito a problemas potenciais a longo prazo, a China deve prestar atenção à manutenção e moldagem da sua imagem internacional, ao impacto potencial da BRI e do transporte ferroviário e marítimo China-Europa através da Ásia Central, Europa Oriental e Europa Central. Além disso, as actuais relações estáveis e amigáveis entre a China e a Rússia servem para manter uma atitude céptica e resistente em relação à China. Isto poderia ter um impacto negativo na formação e manutenção da imagem internacional benigna da China e afectar assim a contínua promoção e expansão da BRI.

 

 

Edmund Li Sheng

Professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau

 

Anna Ziqing Yang

Candidata a Doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau